Ninguém compreendia o aroma
da escura magnólia do teu ventre.
Ninguém sabia que martirizavas
um colibri de amor entre os teus dentes.
Mil potros persas adormeciam
na praça lunar da tua fronte,
enquanto eu enlaçava quatro noites
a tua cintura, hostil a neve.
Entre gesso e jasmins, o teu olhar
era um pálido ramo de sementes.
Procurarei, para te dar, no meu peito
as letras de marfim que dizem sempre.
Sempre, sempre: jardim desta agonia,
teu corpo fugitivo para sempre,
teu sangue arterial na minha boca,
tua boca já sem luz para esta morte.
Federico García Lorca
Espanha 1898-1936
in Poemas - Assirio & Alvim
Trad. Eugénio de Andrade
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Carta de apresentação
O SECRETO MILAGRE DA POESIA
Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.
Excerto
in Rosa do Mundo
24 de dezembro de 2013
23 de dezembro de 2013
Eu sou, mas o que eu sou quem cuida ou sabe?: John Clare
Eu sou, mas o que eu sou quem cuida ou sabe?
Em meus amigos um lembrar perdido.
Gastar as minhas mágoas a mim cabe -
erguem-se e passam num revoar esquecido,
sombras de amor que a própria ânsia esmaga -
mas sou, e vivo - como névoa vaga
lançada ao nada de uma vácua lida,
ao vivo mar dos sonhos acordados,
onde não há qualquer senso da vida,
mas o naufrágio só dos bens passados.
Até os mais caros, meu amor mais fundo,
estranhos me são, ou mais que todo o mundo.
Anseio terras que ninguém pisou,
onde mulher nunca sorriu nem chora,
e onde me unir ao Deus que me criou,
para dormir como na infância outrora -
sem que nenhum cuidado seja meu:
erva por baixo, e acima o curvo céu.
John Clare
England 1793-1864
(in «Poesia de 26 Séculos»
trad. Jorge de Sena
22 de dezembro de 2013
Discreta Súplica: Csokonai Vitéz Mihály
dói-me fogo consumido.
Podes ser na chaga bálsamo,
formosa breve tulipa.
Teu lindo brilho dos olhos,
fogo vivo da aurora;
de teus lábios o orvalho
mil cuidados me devora.
Dá em tua voz de anjo
o que teu amante roga:
com mil beijos de ambrosia
te pagarei a resposta.
Csokonai Vitéz Mihály
Hungria 1773-1805
(tradução de Ernesto Rodrigues)
Do poderoso amor: Csokonai Vitéz Mihály
Do poderoso amor
dói-me fogo consumido.
Podes ser na chaga bálsamo,
formosa breve tulipa.
Teu lindo brilho dos olhos,
fogo vivo da aurora;
de teus lábios o orvalho
mil cuidados me devora.
Dá em tua voz de anjo
o que teu amante roga:
com mil beijos de ambrosia
te pagarei a resposta.
Csokonai Vitéz Mihály
Hungria 1773-1805
(tradução de Ernesto Rodrigues)
O Pastor Apaixonado para o Seu Amor: Christopher Marlowe
Vem viver comigo e sê o meu Amor,
Todos os prazeres teremos ao dispor,
Os que vales, colinas e campos nos dão,
E as montanhas rochosas sem excepção.
Lá nos rochedos a gente depois se senta,
Enquanto o pastor o rebanho apascenta
Junto de os ribeiros ao som dos quais,
Melodiosas aves cantam madrigais.
E hei-de arranjar-te canteiros de rosas,
Milhares de ramos de flores olorosas,
Uma touca de flores e mais uma saia,
Com folhas de mirto toda à volta bordada.
De a mais pura lã far-se-á um vestido,
Com o fio dos nossos cordeirinhos tecido;
E para o frio, uns sapatos bem forrados,
Com fivelas do mais puro ouro adornados.
Um cinto de palhinha e rebentos de hera,
Com fivelas de coral e botões de âmbar;
E se cada prazer de teu agrado for,
Vem viver comigo e ser o meu Amor.
Cantando e dançando, pastores hás-de ter
Nas manhãs de Maio, para o teu prazer:
Se a isto tua alma não se vai opor,
Então vive comigo e sê o meu Amor.
in Os dias do Amor
Christopher Marlowe
(England 1564-1593)
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15 de dezembro de 2013
Os Joelhos: Eugénio de Andrade
Considerai os joelhos com doçura:
Vereis a noite arder mas não queimar
a boca onde beijo a beijo foi acesa.
Eugénio de Andrade
Portugal 1923-2005
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É Duro: Amos Oz
Abre os olhos com os primeiros raioz de luz. A cadeia de montanhas
parece uma mulher serena e vigorosa,
deitada de lado depois de uma noite de amor.
Um vento suave, saciado, agita a aba da tenda.
Que incha e estremece, como um ventre quente. Subindo e descendo.
Com a ponta da língua aflora o côncavo da mão esquerda,
o ponto mais fundo da palma. é como
o toque de um mamilo, suave e duro.
Amos Oz
Israel 1939
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Só: Amos Oz
Uma seta armada num arco esticado: ele lembra-se do contorno
da coxa dela. Adivinha o movimento os seus quadris em direcção a ele.
Contém-se. Salta para fora do saco cama. Enche os pulmões de ar glacial.
Um nevoeiro pálido, de uma transparência leitosa, vai-se arregaçando,
tal uma camisa de noite fina sobre o flanco da montanha.
in O mesmo mar
Amos Oz
Israel 1939
Meu coração, vós abristes: Cristóvão Falcão
Meu coração, vós abristes
caminho a meus cuidados,
pera virem ser banhados
na ágoa de meus olhos tristes,
tristes, mal galardoados.
Necessário é que vamos
algum remédio buscar
para se a vida acabar:
êste o bem que dessejamos,
êste o nosso desejar
Cristóvão Falcão
(Portugal 1515-1553/57?)
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Idílio: Domingos dos Reis Quita
Praias, que banha o Tejo caudaloso:
Ondas, que sôbre a areia estais quebrando:
Ninfas, que ides escumas levantando:
Escutai os suspiros dum saüdoso.
E vós também, ó côncavos rochedos,
Que dos ventos em vão sois combatidos,
Ouvi o triste som de meus gemidos,
já que de Amor calais tantos segredos.
Ai, amada Tircéa, se eu pudera
os teus formosos olhos ver agora,
Que depressa o pesar, que esta alma chora,
No gôsto mais feliz se convertera!
Oh, como então ficaras conhecendo
Quanto te amo, se visses a violência
Com que estão de meus olhos nesta ausência
Estas saüdosas lágrimas correndo!
Tanto neste pesar, que estou sentindo,
O triste coração se desfalece,
e tanto me atormenta, que parece
Que ao sofrimento a alma vai fugindo.
Mas oh, qual há de ser a crueldade
Deste terrível mal, em que ando envolto,
Se a qualquer parte, enfim, que os olhos
volto,
Imagens estou vendo de saüdade.
(...)
Domingos dos Reis Quita
Portugal 1728-1770
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Soneto XVIII: William Shakespeare
Comparar-te a um dia de Verão?
Tu és mais formoso e mais ameno:
Ventoso o mês de Maio e não sereno
E o Estio é de curta duração.
Ora quente como brasa o sol fulgura,
Ora se lhe escurece a tez dourada,
Quem é formosa perde a formosura
Plo destino ou natura despojada.
Mas teu eterno V’rão não perde o brilho,
Nem perde a beleza que é só tua:
Da morte nunca seguirás o trilho –
Teu ser meu verso eterno perpetua:
Enquanto olhos houver que o possam ler
Este soneto te fará viver.
William Shakespeare
(England 1564-1616)
in Os dias do Amor
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Eu amo-a muito, pelo olhar formoso: Olivier de Magny
Eu amo-a muito, pelo olhar formoso
E as sobrancelhas de igual negra cor;
E o colo de marfim; e o doce olor
No respirar; e o riso tão gracioso.
Eu amo-a muito pelo que, espaçoso,
Em glória pousa em sua fronte Amor;
Pela memória sua que é fervor,
E por seu esprito o mais industrioso.
Eu amo-a muito, pelo que é de humana,
Por seu vasto saber que não se engana,
E por não ser avaro o peito dela.
Mas que me faz amá-la de amor tal
É que jamais se esquece de meu mal,
E que, quando me apraz, durmo com ela.
Olivier de Magny
(França 1524-1561
in Os dias do Amor
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Acróstico : Al-Mu`tamid
Invisível a meus
olhos,
trago-te
sempre no coração
Te envio um adeus
feito paixão
e
lágrimas de pena com insónia.
Inventaste como
possuir-me
e
eu, o indomável, que submisso vou ficando!
Meu desejo é estar
contigo sempre
oxalá
se realize tal desejo!
Assegura-me que o
juramento que nos une
nunca
a distância o fará quebrar.
Doce é o nome que é o
teu
e
aqui fica escrito no poema: Itimad.
Al-Mu’tamid
(Al-Ândalus 1040-1095)
in Os dias do Amor
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De Amor escrevo, de Amor falo e canto: Pêro de Andrade Caminha
De Amor escrevo, de Amor falo e canto;
E se minha voz fosse igual ao que amo,
Esperara eu sentir na que em vão chamo
Piedade, e na gente dor e espanto.
Mas não há pena, ou língua, ou voz, ou canto
Que mostre o amor por que eu tudo desamo,
Nem o vivo fogo em que me sempre inflamo,
Nem de meus olhos o contínuo pranto.
Assim me vou morrendo, sem ser crida
A causa por que em vão mouro contente,
Nem sei se isto que passo é vida ou morte.
Mas inda da que eu amo fosse ouvida
E crida minha voz, e da vã gente
Nunca entendida fosse minha sorte.
in Os Dias do Amor
Pêro de Andrade Caminha
(Portugal 1520?-1589)
in Os dias do Amor
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14 de dezembro de 2013
Revi-te ali, em recordação : Ibn Zaydûn
revi-te ali, em recordação,
límpidos os campos, a terra apetecia,
e como que a mostrar-me compaixão
a brisa da tarde enlanguescia.
do lago do jardim a prata me sorria,
colar em seios rijos nessa hora.
era um dia dos nossos, sensuais d’outrora:
roubávamos a Noite, o Destino dormia.
comprazia-se numa flor o meu olhar,
vergada de orvalho, as pétalas pendentes,
como se lamentasse o meu sonhar
por mim chorando lágrimas luzentes.
na luz do roseiral a rosa resplendia,
dela era o sol na força do meio dia.
um nenúfar fragrante e sonolento
desperto pela alva perfumava o vento.
tudo isto me enche de paixão por ti
e traz turbação ao peito atormentado.
tivesses vindo neste dia aqui
e ele seria para sempre celebrado.
Ibn Zaydûn
(Al-Ândalus 1003-1071)
in Os dias do Amor
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Passa alguém na rua : Murasaki-Shikibu
Passa alguém na
rua
Enquanto me
pergunto
Se és tu quem
passa
O luar da
meia-noite
Cobre-se de
nuvens.
Murasaki-Shikibu
(Japão Séc. X)
in Os dias do Amor
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Vida e poesia : Vinícius de Moraes

A
lua projetava o seu perfil azul
Sobre
os velhos arabescos das flores calmas
A
pequena varanda era como o ninho futuro
E
as ramadas escorriam gotas que não havia.
Na
rua ignorada anjos brincavam de roda...
–
Ninguém sabia, mas nós estávamos ali.
Só
os perfumes teciam a renda da tristeza
Porque
as corolas eram alegres como frutos
E
uma inocente pintura brotava do desenho das cores
Eu
me pus a sonhar o poema da hora.
E,
talvez ao olhar meu rosto exasperado
Pela
ânsia de te ter tão vagamente amiga
Talvez
ao pressentir na carne misteriosa
A
germinação estranha do meu indizível apelo
Ouvi
bruscamente a claridade do teu riso
Num
gorjeio de gorgulhos de água enluarada.
E
ele era tão belo, tão mais belo do que a noite
Tão
mais doce que o mel dourado dos teus olhos
Que
ao vê-lo trilar sobre os teus dentes como um címbalo
E
se escorrer sobre os teus lábios como um suco
E
marulhar entre os teus seios como uma onda
Eu
chorei docemente na concha de minhas mãos vazias
De
que me tivesses possuído antes do amor.
Vinícius
de Moraes
(Brasil
1913-1980)
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