Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Oliveira. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Carlos Oliveira. Mostrar todas as mensagens

29 de março de 2014

Carlos de Oliveira: Carta a Ângela


Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e futuro,
cada dia dos dias que viver.

Os abismos das coisas , quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!

Quantas vezes chorando te alcancei
e em lágrimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!

Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste , de novo, e de sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.

Transpondo os versos vieste à minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor!


                   aqui te deixo tudo, meu Amor!

Carlos de Oliveira
Brasil (Belém do Pará) 1921
Portugal (Lisboa) 1981
in Trabalho Poético
Editor: Assirio & Alvim

photo by Tutt' Art

19 de maio de 2012

Cantiga do Ódio: Carlos Oliveira

O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa,
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?

Carlos Oliveira in Trabalho Poético
(Portugal 1921-1981)

26 de março de 2012

Bilhete Postal : Carlos Oliveira

Escrevo-te agasalhando o nosso amor,
que o tempo é este inverno sem disfarce:
Pelos meus olhos fartos de miséria
Mereço bem a luz da tua face.

Mas no meu coração as pobres coisas
choram, a cada lágrima exigida,
a tristeza precisa pra que eu saiba
quanto custa a alegria duma vida!

Carlos Oliveira in 366 poemas que falam de amor
"Brasil 1921 - Portugal 1981"

Soneto da chuva : Carlos Oliveira

Quantas vezes chorou no teu regaço
a minha infância, terra que eu pisei:
aqueles versos de água onde os direi,
cansado como vou do teu cansaço?
Virá Abril de novo, até a tua
memória se fartar das mesmas flores
uma última órbita em que fores
carregada de cinzas como alma.
Porque bebes as dores que me são dadas,
desfeito e já no vosso próprio frio
meu coração, visões abandonadas.
Deixem chover as lágrimas que eu crio:
menos que chuva e lama nas estradas
és tu, poesia, meu amargo rio.

Carlos Oliveira
(Portugal 1921-1981)
photo by Google