Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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17 de fevereiro de 2015

Ana Luísa Amaral: Lua de papel






























Se eu cantasse o amor sem resultado ou causa,
seria mais sensata: chegava-me uma lua de papel,
um par de braços lisos, conformados

Se eu cantasse o amor sem causa ou resultado,
tinha muito mais paz: fingida em luas-cheias,
seria mais sensata e decerto poeta bem melhor

Assim o que me resta é lua a trans-
bordar de tridimensional. A paz a falhar toda
e eu resolvida em causa insistir papel. E amor.


Ana Luísa Amaral
Portugal (Lisboa) 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi
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Ana Luísa Amaral: Titulo por haver


No meu poema ficaste
de pernas para
o ar
(mas também eu
já estive tantas vezes)

Por entre versos vejo-te as mãos
no chão
do meu poema
e os pés tocando o título
(a haver quando eu
quiser)

Enquanto o meu desejo assim serás:
incómodo estatuto;
preciso de escrever-te
do avesso
para te amar em excesso



Ana Luísa Amaral
Portugal (Lisboa) 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi
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15 de fevereiro de 2015

Ana Luísa Amaral: KAMASUTRAS



Atira a roupa toda
para o chão.
Depressa. Sem momento sedutor
nenhum

As peças aos bocados,
desmaiadas,
caídas pelo chão.
Do mais pesado ao mais quase
infinito de leveza

E deixa a luz
acesa. Sem sedução
nenhuma. Uma luz pelo menos



Ana Luísa Amaral
Portugal (Lisboa) 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi
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Ana Luísa Amaral: Madrigal em madrugada




A exaustão
das cinco da manhã
e a noite em claro

Gravo o poema,
que o peso da caneta
e eu nem Atlas

Os olhos fecharem-se
mais fortes
que o desejo
                 (vontade de rimar
                  nestes espaços) 

                 [Se agora tu viesses
                  dar-me um beijo
                  com certeza adormecia
                  nos teus braços]


             
Ana Luísa Amaral
Portugal > Lisboa 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi
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24 de janeiro de 2015

Ana Luísa Amaral: Coisas de luz antigas

Aquele namorado que tinha
um nome bom: há quanto tempo foi?
A vida resvalante como gelo
e aquele namorado de nome bom
e férias, ficou perdido em luz,
mais de vinte anos.


Deu-me uma vez a mão
um beijo resvalante à hora de deitar
e na pensão. Mas tinha um nome bom.
falava de cinema e calçava de azul
e um bigode curtinho,
que escorregou aceso como gelo
no centro da pensão.

Rasguei as cartas dele
há quinze anos, em dia de gavetas
e de luz, e nem fotografia me ficou
de desarrumação. Mas tinha um nome bom,
falava de cinema e calçava de azul
e resvalou-me quente como gelo
à hora de deitar:


um namorado sem falar
de amor
(que a timidez maior
e o quarto dos meus pais
nessa pensão
no mesmo corredor)



Ana Luísa Amaral
Portugal (Lisboa) 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi

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18 de janeiro de 2015

Ana Luísa Amaral: Que pode ser portátil (e trágico) o amor



Um romance de amor por esta noite
em lua nevoenta ― e uma máquina velha
de escrever. Ingénua e tão portátil,
de imensa melodia desigual.

Ah, o prazer do verso em movimento
lento, o til beijando em fogo a mancha
do papel que se arrepia ao longo
de mil gralhas. O sentimento mútuo

e vagaroso: o «um» feito com ele,
o «zero» a servir de ó, a letra que não sai,
desesperada, por culpa de algum pó,
que se intromete, negro de ciúme.

Agora, o xis em cima de palavra
moribunda de amor. Morreu. Qual trágica
Desdémona, morreu. Uma morte pujante
de sereia, com tinta longa e cheia,




e não desaparecendo-se vilmente
(Ofélia evanescente). Ah, o prazer
de linha de permeio, descalça,
toda nua, em premente desvio. O frio
que ela aqui faz, fingindo-se de frio
― na letra em desalinho ― o travessão
falhado no caminho, mas em perfeito lume.
E o regresso ao ciúme mais sublime:

voltar atrás na linha e repetir
o crime: acento muito grave e de
perfume que se tinha esquecido de nascer:
aparição agudamente bela.



Ana Luísa Amaral
Portugal (Lisboa) 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi
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11 de janeiro de 2015

Ana Luísa Amaral: O exacto curso do rio


Exactamente como foi, o medo de me enganar
mais tarde na memória - é tudo o que me resta: estar
de noite às escuras a pensar em ti

E se me lembro mal, se troco as vezes, naquela
quinta-feira o dia do amor em vez de ser
na quarta, o erro surge-me gigante,
um peso carregado como Atlas

Por isso é que preciso de lembrar coisas
exactas, como aconteceu tudo; não só
transpor depois  na ficção recolhida, sou eu
que te preciso e dos teus dias
que me foram meus

Lembrar-me exactamente como foi, o que usei
nesse dia e o que usei no outro, até que horas
tudo, se havia gente ou não
e em que dia. Porque as palavras depois se
reconstroem

O que se disse então torna-se fácil.
Assim dito parece coisa pouca,
lugar comum e
fácil, mas as noites são grandes

e lembrar-te
exactamente,
de uma forma correcta

é-me tão importante
dentro das noites a pensar em ti
sabendo: não te vejo nunca mais.


  
Ana Luísa Amaral
Portugal (Lisboa) 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi
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