Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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24 de março de 2013

Do corpo repousado: Casimiro de Brito


Talvez a vida não seja luminosa
mas tem momentos: o lago da cama, o sol
Na lombada dos livros, o joelho
Amável
Da mulher deitada. Como vai ser a manhã
não sei, ergo a minha taça.

Amadurece o mar, mergulho na luz
E regresso a casa: a boca na maçã
À sombra do teu olhar, a música
Dos gatos, as tuas mãos que envolvem
As árvores do meio-dia. Sabor a terra,
Gota a gota, na minha língua.

Caminho na praia como quem sente
As peles sobrepostas do mundo em volta
Do meu corpo, coração de pó
E sento-me em repouso a ouvir a respiração
Do vinho. Talvez a noite não apague
Esta magia

Casimiro de Brito
(Portugal 1938)
in 69 poemas de amor

23 de março de 2013

Quando amo uma mulher: Casimiro de Brito

Quando amo uma mulher é como
se amasse todas as matérias
do mundo uma só boca onde pouso
a língua uma só fenda que me leve
por montes e vales neve incandescência
aos rios silenciosos
que nascem do fundo.

Casimiro de Brito
(Portugal 1938)
in 69 poemas de amor

Quantas vezes caminhei pela praia: Casimiro de Brito

Quantas vezes caminhei pela praia
à espera que viesses. Luas inteiras.
Praias de cinza invadidas pelo vento.
Quantas estações quantas noites
indormidas. embranqueceram-me
os cabelos. E só hoje
quando exausto me deitei em mim
reparei
que sempre estiveste a meu lado.
Na cal frágil dos meus ossos.
Nas hastes do mar infiltradas
no sangue. Na película
dos meus olhos quase cegos


Casimiro de Brito
(Portugal 1938)
in 69 poemas de amor

22 de março de 2013

Noite por ti despida: Casimiro de Brito

Adulta é a noite onde cresce
o teu corpo azul. A claridade
que me dás em troca dos meus ombros
cansados. reflexos coloridos. Amei
o amor. Amei-te meu amor sobre ervas
orvalhadas. Não eras tu porém
o fim dessa estrada sem fim.
Canto apenas (enquanto os álamos
amadurecem) a transparência, o caminho.
A noite por ti despida. Lume e perfume
do sol. Intimo rumor do mundo


Casimiro de Brito
(Portugal 1938)
" in 69 poemas de amor "

Nono fragmento: Casimiro de Brito

Como são belos os teus seios! Foram feitos
à medida das minhas mãos. Pousa-os
na minha boca e conta-me
a tua história. Não tens história?
Não tens noite nem vazio nem praia
branca? Fala-me então
do sol, da migração dos pássaros, da mansidão
das estrelas - fala-me de ti antes de possuíres
um nome, uma história. Sim
em qualquer parte
lançaremos os nossos corpos na relva; alfaias
efémeras; armas exíguas
ardidas na guerra. Como são belos
os teus seios! Trémulas palavras.
Deixa que neles eu me queira como quem
se deita num rio.Iluminas
as águas e as estrelas. O percurso
é longo. O silêncio montanhoso. Debruço-me
na tua solidão.

Casimiro de Brito
(Portugal 1938)
" in 69 poemas de amor "

Apenas paixão: Casimiro de Brito

A voz que se levanta o ruído
Hasteado na brisa
Que me toca nos ombros
A tua boca as tuas mãos de água
Ora deslizante ora íntima sedentária
O vento breve que me esculpe em músculos
Cada vez mais sensíveis
A onda que no ar se acende
Entre o rumar da história e o cheiro das tílias
A carne que vai morrer mas também
O suor e o sabor de quem amo
E bebo
E canto
Para que não se perca nada
Para que nada se perca enquanto
O meu sexo amaciado nas tuas águas
Se ajuste à curva do céu
E o meu dorso esmagado pelo dorso do mundo
Encontre no chão da casa o repouso
De quem não tem repouso apenas
Paixão...

Casimiro de Brito
(Portugal 1938)
" in 69 poemas de amor "