Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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23 de agosto de 2015

Camilo Pessanha: Floriram por engano as rosas bravas


































Floriram por engano as rosas bravas
No Inverno: veio o vento desfolhá-las...
Em que cismas, meu bem? Porque me calas
As vozes com que há pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!...
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve,
Surda, em triunfo, pétalas, de leve
Juncando o chão, na acrópole de gelos...

Em redor do teu vulto é como um véu!
Quem as esparze — quanta flor! —, do céu,
Sobre nós dois, sobre os nossos cabelos?



Camilo Pessanha
Portugal, Coimbra 1867 – China, Macau 1926
in Clepsydra – Poemas de Camilo Pessanha
Editor: Assirio & Alvim
photo by Google


14 de dezembro de 2013

Ao longe os barcos de flores : Camilo Pessanha

Só, incessante, um som de flauta chora, 
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
- Perdida voz que entre as mais se exila,
- Festões de som dissimulando a hora

Na orgia, ao longe, que em clarões cintila
E os lábios, branca, do carmim desflora...
Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila.

E a orquestra? E os beijos? Tudo a noite fora,
Cauta , detém. Só modulada trila
A flauta flébil... Quem há-de remi-la?
Quem sabe a dor que sem razão deplora?

Só, incessante, um som de flauta chora...


Camilo Pessanha
(Portugal 1867- Macau 1926)
in Clepsidra

17 de fevereiro de 2012

Eu não sei se é o amor: Camilo Pessanha

... Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, com este sol de inverno.
Passo contigo a tarde, sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, quem provoca.
Eu não demoro a olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é o amor, será talvez começo.
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

Camilo Pessanha in Interrogação (excerto)
(Portugal 1867-1926)

11 de novembro de 2011

Fonógrafo II; Camilo Pessanha


Esvelta surge! Vem das águas, nua,
Timonando uma concha alvinitente!
Os rins flexíveis e o seio fremente...
Morre-me a boca por beijar a tua.

Sem vil pudor! Do que há que ter vergonha?
Eis-me formoso, moço e casto, forte.
Tão branco o peito! – para o expor à morte...
Mas que ora – a infame! – não se te anteponha.

A hidra torpe!.. Que a estrangulo... Esmago-a
De encontro à rocha onde a cabeça te há-de,
Com os cabelos escorrendo água.

Ir inclinar-se, desmaiar de amor,
Sob o fervor da minha virgindade
E o meu pulso de jovem gladiador.

Camilo Pessanha
(Portugal  1867-1926)
photo by Google