Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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18 de abril de 2014

Antonio Gamoneda: É ele, o pão e o esquecimento







É ele, o pão e o esquecimento;
água da juventude; sobrepõe-se
a toda a divisão. Um deus antigo
abre as veias do meu sangue e flui
até cansar meu coração. O sumo
da serenidade ferve na minha boca;
sorvo o segredo com a língua, mas
mais me sorve ele a mim. Ramos
tranquilos vergam o mosto até aos
meus lábios. Ele rouba a morte dos
meus ossos. Fala com um melro
disseminado e todo o bosque
abre os seus frutos e os mananciais
manam lentos em mim.
Chorando porém.



Antonio Gamoneda
Espanha (Oviedo) 1931
in Oração Fria, Antologia
Editor: Assirio & Alvim
photo by Google
 

15 de abril de 2014

Antonio Gamoneda: Sei que o único canto

  


















    
 Sei que o único canto
      o único digno dos cantos antigos,
          a única poesia,
              é a que cala e ainda ama este mundo,
                   esta solidão que enlouquece e despoja.



            Antonio Gamoneda
            Espanha (Oviedo) 1931
            in Oração Fria, Antologia
            Editor: Assirio & Alvim
            photo by google

14 de março de 2014

Antonio Gamoneda: Eu não entro em ti para...


Eu não entro em ti para que tu te perdas
sob a força de meu amor;
eu não entro em ti para perder-me
em tua existência nem na minha;
eu te amo e entro em teu coração
para viver com tua natureza,
para que tu vivas com minha vida.

Nem tu nem eu. Nem tu nem eu.

Nem teus cabelos dispersos ainda que os ame tanto.
Somente esta escura companhia.
Agora
sinto a liberdade.
Dispersa
teus cabelos.
           Dispersa teus cabelos.


Antonio  Gamoneda
Espanha 1931
photo by Google






4 de março de 2014

Antonio Gamoneda: Extingue-se o melro




Extingue-se o melro na incandescência dos

                                                 teus lábios

Sinto em ti grandes feridas e desnudas-te

                                   nas minhas fontes

Extingue-se o melro nas alcovas brancas

                                    onde sou cego,

onde, algumas vezes, soam em ti

                         grandes sinos.



Antonio Gamoneda
Espanha 1931
Iin “Oração Fria” Antologia
Assirio & Alvim
photo by Google

Antonio Gamoneda: Houve um tempo





Houve um tempo em que as minhas
                            únicas paixões
eram a pobreza e a chuva

Agora sinto a pureza dos limites
                       e a minha paixão
não existiria se soubesse o seu nome.


Antonio Gamoneda
Espanha 1931
Iin “Oração Fria” Antologia
Assirio & Alvim
photo by Google

Antonio Gamoneda: Há caminhos de amargura




Há caminhos de amargura
da minha boca às tuas faces.
A nudez dos teus seios
põe cinza nas minhas mãos.

Talvez entre o teu olhar
e a minha voz os mortos vibrem.


Antonio Gamoneda
Espanha 1931
Iin “Oração Fria” Antologia
Assirio & Alvim
photo by Google