Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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28 de maio de 2015

Christina Rossetti: Sossego


Ó terra, cai pesada por caridade;
Cobre seus olhos cansados de olhar;
Deita-te ao pé, que não sobre lugar
Para ânsia ou riso de hilaridade.

Não perguntou, ninguém lhe respondeu:
Protegida por escassez bendita
De tudo que lhe fizesse desdita,
luz num sossego semelhante ao Céu.

Em paz repousa o seu coração:
A noite o recolheu em claridade,
O silêncio cantou-lhe uma canção.

Descansa agora sem comoção
Até ao dealbar da Eternidade;
E quando acordar não será tarde.




Christina Rossetti
Reino Unido » Londres 1830-1894
in O mercado dos duendes e outros poemas
Editor: Assirio & Alvim
photo by google

6 de abril de 2015

Christina Rossetti: Golpe de asa



Uma vez sonhei que te encontrava,
Estávamos os dois em campo aberto;
Sobre nós dois pombos esvoaçavam
E cortejavam-se a descoberto.

Quando eis que se abate a escuridão,
Descendo a pique, tal voraz falcão,
E os devora, fracos pr’a voar,
Devendo o seu prazer renunciar,

E vendo eu tombar do firmamento
Suas brancas penas de sangue manchadas,
Meus olhos ergui p’ra ti chorando.

Mas tu fugiras; e as árvores ao vento
Bailavam ao som do balido brando
Das cabras e ovelhas tresmalhadas.


Christina Rossetti
Reino Unido (Londres) 1830-1894
in O mercado dos duendes e outros poemas
Editor: Assirio & Alvim
photo by google








Christina Rosseti: Canção 10



Quando eu morrer, meu querido,
Não me cantes canções tristes;
Nem rosas em minha cama
Plantes, nem sombrios ciprestes.
Sê tu a relva que cobre
E com orvalho me aquece;
E se quiseres recorda,
e se quiseres esquece.


Não hei-de sentir a sombra,
Não hei-de sentir a chuva;
Nem ouvir a cotovia
cantando como viúva.
E, sonhando p’lo crepúsculo
Que nunca há-de findar,
Feliz possa eu lembrar
E feliz possa olvidar.




Christina Rossetti
Reino Unido (Londres)  1830-1894
in O mercado dos duendes e outros poemas
Editor: Assirio & Alvim

photo by google

Christina Rossetti: Canção 4


Oh rosas no rubor da mocidade
Loureiro da idade adolescente;
Mas colhei para mim um ramo de hera
Envelhecido prematuramente.

Violetas pr’á campa da mocidade,
Grinaldas pr’a quem morre adolescente;
mas dai-me as folhas murchas que eu escolhi
No tempo de antigamente.


Christina Rossetti
Reino Unido (Londres) 1830-1894
in O mercado dos duendes e outros poemas
Editor: Assirio & Alvim
photo by google

5 de maio de 2013

Depois da morte : Christina Georgina Rossetti





































As cortinas estavam meio corridas, o chão varrido
       Semeado de juncos, rosmaninho e primaveras
       espessos deitados sobre a cama em que me deito.
Pelas gelosias trepavam as sombras das heras.

Inclinou-se sobre mim, pensando que eu dormia
       E não o ouviria, mas ouvi-o dizer:
       " Pobre criança, pobre criança! " e ao afastar-se
Caíu um silêncio profundo, e percebi que chorava.

Não tocou na mortallha, não levantou a dobra
       Que me escondia a cara, nem pegou na minha mão,
           Ou me ajeitou as almofadas macias para a cabeça
              Não me amou viva, mas uma vez morta
                Teve piedade de mim. E é muito doce
Sabê-lo ainda caloroso embora estando eu fria.


Christina Georgina Rossetti
(England 1830-1894)
in Os Pré-Rafaelitas "Antologia Poética"
photo by Google

Recorda: Christina Georgina Rossetti

                 





















                   Recorda-me quando eu te abandonar
Quando me for sob a terra silente,
Quando achares a minha mão ausente,
E eu, querendo partir, já não ficar.

Quando já não me puderes contar
Planos dum futuro que nos não cabe,
Recorda-me somente; tu bem sabes 
Que então será tarde para rezar.

Mas se me esqueceres entrementes
E depois recordares, não lamentes:
Pois se a corrupção te assombrar os dias

Com ideias que eu tinha na cabeça,
Melhor será que esqueças e sorrias
Do que minha memória te entristeça.

 

Christina Georgina Rosseti
(England 1830-1894)
in O mercado dos duendes e outros poemas
Assirio & Alvim
photo by Google

Eco : Christina Georgina Rossetti























Vem até mim no silêncio da noite,
Vem no silêncio sussurrante de um sonho,
Vem com faces cheias e doces e olhos brilhantes
Como a luz do sol num regato,
Vem de volta em lágrimas
Oh! memória, esperança, amor de anos findos.
(...)
Mas vem até mim em sonhos, para que possa de novo viver
A minha vida verdadeira, embora fria na morte
Vem de volta para mim em sonhos, para que possa dar
Pulsar por pulsar, alento por alento:
Fala baixinho, inclina-te mais
Como há tanto tempo, meu amor, há quanto tempo.


Christina Georgina Rossetti
(England 1830-1894)
in Os Pré-Rafaelitas "Antologia Poética"
photo by Google

16 de abril de 2013

Ergue-me um altar de seda e penas: Christina Georgina Rossetti

 
       Ergue-me um altar de seda e penas
Engrinalda-o de cores garridas;
       Cinzela-o com pombas e romãs,
E pavões com caudas de mil olhos;
       Talha-o em ouro e cachos de uvas prateados.
Enche-o de folhas e flores de lis;
       Porque o aniversário da minha vida chegou,
                     O meu amor veio até mim.


Christina Rossetti
(England 1830-1894)