Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

Mostrar mensagens com a etiqueta Artur da Távola. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Artur da Távola. Mostrar todas as mensagens

19 de janeiro de 2012

Quem namora


Quem namora agrada a Deus.
Namorar é a forma bonita de viver um amor.
Não namora quem cobra nem quem desconfia.
Namora, quem lê nos olhos e sente no coração as vontades saborosas do outro.
Namora, quem se embeleza em estado de amor
A pele melhor, o olhar com brilho de manhã.


Namora, quem suspira, quem não sabe esperar, mas espera,
quem se sacode de taquicardia e timidez diante da paixão.
Namora, quem ri por bobagem, quem entra em estado de música da Metro,
quem sente frios e calores nas horas menos recomendáveis.


Não namora quem ofende, quem transforma a relação num inferno, ainda que por amor.
Amor às vezes entorta, sabia? E quando acontece, o feito pra bom faz-se ruim.
Não namora quem só fala em si e deseja o parceiro apenas para a glória do próprio eu.
Não namora quem busca a compreensão para a sua parte ruim.
O invejoso não namora. Tampouco o violento!

Namorados que se prezam tem a sua música.
E não temem se derreter quando ela toca.
Ou, se o namoro acabou, nunca mais dela se esquecem.


Namorados que se prezam gostam de beijo, suspiro,
morderem o mesmo pastel, dividir a empada, beber no mesmo copo.
Apreciam ternurinhas que matam de vergonha fora do namoro
ou lhes parecem ridículas nos outros.


Por falar em beijo, só namora quem beija de mil maneiras
e sabe cada pedaço e gostinho da boca amada.
Beijo de roçar, beijo fundo, inteirão, os molhados,
os de língua, beijo na testa,
beijo livre como o pensamento, beijo na hora certa e no lugar desejado.
Sem medo nem preconceito.
Beijo na face, na nuca e aquele especial atrás da orelha no lugar que só ele ou ela conhece.


Namora, quem começa a ver muito mais no mesmo que sempre viu e jamais reparou.
Flores, árvores, a santidade, o perdão, Deus, tudo fica mais
fácil para quem sabe de verdade o que é namorar.


Por isso só namora quem se descobre dono de um lindo amor,
tecido do melhor de si mesmo e do outro.
Só namora quem não precisa explicar, quem já começa a
falar pelo fim, quem consegue manifestar com clareza e facilidade
tudo o que fora do namoro é complicado.


Namora, quem diz: "Precisamos muito conversar"; 
e quem é capaz de perder tempo,
muito tempo, com a mais útil das inutilidades e pensar no ser amado,
degustar cada momento vivido e recordar palavras, fotos e carícias
com uma vontade doida de estourar o tempo e embebedar-se de flores astrais.

Namora, quem fala da infância e da fazenda das férias,
quem aguarda com aflição, o telefone tocar
e dá um salto para atendê-lo antes mesmo do primeiro trim.

Namora quem namora, quem à toa chora, quem rememora,
quem comemora datas que o outro esqueceu.
Namora quem é bom, quem gosta da vida, de nuvem,
de rio gelado e de parque de diversões.


Namora quem sonha, quem teima, quem vive morrendo de amor e quem morre vivendo de amar

Artur da Távola
(Brasil 1936-2008)

14 de janeiro de 2012

Amar bonito

 Talvez seja tão simples, tolo e natural que você nunca tenha parado para pensar:
Aprenda a fazer bonito seu amor. Ou fazer o seu amor ser ou ficar bonito.
Aprenda, apenas, a tão difícil arte de amar bonito.
Gostar é tão fácil que ninguém aceita aprender...
Tenho visto muito amor por aí.
Amores mesmo: bravios, gigantescos, escomunais, profundos, sinceros,
cheios de entrega, doação e dádiva.



Mas esbarram na dificuldade de se tornar bonitos.
Apenas isso: bonitos, belos ou embelezados, tratados com carinho, cuidado e atenção.
Amores levados com arte e ternura de mãos jardineiras.
Aí, esses amores que são verdadeiros, eternos e descomunais, de repente se percebem ameaçados
e tão somente porque não sabem ser bonitos: cobram, exigem, rotinizam, descuidam,
reclamam, deixam de compreender, necessitam mais do que oferecem,
precisam mais do que atendem, enchem-se de razões.
Sim, de razões.
Ter razão é o maior perigo no amor.



Quem tem razão sempre se sente no direito (e o tem) de reivindicar, de exigir justiça, equidade, equiparação, sem atinar que o que está sem razão talvez passe por um momento de sua vida no qual não possa ter razão.
Nem queira!!!
Ter razão é um perigo: em geral, enfeia um amor, pois é invocado com justiça, mas na hora errada.
Amar bonito é saber a hora de ter razão. Ponha a mão na consciência. Você tem certeza de que está fazendo o seu amor bonito?
De que está tirando do gesto, da ação, da reação, do olhar, da saudade, da alegria do encontro, da dor do desencontro a maior beleza possível?


Talvez não. cheio ou cheia de razões, você separa do amor apenas aquilo que é exigido por suas partes necessitadas, quando talvez dele devesse pouco esperar, para valorizar melhor tudo de bom que de vez em quando ele pode trazer.
Quem espera mais do que isso sofre e, sofrendo, deixa de amar bonito.
Sofrendo, deixa de ser alegre, igual, irmão, criança.
E sem soltar a criança, nenhum amor é bonito.
Não tema o romantismo.
Derrube as cercas da opinião alheia.



Faça coroas de margaridas e enfeite a cabeça de quem você ama.
Saia cantando e olhe alegre.

Recomenda-se:  
encabulamentos, ser pego em flagrante gostando, não se cansar de olhar e olhar, não atrapalhar a convivência com teorizações,adiar sempre...se possível com beijos
-'aquela conversa importante que precisamos ter', arquivar, se possível, as reclamações pela pouca atenção recebida.



Para quem ama, toda atenção é sempre pouca.
Quem ama feio não sabe que pouca atenção pode ser toda a atenção possível.
Quem ama bonito não gasta tempo dessa atenção cobrando a que deixou de ter.
Não teorize sobre o amor
(deixe isso para nós, pobres escritores que vemos a vida como criança de nariz encostado na vitrine cheia de brinquedos dos nossos sonhos);
não teorize sobre o amor, ame. Siga o destino dos sentimentos aqui e agora.
Não tenha medo exatamente de tudo o que você teme, como: a sinceridade, abrir o coração, contar a verdade do tamanho do amor que sente; não dar certo e depois vir a sofrer (sofrerá de qualquer jeito). Jogue por alto todas as jogadas, estratagemas, golpes, espertezas, atitudes sabiamente eficazes (não é sábio ser sabido): seja apenas você no auge de sua emoção e carência, exatamente
aquele que a vida impede de ser.
Seja você cantando desafinado,
as todas as manhãs.
Falando besteiras, mas criando sempre.
Gaguejando flores.
Sentindo o coração bater como no tempo de Natal infantil.
Revivendo os caminhos que intuiu em criança.


Artur da Távola
(Brasil 1936-2008)