Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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13 de março de 2016

António Feijó: Folha de Salgueiro
























Adoro esta mulher moça e formosa,
Que à janela, a sonhar, vejo esquecida,
Não por ter uma casa sumptuosa
Junto ao Rio Amarelo construída…
– Amo-a porque uma folha melindrosa
Deixou cair nas águas distraída.

Também adoro a brisa do Levante
Não por trazer a essência virginal
Do pessegueiro que floriu distante,
No pendor da Montanha Oriental…
– Amo-a porque impeliu a folha errante
Ao meu batel no lago de cristal.

E adoro a folha, não por ter lembrado
A nova primavera que rompeu,
Mas por causa de um nome idolatrado
Que essa jovem mulher nela escreveu
Com a doirada agulha do bordado…
E esse nome… era o meu !



António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
photo by Google

16 de fevereiro de 2016

António Feijó: Hino à alegria


























Tenho-a visto passar, cantando, à minha porta,
E às vezes, bruscamente, invadir o meu lar,
Sentar-se à minha mesa, e a sorrir, meia morta,
Deitar-se no meu leito e o meu sono embalar.

Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos,
Quase meiga, apesar do seu riso constante,
De olhos a arder, lábios em flor, cabelos soltos,
A um tempo é cortesã, deusa ingénua ou bacante...

Quando ela passa, a luz dos seus olhos deslumbra;
Tem como o Sol de Inverno um brilho encantador;
Mas o brilho é fugaz, — cintila na penumbra,
Sem que dele irradie um facho criador.

Quando menos se espera, irrompe de improviso;
Mas foge-nos também com uma presteza igual;
E dela apenas fica um pálido sorriso
Traduzindo o desdém duma ilusão banal.

Onda mansa que só à superfície corre,
Toda a alegria é vã; só a Dor é fecunda!
A Dor é a Inspiração, louro que nunca morre,
Se em nós crava a raiz exaustiva e profunda!

No entanto, eu te saúdo e louvo, hora dourada,
Em que a Alegria vem extinguir, de surpresa,
Como chuva a cair numa planta abrasada,
A fornalha em que a Dor se transmuta em Beleza!

Pensar, é certo, eleva o espírito mais alto;
Sofrer torna melhor o coração; depura
Como um crisol: a chispa irrompe do basalto,
Sai o oiro em fusão da escória mais impura.

A Alegria é falaz; só quem sofre não erra,
Se a Dor o eleva a Deus, na palavra que O louve;
A Alma, na oração, desprende-se da terra;
Jamais o homem é vão diante de Deus que o ouve!

E contudo, — ilusão! — basta que ela sorria,
Basta vê-la de longe, um momento, a acenar,
Vamos logo em tropel, no capricho do dia,
Como ébrios, evoé! atrás dela a cantar!

Mas se ela, de repente, ao nosso olhar se furta,
Todo o seu brilho é pó que anda no sol disperso;
A Alegria perfeita é uma aurora tão curta,
Que mal chega a doirar as cortinas do berço.

Às vezes, essa luz, de tão frágil encanto,
Vem ainda banhar certas horas da Vida,
Como um íris de paz numa névoa de pranto,
Crepitação, fulgor duma estrela perdida.

Então, no resplendor dessa aurora bendita,
Toma corpo a ilusão, e sem ânsias, sem penas,
O espírito remoça, o coração palpita
Seja a nossa alma embora uma saudade apenas!

Mas efémera ou vã, a Alegria... que importa?
Deusa ingénua ou bacante, o seu riso clemente,
Quando, mesmo de longe, ecoa à nossa porta,
Deixa em louco alvoroço o coração da gente!

Momentânea ou falaz, é sempre um dom divino,
Sol que um instante vem a nossa alma aquecer...
Pudesse eu celebrar teu louvor no meu Hino!
Momentâneo, falaz encanto de viver!

O teu sorriso enxuga o pranto que choramos,
E eu não sei traduzir a ventura que exprimes!
Nesta sentimental língua que nós falamos,
Só a Dor e a Paixão têm acordes sublimes!



António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
photo by Google

António Feijó: Elegia de Abertura

A minha Lira tinha uma corda:
Enquanto moço tanto cantei,
Que a pobre corda despedacei.

Agora, ás vezes, se a Musa acorda,
E quer de novo pôr-se a cantar,
Ninguém a corda pode emendar.

Era uma corda que só vibrava
Quando a minha alma toda chorava,
E tantas mágoas, tantas, cantei,
Que a pobre corda despedacei.

O Amor e as penas da Mocidade,
Quimera ou Sonho de cada dia,
Eram os temas que ela escolhia.

Porém um dia veio a Saudade,
D'olhos vidrados e humedecidos,
Poisar-lhe os dedos emagrecidos...

Então, vibrando, toda chorosa,
Sob esses dedos, brancos de cera,
Mais angustiada nunca gemera!

E uma alma nova tão dolorosa,
Com tanta mágoa nela ressoa,
Que um ai supremo despedaçou-a!

Desde esse instante, nas minhas penas,
Sem essa corda que me sustinha,
--Pobre Saudade! chora sozinha...

Manhãs de estio, tardes serenas,
Ocasos de oiro, nocturno céu,
Para os meus olhos, tudo morreu!

Mas a Saudade, no meu tormento,
Geme e soluça com tanta mágoa,
Que, a ouvi-la, os olhos enchem-se d'água,

E sem um grito, sem um lamento,
Minha alma vive na dor que a enleia,
Como uma aranha na sua teia...

A minha Lira tinha uma corda:
Enquanto moço tanto cantei,
Que a pobre corda despedacei.

Agora, ás vezes, se a Musa acorda,
E quer de novo pôr-se a cantar,
Ninguém a corda pode emendar...

A Mocidade não pensa em nada,
E a pobre corda vi-a quebrada
Quando tocava mais afinada...

A Mocidade não pensa em nada!



António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
photo by Google

António Feijó: Hino à Solidão





























Diz-se que a solidão torna a vida um deserto;
Mas quem sabe viver com a sua alma nunca
Se encontra só; a Alma é um mundo, um mundo aberto
Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca.

Mundo vasto que mil existências povoam:
Imagens, concepções, formas do sentimento,
— Sonhos puros que nele em beleza revoam
E ficam a brilhar, sóis do seu firmamento.

Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra
Esse fecundo chão onde se esconde e medra
A semente que vai germinar na Palavra,
Cantar no Som, flores na Cor, sorrir na Pedra!

Basta que certa luz de seus raios aqueça
A semente que jaz na sua leiva escondida,
Para que ela, a sorrir, desabroche e floresça,
De perfumes enchendo as estradas da Vida.

Sei que embora essa luz nem para todos tenha
O mesmo brilho, o mesmo impulso criador,
Da Glória, sempre vã, todo o asceta desdenha,
Vivendo como um deus no seu mundo interior.

E que mundo sublime, esse em que ele se agita!
Mundo que de si mesmo e em si mesmo criou,
E em cuja criação o seu sangue palpita,
Que não há deus estranho aos orbes que formou.

Nem lutas, nem paixões: ideais serenidades
Em que o Tempo se esvai sob o encanto da Hora...
O passado e o porvir são ânsias e saudades:
Só no instante que passa a plenitude mora.

Sombra crepuscular, que a Noite não atinge,
Nem a Aurora desfaz: rosicler e luar,
Meia tinta em que a Alma abre os lábios de Esfinge,
E o seu mistério ensina a quem sabe escutar.

Mas então, inundando essa penumbra doce,
De não sei que sublime esplendor sideral,
Como se a emanação dum ser divino fosse,
Deixa no nosso olhar um reflexo imortal.

Na vertigem que a vida exalta e desvaria,
Pára alguém para ouvir um coração que bate
No seio mais formoso, o olhar que se extasia
Vê o mundo que nele em ânsias se debate?

É só na solidão que a alma se revela,
Como uma flor nocturna as pétalas abrindo,
A uma luz, que é talvez o clarão duma estrela,
Talvez o olhar de Deus, de astro em astro caindo...

E dessa luz, a flor sem forma, há pouco obscura,
Recebe o seu quinhão de graça e de pureza,
Como das mãos do artista, animando a escultura,
O mármore recebe a sua alma — a Beleza.

Se sofrer é pensar, na paz do isolamento,
Como dum cálix cheio o líquido extravasa,
A Dor, que a Alma empolgou, transborda em pensamento,
E a pouco e pouco extingue o fogo em que se abrasa.

Como a montanha de oiro, a Alma, em seu mistério,
À superfície nunca o seu teor revela;
Só depois de sondado e fundido o minério
Se conhece a riqueza acumulada nela.

Corações que a Existência em tumulto arrebata!
Esse oiro só se extrai do minério candente,
No silêncio, na paz, na quietação abstracta,
Das estrelas do céu sob o olhar indulgente...



António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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13 de janeiro de 2016

António Feijó: Beatitude Amarga



Esqueço-me a admirar os teus olhos profundos
E imagino que estou sentado à beira mar:
Vejo as ondas a erguer-se, arquipélagos, mundos,
Naufrágios, temporais, mar de leite e de luar...

Medroso, o coração tenta fugir, mas treme:
O abismo atrai o abismo! E, desvairadamente,
Despenha-se no mar, como um barco sem leme,
De onda em onda, à mercê do vento e da corrente.

Vejo-o ainda um momento a esconder-se na bruma,
E sinto uma impressão de angustia e de pesar,
--Seguindo ansiosamente o seu rasto de espuma--
Por supor que partiu para não mais voltar!

Mas tu falas, e, ao som da tua voz, desperto;
Volto a mim desse estranho sonho, a alma perdida,
Com o vago terror e o pensamento incerto
Do naufrágio que à praia ainda chegou com vida.



António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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25 de dezembro de 2015

António Feijó: Epílogo

Como um cativo, aqui te deixo, Pensamento,
As asas de oiro amarfanhadas,
Com o esforço que fiz de forma e sentimento,
Nestas estrofes mal rimadas...

Os meus olhos, a noite imensa perscrutando,
Viram-te belo e refulgente;
E ao teu contacto, a Alma em trevas, despertando,
Iluminou-se de repente.

A cadeia, que ao lodo obscuro a tinha presa,
Fundiu-se ao beijo que lhe deste;
E a alma liberta, ao sol da Graça e da Beleza,
Abriu, cantando, a asa celeste!

Descendo para mim doutras esferas, vinhas
Banhado ainda em luz sublime;
Via-te bem, sentia os encantos que tinhas,
Mas a palavra não te exprime.

E quem hoje te vê, n'estas imagens frias,
Encarcerado em duro engaste,
Nem por sombras supõe com que esplendor fulgias,
Quando aos meus olhos te mostraste!

Nem as outras visões que ficaram sem forma
Em nebulosa inconsistente,
A espera d'essa luz que ao vir de ti transforma
O pó da terra em oiro ardente...




António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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28 de novembro de 2015

António Feijó: Moiro e Cristã


O pobre moiro enamorou-se
De Ely, moça cristã, sendo filho do Emir...
Tamanha dor sentiu, que o mísero exilou-se,
Como se alguém pudesse à própria dor fugir!

Longe, na terra alheia, abrasa-lhe a memória
A imagem da mulher que a vida lhe prendeu,
Vendo-a morta, a sorrir sob um nimbo de glória,
Mas no esplendor de um céu que nem mesmo era o seu...

Por sua vez, Ely nunca pôde esquecê-lo,
E nesse imenso amor, com presságios de agoiro,
Sentia-se morrer, como um lírio no gelo,
Sem o doce luar dos seus olhos de moiro...

Mas no instante supremo, ambos crentes, temendo
Que a Morte os separasse, em tão opostos céus,
Ele invocou Jesus, cheio de fé, morrendo;
E a cristã murmurou: «Alá! só tu és Deus!»





António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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António Feijó: A resposta do árabe




















«De que país és tu?» -- A um árabe dizia
Sahid, filho d'Agbá, na estrada, ao fim do dia.

Era a hora em que o sol se fecha no Ocidente
Como o olhar moribundo e triste d'um doente.

E o árabe respondeu, banhado na piedosa
Claridade da luz, quase religiosa:

-- «Sou da raça que tem o excepcional fervor
D'amar eternamente e de morrer d'amor.» --

-- «Então és tu de Asrá.»-- acrescentou Sahid;
-- «Sim, por Caaba! Foi essa a tribo onde eu nasci.»

E de novo Sahid o interrogava atento:
-- «Por que motivo, pois, tão nobre sentimento

Nunca se muda em vós n'uma paixão nefasta? »--
O crepúsculo enchia o céu meio estrelado,
E o árabe tornou, como que iluminado:
-- «Porque a mulher é bela e a juventude é casta!»




António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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António Feijó: Princesa Encantada


























Formosa Princesa dormia há cem anos;
 Dormia ou sonhava... Ninguém o sabia.
 Passavam-se os dias, passavam-se os anos,
 E a linda Princesa dormia, dormia,
     Dormia há cem anos!

 Em torno, sentadas, dormiam as Damas,
 Cobertas de joias, cobertas de lhamas;

 Com formas e aspectos de finas imagens,
 Esbeltos e loiros, dormiam os pajens.

 E ás portas de bronze, por terra alabardas,
 Num sono profundo dormiam os guardas.

 Lá fora, na sombra dos parques discretos,
 Nem aves gorjeiam, nem zumbem insectos.

 As arvores sonham, na sombra dos poentes,
 Imóveis, à beira dos lagos dormentes.

 E as fontes que d'antes sonoras gemiam,
 Sonâmbulas mudas, apenas corriam...

 Um dia, de longe, de terras distantes,
 Com pajens, arautos, donzéis, passavantes,

 Bandeiras ao vento, clarins, atabales,
 Ecoando a distancia por montes e vales,

 --Um príncipe, herdeiro d'um trono potente,
 Com olhos suaves d'aurora nascente,

 Excelso e formoso, magnânimo e moço,
--Correndo aventuras, num grande alvoroço,

 Chegou ao Castelo, que ha tanto dormia,
 Como uma alvorada, prenuncia do dia...

 E ao ver a princesa, sentada em seu trono,
 Naquele profundo, extático sono,

 Tomado d'estranha, indizível surpresa,
 Na boca entreaberta da linda Princesa,

 Tremendo e sorrindo, seu lábio colou-se
 N'um beijo, que ao lábio a alma lhe trouxe.

 Acorda a Princesa; despertam as Damas,
 As faces ardentes, os olhos em chamas.

 Despertam os Pajens, nos seus escabelos,
 Com halos de fogo nos loiros cabelos.

 Acordam os guardas; e, tudo desperto,
 A vida renasce no parque deserto.

 Suspiram as fontes; gorjeiam as aves,
 Das áleas profundas nas sombras suaves.

 As arvores tremem, no ar transparente,
 Á brisa que sopra, como hálito ardente.

 Nas torres, os sinos repicam de festa;
 O povo em coreias enchia a floresta...

 E a linda Princesa, seus olhos fitando
 No Príncipe excelso, sorrindo e corando,

--« Sonhava contigo...» Porque é que tardaste?
 Mas já nesse instante, formando contraste,

 Quando isto dizia, erguendo-se a medo,
 A voz parecia trair o segredo

 De quem, num relance, talvez lamentasse
 Que sonho tão lindo tão cedo acabasse!...

 A linda Princesa sonhava há cem anos,
 E fora do Sonho só há desenganos...



António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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António Feijó: O romance da pastora linda





A linda Pastora, guardando o seu gado,
Andava esquecida num alto montado.

E o Rei, que voltava, sombrio, da caça,
Com seus falcoeiros e galgos de raça,

Detém-se, pensando, de súbito, ao vê-la,
Em ermo tão alto, que fosse uma estrela.

-- «Oh linda Pastora dos olhos castanhos,
Que passas a vida guardando rebanhos!

A tua beleza deslumbra os meus olhos,
Como uma tulipa no meio de abrolhos.

Teus lábios parecem cerejas vermelhas,
E a pele é mais fina que a lã das ovelhas.

Sobre o oiro das tranças, tuas faces tão puras
São duas papoilas em searas maduras.

Estrela ou Pastora, se queres ser minha,
Terás as riquezas que tem a Rainha!»

-- «A flor dos valados é sempre modesta
E a humilde zagala presume de honesta.»

-- «Terás equipagens, palácios, castelos,
E joias a arderem nos fulvos cabelos;

Um trono de esmaltes em oiros maciços,
Lacaios, escravos, fidalgos submissos!...»

-- «Às vossas riquezas, perdidas nos montes,
Prefiro mirar-me no espelho das fontes;

As joias, que valem, se eu guardo o meu gado,
Com rubras papoilas a arder no toucado?...

De nada me servem fidalgos, escravos,
Pois tenho as abelhas e o mel dos meus favos.

Segui vosso rumo, que a tarde caminha;
Guardai as riquezas que são da Rainha».

-- «Não rias, vaidosa, das minhas promessas,
Que a forca tem visto mais lindas cabeças...»

-- «Talvez que mais lindas já visse pender,
Mas nunca tão firme nenhuma há-de ver,

Que a Virgem Santíssima, a Virgem clemente,
Ampara, sorrindo, quem morre inocente,

E os anjos, descendo do céu a voar,
Á forca viriam minha alma buscar!»

E a linda Pastora, que a ser ultrajada
A morte prefere,--vai ser enforcada!

Levaram-na, á força, das suas ovelhas,
Pendendo-lhe ás tranças papoilas vermelhas,

Com gritos de escárnio, no meio da turba...
Mas nada os seus olhos serenos perturba.

E toda inundada na luz que irradia,
Sorrindo, os estrados da forca subia...

Então, n'um relance, do azul transparente,
Surgindo mais alvas que a lua nascente,

Duas pombas que descem e voam a par,
Nos braços da forca vieram poisar...

E a linda Pastora dos olhos castanhos,
Tão longe da serra, cercada de estranhos,

Sem ter um gemido, sem ter um lamento,
Expira na forca... Mas nesse momento,

No grande silencio que a morte causara,
Aos olhos de todos que atónitos viram
Tão grande prodígio, coragem tão rara,
Dos braços da forca--três pombas partiram!



António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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19 de outubro de 2015

António Feijó: A Lenda dos Cisnes


























Da praia longínqua, na areia doirada,
O Cisne pensava, fitando a Alvorada:
— «Que imensa ventura, na minha mudez,
Se dado me fosse cantar uma vez!»

— «Meu canto seria, na luz do arrebol,
Dos hinos mais altos á gloria do Sol…»

Não é das gaivotas e gansos do lago
O canto que em sonhos ardentes afago;

É quando nos bosques as aves escuto
Que a inveja confrange minha alma de luto.

Se a Aurora se lança do cume dos montes,
Até d’alegria murmuram as fontes;

Só eu, passeando o meu tédio supremo,
Nem rio, nem choro, nem canto, nem gemo.

Oh Sol, que já vejo surgindo do Mar,
Tem dó de quem, mudo, não pode cantar!»–

E o Cisne, em silencio, chorava, escutando
A orquestra das aves que passam em bando.

Das aguas rompia a quadriga d’Apollo,
E o pobre a cabeça escondia no colo…

Mas Febo detém-se nas nuvens ao vê-lo,
Com feixes de raios no fulvo cabelo,

E diz-lhe, sorrindo, n’um halo de fogo:
— «No Olimpo sagrado ouviu-se o teu rogo…»–

E nesse momento a Lira Sem Par,
Da mão luminosa deixou resvalar…

O Cisne, orgulhoso da graça divina,
Da Lira d’Apollo as cordas afina,

E rompe cantando… Calaram-se as fontes,
Calaram-se as aves… As urzes dos montes

Tremiam de gozo a ouvi-lo cantar…
E o vento sonhava na espuma do Mar.

O Cisne cantava, tirando da Lira
Um hino que nunca na terra se ouvira;

Não pára, nem sente, na sua emoção,
Que a vida lhe foge naquela canção.

Mas quando, entre nuvens, a tarde caía
No enlevo do canto que a essa hora gemia,

E Apolo no seio de Tétis desceu,
O pobre do Cisne, cantando, morreu…

Gemeram as aves; choraram as fontes;
Torceu-se nas hastes a giesta dos montes,

E o mar soluçava na tarde sombria,
Que o manto de luto com astros tecia.

Solicita espera-o, das aguas á beira,
Do Cisne, já morto, fiel companheira;

Espera que o Esposo de pronto regresse,
Mas treme e suspira, que a Noite já desce…

As aguas luzentes parecem-lhe, ao vê-las,
Um pano de enterro picado de estrelas.

Então, no seu luto, sentindo que morre,
Oceanos e praias distantes percorre;

Mergulha nas aguas, coleia nas ondas,
Espreita as galeras de velas redondas,

Que ao longe parece que vão a voar…
E o Cisne não volta, não pode voltar!

Chorosa viúva, nas aguas desliza,
Levada na fresca salsugem da brisa…

No seu abandono nem sente canseira;
Caminha, caminha, fiel companheira,

Chorando o perdido, desfeito casal…
Tão funda era a mágoa, tão grande o seu mal,

Que o peito sentindo de dor estalar,
— De dor e de angustia começa a cantar!

E canta com tanta ternura e paixão,
Que a Vida lhe foge naquela canção.

As aves despertam; calaram-se as fontes;
Nas hastes tremiam as urzes dos montes;

A Lua escutava; detinha-se a Aurora,
E as vagas gemiam no vento que chora…

Na terra, no espaço, nos astros, no céu,
Mais alta harmonia ninguém concebeu;

E os Deuses recebem, ouvindo-a, a chorar,
A alma do Cisne que expira a cantar…

Desde esse momento, no Olimpo onde entraram,
Em honra dos Cisnes que tanto se amaram,

Das almas que foram leais e sinceras,
Se Vénus se mostra, surgindo da bruma,
São eles que tiram, nas altas esferas,
A concha de nácar, cercada de espuma…




António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
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