Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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21 de junho de 2015

Se meu desejo só é sempre ver-vos: António Ferreira


Se meu desejo só é sempre ver-vos,
Que causará, senhora, que em vos vendo
Assim me encolho logo, e arrependo,
Que folgaria então poder esquecer-vos?

Se minha glória só é sempre ter-vos
No pensamento meu, porque em querendo
Cuidar em vós, se vai entristecendo?
Nem ousa meu esp’rito em si deter-vos?

Se por vós só a vida estimo, e quero,
Como por vós a morte só desejo?
Quem achará em tais contrários meios?

Não sei entender o que em mim mesmo vejo,
Mas que tudo é amor, entendo, e creio,
E no que entendo, e creio, nisso espero.


António Ferreira
(Portugal 1528-1569)
in Os dias do Amor
photo by Google

24 de maio de 2015

Aquela nunca vista formosura: António Ferreira

 
Aquela nunca vista formosura,
Aquela viva graça e doce riso,
Humilde gravidade e alto aviso,
Mais divina que humana real brandura,


Aquela alma inocente e sábia e pura
Que entre nós cá fazia um paraíso,
Ante os olhos a trago e lá a diviso
No céu triunfar da morte e sepultura.

Pois por quem choro, triste? Por quem chamo
Sobre esta pedra dura a meus gemidos,
Que nem me pode ouvir nem me responde?

Meus suspiros nos céus sejam ouvidos;
E enquanto a clara vista se me esconde,
Seu despojo, amarei, amei e amo.



António Ferreira 
(Portugal 1528-1569  
 “in Poemas de Amor
Antologia de Poesia Portuguesa
Org. Inês Pedrosa 
Editor: Publicações D. Quixote
photo by Google

30 de setembro de 2011

Aqueles olhos que eu deixei chorando: António Ferreira


Aqueles olhos qu’eu deixei chorando,
cujas fermosas lágrimas bebia
Amor, com as suas tendo companhia,
ante os meus se me vão representando.

Os saudosos suspiros qu’arrancando
duas almas, em qu ña troca Amor fazia,
qu’ a que ficava era a que partia
e a que ia a ficava acompanhando;
aquelas brandas mal pronunciadas
palavras de saudosa despedida,
entre lágrimas rotas, e quebradas;

e aquelas alegrias esperadas
da boa tomada já antes da partida;
vivas as trago não representadas.

In António Ferreira  - Poemas Maternos
(Portugal 1528-1569)
photo by Google