Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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13 de dezembro de 2011

Casado que arrasta a asa


Casado que arrasta a asa
À mulher deste e daquele.
Merece que tenha em casa
Outro homem no lugar dele.



 
Meu amor vê se te ajeitas 
A usar meias modernas,
Dessas meias que são feitas  
Da pele das próprias pernas. 


De te ver fiquei repeso,
Em vez de ganhar perdi;
Quis prender-te fiquei preso,
E não sei se te prendi

O meu mais puro sorriso
Eu não o mostro a ninguém  ;
Mas sei rir quando preciso,  
A quem me sorri também.    

Nas quadras que a gente vê,
Quase sempre o mais bonito
Está guardado p´ra quem lê
O que lá não está escrito.

Os meus versos o que são?
Devem ser se os não confundo,
Pedaços do coração     

Que deixo cá neste mundo.  

Tu és fonte de água clara
Que deixa ver a nascente,
Porque me mostras na cara,
O que o teu coração sente.


António Aleixo
(Portugal 1899-1949)
photo by Google

15 de novembro de 2011

O pincel


Mote

Fui uma noite pintar
Com um caneco emprestado;
Eu pintei sem reparar,
Pintei e fiquei pintado.

Glosas

Eu comecei com jeitinho
A compor o ramalhete;
Primeiro foi com azeite
E depois foi com cuspinho.
No começo era estreitinho,
Custava o pincel a entrar...
Começa a dona a gritar:
"Não me parta a tigelinha",
Mas que coisa engraçadinha,
Fui uma noite pintar...

Comecei devagarinho...
Quando fui ao outro mundo
Meti o pincel ao fundo
E parti o canequinho.
Até mesmo o pincelinho
Veio de lá todo pintado,
Eu já estava desmaiado,
Perdendo as cores do rosto;
Mas pintei com muito gosto
Com um caneco emprestado.

Vem a mãe toda zangada:
"Tem que pagar-me a vasilha...
No caneco da minha filha
Não pinta você mais nada...
...Lá isto, a moça deitada,
Sem poder levantar-se,
Com tanta tinta a pingar
No lugar da rachadela!..."
"Diga lá, que desculpe ela,
Eu pintei sem reparar!"...

P'ra que vejam que sou pintor
E meu pincel nunca deixo;
P'ra que saibam que o Aleixo
Não é somente cantor...
Também pinto qualquer flor
E faço qualquer bordado;

Mas aqui o ano passado,
Perdi, de pintar, o tino...
Fui pintar, fiz um menino,
Pintei e fiquei pintado.

António Aleixo
(Portugal 1899-1949)
photo by Google