Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

Mostrar mensagens com a etiqueta Charles Baudelaire. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Charles Baudelaire. Mostrar todas as mensagens

16 de fevereiro de 2016

Charles Baudelaire: Um hemisfério numa cabeleira



























Deixa-me respirar longamente, longamente, o aroma dos teus cabelos,
neles mergulhar todo o meu rosto, como um homem sedento na água de
uma nascente, e agitá-los na minha mão como um lenço aromático, para
sacudir recordações no ar.
          Se pudesses saber tudo aquilo que vejo! tudo aquilo que eu sinto!
tudo aquilo que ouço nos teus cabelos! A minha alma viaja por sobre o
perfume como a alma dos outros homens sobre a música.
         Os teus cabelos levam um sonho inteiro, cheio de velames e de mastreações;
levam grandes mares de monções que me transportam para encantadores climas,
onde o espaço é mais azul e mais profundo, de atmosfera perfumada pelos frutos,
pelas folhas e pela pele humana.
         No oceano da tua cabeleira avisto um porto irrompendo em cantos
 melancólicos, homens vigorosos de todas as nações e navios de todos os
formatos recortando arquiteturas finas e complicadas num céu imenso em
que preguiça o eterno calor.
Nas carícias da tua cabeleira reencontro as demoras das longas horas
passadas num divã, no quarto de um belo navio, embaladas pelo rolar
imperceptível do porto, entre os vasos de flores e os cântaros refrescantes.
         No lar ardente da tua cabeleira, respiro o aroma do tabaco mesclado
em ópio e açúcar; na noite da tua cabeleira vejo resplandecer o infinito do
horizonte tropical; nas margens sedosas da tua cabeleira embriago-me com
os aromas misturados do almíscar, do alcatrão e do óleo de coco. 
         Deixa-me morder demoradamente as tuas tranças pesadas e negras.
Quando mordisco teus cabelos elásticos e rebeldes, julgo estar a
mastigar recordações.


Charles Baudelaire
França, Paris 1861-1867
Trad. Filipe Jarro
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
photo by Google

27 de julho de 2014

Charles Baudelaire: A Musa Venal (Uma puta de musa)


Ó minha musa de meu peito, amante de palácios,
Quando Janeiro deixar seu Boreal, onde irás buscar
Para os serões gélidos de imagens negras
Brasas que aqueçam teus dois pés violáceos?

Sim atravessam as persianas os raios da lua
Mas tantos que aqueçam teus ombros nus?
Ou sentindo a bolsa vazia e ascético o palato
Contas com o ouro da celestial arquitectura?

O facto é que no teu ganha-pão nocturno
É mister dar ao turíbulo como um sacrista
Que canta loas divinas em que não crê.

Ou clow em jejum, por a nu as tuas nádegas
Enquanto com graças escondes as mágoas
Para gáudio, evidentemente, da rata da freguesia.


Charles Baudelaire
França; Paris 1821-1867
in As flores do mal
Editor: Relógio D'água
photo by google


17 de novembro de 2011

A fonte de sangue: Charles Baudelaire

Muitas vezes parece jorrar o meu sangue
como uma fonte - então me sinto vago, exangue;
ouço-o como um murmúrio surdo em minha vida
mas me atormento em vão, sem achar a ferida.

Pela cidade inteira a escorrer, vai formando
sobre um campo fechado, ilhas de vez em quando,
e vai matando a sede a cada criatura
pondo em tudo o que toca uma rubra moldura.

Tenho pedido sempre aos vinhos capitosos
esquecer, por um dia, essa angustia tão rara,
- o bom vinho que à vista e que ao ouvido aclara.

E só no amor achei os sonos generosos,
mas o amor para mim a um leito em brasas, feito
para um sofrer cruel! E um inferno em meu peito!

Charles Baudelaire
(France 1821-1867)
Photo by Google