Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

12 de janeiro de 2014

O seu nome: João de Deus




I

Ella não sabe a luz suave e pura
Que derrama n'uma alma acostumada
A não vêr nunca a luz da madrugada
Vir raiando senão com amargura!

Não sabe a avidez com que a procura
Ver esta vista, de chorar cançada,
A ella... unica nuvem prateada,
Unica estrella d'esta noite escura!

E mil annos que leve a Providencia
A dar-me este degredo por cumprido,
Por acabada já tão longa ausencia,

Ainda n'esse instante appetecido
Será meu pensamento essa existencia...
E o seu nome, o meu ultimo gemido

II

       Oh! o seu nome
       Como eu o digo
       E me consola!
       Nem uma esmola
       Dada ao mendigo
       Morto de fome!

       N'um mar de dôres
       A mãe que afaga
       Fiel retrato
       De amante ingrato,
       Unica paga
       Dos seus amores...

       Que rota e nua,
       Tremulos passos,
       Só mostra á gente
       A innocente
       Que traz nos braços
       De rua em rua;

       Visto que o laço
       Que a prende á vida
       E só aquella
       Candida estrella
       Que achou cahida
       No seu regaço;

       (Não que lhe importe
       A ella nada...
       Que tudo escusa;
       E até accusa
       De descuidada
       Comsigo a morte!)

       Mão bemfazeja
       Se por ventura
       Encontra um dia,
       Com que alegria,
       Com que ternura,
       Ella a não beija!...

       Mas com mais quanto
       Amor te escrevo,
       Soletro e leio
       Nome de enleio!
       Nome de enlevo!
       Nome de encanto!

III

Como a agua d'um lago—toda um nivel,
Vae de circulo em circulo ondeando,
Se a andorinha a roça ao ir voando
Atraz d'algum insecto imperceptivel;

E quebrado esse espelho em mil pedaços
(Que a imagem do céo desapparece)
Em circulos concentricos parece
Tornarem-se a formar novos espaços...

Ou como d'entre as notas ineffaveis
Dos canticos do céo—todo harmonia—
Mal sôa o dôce nome de Maria,
Pasmam as multidões innumeraveis;

E de onda em onda cada vez mais larga,
De brisa em brisa cada vez mais pura,
O nome d'essa excelsa creatura
Por todo aquelle immenso mar se alarga;

E tudo quanto cerca o trono eterno
Áquella dôce voz desprende o canto,
Formando um côro universal, em quanto
Reina silencio no profundo inferno...

Assim, n'esta paixão que me devora,
Se aos labios essas syllabas me assomam,
As negras sombras da minha alma tomam
Gradualmente o explendor da aurora!

Toda a idéa má recua um passo,
Aplanam-se os dominios do futuro,
E do crystal mais transparente e puro
Se me arqueia a abobada do espaço!

Desdobra-se o passado á luz do dia,
Em valle ameno, aos olhos da memoria;
E eu acho não ser perfida, illusoria,
A fé que eu punha em certa luz que eu via...

Vejo que aquelle informe e negro monte,
Que me tapava a mim o fim da vida,
Não era mais que a natural subida
Para se dominar vasto horizonte!...

Esse horizonte és tu, pombinha brava!
Tu, cujo peito que aliás encerra
O que ha de bello e grande em céo e terra,
Só com duas conchinhas se tapava...

Mas em quanto não chego áquella altura
D'onde se avista a terra promettida,
Irei cantando, distrahindo a vida
Com essa invocação suave e pura...

Invocação de nome tão suave
Como esse olhar!... que eu, só de vêr, suspiro!
Mas... que invoco em silencio... como admiro
A luz da lua, e o olhar da ave!...

IV

       E se algum dia
       Deres abrigo
       Ao desgraçado
       Pobre mendigo
       Expatriado,
       Morto de fome,
       Dize comtigo:
       «Mais consolado
       Se elle sentia
       Lendo o meu nome!»


João de Deus
Portugal 1830-1896
in "Campo de Flores'
photo by Google

Dúvida: João de Deus



Amas-me a mim? Perdoa,
É impossível! Não,
Não há quem se condoa
Da minha solidão.

Como podia eu, triste,
Ah! inspirar-te amor
Um dia que me viste,
Se é que me viste... flor!

Tu, bela, fresca e linda
Como a aurora, ou mais
Do que a aurora ainda,
Mal ouves os meus ais!

Mal ouves, porque as aves
Só saltam de manhã
Seus cânticos suaves;
E tu és sua irmã!

De noite apenas trina
O triste rouxinol:
Toda a mais ave inclina
O colo ao pôr do Sol.

Porquê? Porque é ditosa!
Porquê? Porque é feliz!
E a que sorri a rosa?
Ao mesmo a que sorris...

À luz dourada e pura
Do astro criador:
À noite, não, que é escura,
Causa-lhe a ela horror.

Ora uma nuvem negra,
Uma pesada cruz,
Uma alma que se alegra
Só quando vê a luz

De que ele, o Sol, inunda
O mar, quando se põe,
Imagem moribunda
De um coração que foi...

Uma alma semelhante
Não pode cativar
Um rosto tão galante,
Um tão galante olhar!

E eu vi caracteres
Que a tua mão traçou;
Mas vós... ah! vós, mulheres,
Quem já vos decifrou!

Mal te sustinha o pulso
A delicada mão;
Sentia-te convulso
Bater o coração;

Via-te arfar o seio...
Corar... mudar de cor...
E embora, ah! não, não creio...
Tu não me tens amor!

João de Deus
Portugal 1830-1896
in 'Campo de Flores'
photo by Google

Não sei o que ha de vago: João de Deus



Não sei o que ha de vago,
Incoercivel, puro,
No vôo em que divago
Á tua busca, amor!
No vôo em que procuro
O balsamo, o aroma,
Que, se uma fórma toma,
É de impalpavel flôr!

Oh como te eu aspiro
Na ventania agreste!
Oh como te eu admiro
Nas solidões do mar!
Quando o azul celeste
Descança n'essas agoas
Bem como n'estas magoas
Descança o teu olhar!

Que placida harmonia
Então a pouco e pouco
Me eleva a fantasia
A novas regiões!
Dando-me ao uivo rouco
Do mar, n'essas cavernas,
O timbre das mais ternas
E pias orações!

Parece todo o mundo
Só um immenso templo!
O mar já não tem fundo
E não tem fundo o céo!
E, em tudo, o que contemplo,
O que diviso em tudo,
És tu!... esse olhar mudo!...
O mundo... és tu... e eu!...


João de Deus
Portugal 1830-1896
in 'Ramo de Flores'
                        photo by Google

Agravos de Colopêndio: Gil Vicente

  


Pois Amor o quis assi,
que meu mal tanto me dura,
não tardes triste ventura,
que a dor não se doi de mi,
e sem ti não tenho cura.

Foges-me, sabendo certo
que passo perigo marinho,
e sem ti vou tão deserto
que, quando cuido que acerto,
vou mais fora de caminho.
Porque tais carreiras sigo,
e com tal dita naci
nesta vida, em que não vivo,
que eu cuido que estou comigo,
e ando fora de mi.

Quando falo, estou calado;
quando estou, entonces ando;
quando ando, estou quedado;
quando durmo, estou acordado;
quando acordo, estou sonhando;
quando chamo, então respondo;
quando choro, entonces rio;
quando me queimo, hei frio;
quando me mostro, me escondo;
quando espero, desconfio.

Não sei se sei o que digo,
que cousa certa não acerto;
se fujo de meu perigo,
cada vez estou mais perto
de ter mor guerra comigo.
Prometem-me uns vãos cuidados
mil mundos favorecidos,
com que serão descansados;
e eu acho-os todos mudados
em outros mundos perdidos.

Já não ouso de cuidar,
nem posso estar sem cuidado;
mato-me por me matar,
onde estou não posso estar
sem estar desesperado.
Parece-me quanto vejo
Tudo triste com rezão:
cousas que não vem nem vão
essas são as que desejo,
e tôdas pena me dão.

Eu remédio não no espero,
porque aquela, em que me fundo,
pera mi, que tanto a quero,
tem o coração de Nero
pera me tirar do mundo.


Gil Vicente
(Portugal 1465-1536)
in Os dias do Amor
photo by Google

Eros, o rude: João Pedro Duarte





















Vai o carro a grande velocidade pela ponte,
Pegas na garrafa e roubas mais um gole
Provocas-me para que um clima role
Pois se sou homem que pare e que te monte.

No teu cigarro dás mais uma passa
E pões os pés em cima do tablier,
Já seminua só o casaco faz de negligé
E eu canto enquanto a minha mão te amassa.

À rasca viramos para um motel de estrada.
O tipo pergunta se é apenas uma dormida,
Tu dizes baixo que esperas ser comida:
Rimo-nos bêbados e subimos para a madrugada.

No quarto sacio por fim eu a minha sede,
O primeiro jacto voa com violência
Mas depois empurro-te com cadência
Até te vires devassada contra a suja parede.

À janela pensamos sair para ir trabalhar
Mas enfim, encosta-te a mim e deixa-me esses lábios beijar…


João Pedro Duarte           “in Eros, o rude”
Portugal
photo by Google

Deito-me na cama vazia: Ana Weisenberger

 

Deito-me na cama vazia
E entrego-me ao silêncio
Não há ecos
Não há sombras
Não há braços, nem pernas
À espera de mim

O meu corpo molda-se aos lençóis
E enrola-se no sonho
Na maresia do desejo de te ter
De te encontrar
Aqui na penumbra do meu quarto
No sossego das minhas vozes
Na tempestade do meu ser
Sedento de ti

Abro os sentidos em mim
Devagarinho, como quem abre
Uma porta antiga, selada de tempo
E deixo-te entrar
Sorrateiro e impotente
Na tua dimensão emprestada
À minha fantasia

Sinto o teu peso sobre mim
A deslizar num movimento febril
E o teu rosto indistinto de sépia
Numa moldura de outro século
Liberta-me em espasmos doloridos
Resgata-me da minha solidão
Para me levar contigo

O amor franqueia todas as cancelas
A eternidade é o momento


Ana Wiesenberger           “in Um não querer mais que bem querer”
Portugal 1962
photo by Google


Febres a dois: Armindo Loureiro

Quando a tua febre
Me engrossa
E a tua languidez
Faz mossa
Eu fico desajeitado
Um bom bocado
Mas logo recupero
E de ti espero
A continuação
Dá-me um baque no coração
Se tu e a tua mão
Por ali trabalha
Deus me valha
Onde eu fui parar
Será que eu sei amar?
Se calhar não
Mas com o trabalho da mão
E a minha excitação
Então sim
Estou em mim
E venho-me
Por ti e para ti
De forma abundante
Mas que belo aquele instante
Em que o falo sai triunfante
De cabeça erguida
Na vulva consentida!


Armindo Loureiro         “in Prazeres Incandescentes”
Portugal
photo by Google