Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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29 de junho de 2013

O Amor Infinito: Camilo Castelo Branco


Da mulher o que nos comove e enleva é a parte impoluta que ela tem do céu; é a magia que a fada exercita obedecendo a interno impulso, não sabido dela, não sabido de nós. Ali há mensagem de outras regiões; aqui, no peito arquejante, nos olhos amarados de gozozas lágrimas, há um espirar para o alto, um ir-se o coração avoando desde os olhos, desde o sorriso dela para soberanas e imorredouras alegrias. Nós é que não sabemos nem podemos ver senão o pouquinho desse infinito que nos entre-luz nas graças do primeiro amor, do segundo amor, de quantos estremecimentos de súbita embriaguez nos fazem crer que despimos o invólucro de barro e pairamos alados sobre a região das lágrimas.

É Deus que não quer ou somos nós que não podemos prorrogar a duração ao sonho? Se Deus, que mal faria à sua divina grandeza que o pequenino guzano o adorasse sempre? Porque vai tão rápida aquela estação em que o homem é bom porque ama, e é caritativo e dadivoso porque tudo sobeja à sua felicidade? Quando poderam aliar-se um amor puro com a impureza das intenções? Quais olhos de homem afectivo e como santificado por seu amor recusaram chorar sobre desgraças estranhas? Que exuberância de bens a desbordar da alma! Que ânsia de fazermos em redor de nós alegrias, fortunas, mãos erguidas connosco a bem-dizer os contentamentos que nos chove o manancial dos puros deleites.

Não é Deus que nos agourenta as alegrias castas, as espirações que lhe comprazem. Nós é que não sabemos que luz é essa da nova manhã que dentro nos alumia voluptuosidades desconhecidas. Atribuímos ao efeito os prestígios da causa. É que não podemos ver por longo tempo a mensageira dos mundos estrelados: quizemos pôr a mão na vara que nos encantou; e a vara fez-se serpente, porque a alma imaculada já não era o impulsor da nossa ansiedade. O homem, escurecido já no interior, viu a mulher ao sol da terra, sol que incende o sangue, e abraza o rosto e cresta as asas do anjo. Ai dos anjos em carne que olham depois em si e correm a vestir-se da folhagem do paraíso! Desde esse momento a luz do homem, o calor das paixões radia do montante de fogo que empunha o executor de alta justiça. Fora do éden está o inferno. A baliza encravada na fronteira maldita chama-se o TÉDlO.


Camilo Castelo Branco
Portugal 1825-1890
in Obras completas

photo by Google

Paixão única: Camilo Castelo Branco














Quem me dera poder ver-te!
Ai! quem me dera dizer-te,
Que pude amar-te, e perder-te,
Mas olvidar-te... isso não!
Que no ardor de outros amores,
Através de mil dissabores,
Senti vivas sempre as dores
Duma remota paixão.

Com que dorida saudade
Penso nessa mocidade,
Nessa vaga ansiedade,
Que soubeste compreender!
E tu só, só tu soubeste,
Que, num mundo, como este,
Qual florinha em penha agreste,
Pode a flor da alma morrer.

Orvalhaste-a quando ainda,
Ao nascer, singela e linda,
Respirava a esperança infinda,
Que consigo a infância tem.
Amparaste-a, quando o norte
Das paixões, soprando forte,
Lhe quiz dar rápida morte
Como à cândida cecem!

E, depois, nuvem escura
Lá no céu desta ventura
Enlutou-me a aurora pura
Dos meus anos infantis.
Houve nesta vida um espaço,
Onde nunca dei um passo,
Em que não deixasse um traço
De paixões torpes e vis !

E não tenho outra memória
Que me inspire altiva gloria,
Nem outro nome na historia
De meus delírios fatais.
Se percorro à longa escala,
De paixões que a honra cala,
Quem de um nobre amor me fala
És só tu... e ninguém mais!..

És só tu! De resto, apenas
Nestas variadas cenas
De ilusões, e inglórias penas,
Nada sinto o que perdi!...
Sinto bem esse desdouro,
Que comprei com falso ouro,
Em desprezo de um tesouro,
Que só pude achar em ti!


Camilo Castelo Branco
Portugal 1825-1890
in Carta a Patrícia Emília
photo by Google

26 de junho de 2013

O Segredo de Salvar-me Pelo Amor: Camilo Castelo Branco


Quem há aí que possa o cálix
De meus lábios apartar?
Quem, nesta vida de penas,
Poderá mudar as cenas
Que ninguém pôde mudar ?

Quem possui na alma o segredo
De salvar-me pelo amor?
Quem me dará gota de água
Nesta angustiosa frágua
De um deserto abrasador?

Se alguém existe na terra
Que tanto possa, és tu só!
Tu só, mulher, que eu adoro,
Quando a Deus piedade imploro,
E a ti peço amor e dó.

Se soubesses que tristeza
Enluta meu coração,
Terias nobre vaidade
Em me dar felicidade,
Que eu busquei no mundo em vão.


Busquei-a em tudo na terra,
Tudo na terra mentiu!
Essa estrela carinhosa
Que luz à infância ditosa
Para mim nunca luziu.

Infeliz desde criança
Nem me foi risonha a fé;
Quando a terra nos maltrata,
Caprichosa, acerba e ingrata,
Céu e esperança nada é.

Pois a ventura busquei-a
No vivo anseio do amor,
Era ardente a minha alma;
Conquistei mais de uma palma
À custa de muita dor.

Mas estas palmas tais eram
Que, postas no coração,
Fundas raízes lançavam,
E nas lágrimas medravam
Com frutos de maldição.

Em ânsias de alma, a ventura
Nos dons da ciência busquei.
Tudo mentira! A ciência
Era um sinal de impotência
Da vã Razão que invoquei...

Era um brado, um testemunho
Do nada que o mundo é.
Quanto a minha mente erguia
Tudo por terra caía,
Só ficava Deus e a fé.

Lancei-me aos braços do Eterno
Com o fervor de infeliz;
Senti mais fundas as dores,
Mais agros os dissabores...
O próprio Deus não me quis!

Depois, no mundo, cercado
Só de angustias, divaguei
De um abismo a outro abismo
Pedindo ao louco cinismo
O prazer que não achei.

Tristes correram meus anos
Na infância que em todos é
Bela de crenças e amores,
Terna de risos e flores
Santa de esperança e de fé.

Assim negra me era a vida
Quando, ó luz da alma, te vi
Baixar do céu, onde outrora
Te busquei, mão redentora,
Procurando amparo em ti.

Serás tu a mão piedosa,
Que se estende entre escarcéus
Ao perdido naufragado?
Serás tu, ser adorado,
Um prémio vindo dos céus?

E eu mereço-te, que imenso
Tem já sido o meu quinhão
De torturas não sabidas,
Com resignação sofridas
Nos seios do coração.

Que ternura e amor e afagos
Toda a vida te darei!
Com que jubilo e delírio,
Nova dor, novo martírio,
De ti vindo, aceitarei!

Se na terra um céu desejas
Como o céu que eu tanto quis,
Se d'um anjo a glória queres,
Serás anjo, se fizeres,
Contra o destino, um feliz.

Faz que eu veja nestas trevas
Um relâmpago de amor,
Que eu não morra sem que diga:

«Tive no mundo uma amiga,
Que entendeu a minha dor.

Deu-me ela o estro grande
Das memoráveis canções;
Acendeu-me a extinta chama
Da inspiração que inflama
Regelados corações.

Os segredos dos afectos
Que mais puros Deus nos deu,
Ensinou-mos ela um dia
Que de entre arcanjos descia
Com linguagem do céu.

Os mimosos pensamentos
Que, de mim soberbo, leio,
Inspirou-mos, deu-mos ela
Recostando a fronte bela
Sobre o meu ardente seio.

Morta estava a fantasia
Que o gelo da alma esfriou;
Tinha o espírito dormente,
Só no peito um fogo ardente,
Quando o céu me a deparou.

Agora morro no gozo
De uma saudade imortal.
Foi ditosa a minha sorte;
Amei, vivi: venha a morte,
Que morte ou vida é-me igual.

Igual, sim, que o amor profundo,
Como foi na terra o meu,
Não expira, é sempre vivo,
Sempre ardente e progressivo
Em perpétuo amor do céu».

Assim, querida, meus lábios,
Já moribundos, dirão,
Nas agonias supremas,
Essas palavras extremas
Do meu ao teu coração.

Sabes quem é, neste mundo,
Quase igual ao Redentor?
É quem diz: «Sou adorada
Pela alma resgatada,
Por mim, das ânsias da dor.»

                                                     Carta a Ana Plácido
Camilo Castelo Branco
Portugal 1825-1890
in Obras Completas

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18 de junho de 2013

O Amor Indómito: Camilo Castelo Branco




















Há casos de alucinação, extasis incendiados de fantasia, em que o homem subjuga ao seu transporte as férreas considerações sociais, fazendo-as reflexivas de todo o brilho da sua alegria. É por isso que as grandes paixões estão em divórcio com o juízo prudencial.No mar da vida o fanal do amor é o que mais resplende. Cegam-se os olhos e entendimentoao que mais ansiosamente o fita. Com a mente fixa nesse clarão esperançoso, que tão frouxas résteas de luz nos dá em paga de tremendos trabalhos, transcuram-se vagas e baixios que nos assaltam o pobre baixel. O amor indómito, fremente e tempestuoso é um naufrágio que se ama, uma dor com que se brinca, e, enfim, um delírio honroso em qualquer criatura. 


Camilo Castelo Branco
Portugal 1825-1890
in  Anátema
photo by Google