Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

12 de janeiro de 2014

Deito-me na cama vazia: Ana Weisenberger

 

Deito-me na cama vazia
E entrego-me ao silêncio
Não há ecos
Não há sombras
Não há braços, nem pernas
À espera de mim

O meu corpo molda-se aos lençóis
E enrola-se no sonho
Na maresia do desejo de te ter
De te encontrar
Aqui na penumbra do meu quarto
No sossego das minhas vozes
Na tempestade do meu ser
Sedento de ti

Abro os sentidos em mim
Devagarinho, como quem abre
Uma porta antiga, selada de tempo
E deixo-te entrar
Sorrateiro e impotente
Na tua dimensão emprestada
À minha fantasia

Sinto o teu peso sobre mim
A deslizar num movimento febril
E o teu rosto indistinto de sépia
Numa moldura de outro século
Liberta-me em espasmos doloridos
Resgata-me da minha solidão
Para me levar contigo

O amor franqueia todas as cancelas
A eternidade é o momento


Ana Wiesenberger           “in Um não querer mais que bem querer”
Portugal 1962
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Febres a dois: Armindo Loureiro

Quando a tua febre
Me engrossa
E a tua languidez
Faz mossa
Eu fico desajeitado
Um bom bocado
Mas logo recupero
E de ti espero
A continuação
Dá-me um baque no coração
Se tu e a tua mão
Por ali trabalha
Deus me valha
Onde eu fui parar
Será que eu sei amar?
Se calhar não
Mas com o trabalho da mão
E a minha excitação
Então sim
Estou em mim
E venho-me
Por ti e para ti
De forma abundante
Mas que belo aquele instante
Em que o falo sai triunfante
De cabeça erguida
Na vulva consentida!


Armindo Loureiro         “in Prazeres Incandescentes”
Portugal
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Vem, oh noite sombria: António Dinis da Cruz




Vem, oh noite sombria; e revolvendo
O longo açoite, que à carreira acende
As fuscas Éguas, sobre a terra estende
De sombras carregado o manto horrendo:

Vem; e as brancas papoilas espremendo,
Em letárgico sono os mortais prende;
Que a minha bela Aglaia hoje me atende;
A meu amor mil glórias prometendo.

Se às minhas vozes dás benigno ouvido,
Encobrindo com teu escuro manto
Os suaves delírios de amor cego;

Imolar-te prometo agradecido
Um negro galo, que em contínuo canto
Se atreve a peturbar o teu sossego.


António Dinis da Cruz
Portugal 1731-1799
in Os dias do Amor
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Gregório de Matos: Pintura admirável de uma beleza

            

                    Vê esse Sol de luzes coroado?
                    Em pérolas a Aurora convertida?
                    Vês a Lua de estrelas guarnecida?
                    Vês o Céu de Planetas adorado?

                    O Céu deixemos;vês naquele prado
                    A Rosa com razão desvanecida?
                    A Açúcena por alva presumida?
                    O Cravo por galã lisonjeado?

                    Deixa o prado; vem cá, minha adorada,
                    Vês desse mar a esfera cristalina
                    Em sucessivo aljôfar desatada?

                    Parece aos olhos ser prata fina?
                    Vês tudo isto bem? pois tudo é nada
                    À vista do teu rosto, Caterina.


Gregório de Matos
(Brasil 1633-1696)
in Cinco séculos de poesia -
Antologia da poesia brasileira clássica
Seleção: Frederico Barbosa
Landy Editora
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8 de janeiro de 2014

Paga e Repaga: E. M. Melo e Castro




A paga

eu gostaria muito sim talvez
dar uma enorme foda todo o mês
numa mulher que se chamasse Inês
e que tivesse um gato siamês
que não me chateasse cada vez
que nela me pusesse de viés
porque as mulheres pensam que talvez
no foder se paga tudo de uma vez

mas nunca se lembram que ao invés
o pagar nada tem com as fodas que dês
porque ainda ontem dei ai umas dez
e a paga que tive foi um chato burguês

A repaga

não penses tu proleta fodilhão
que lá por seres caralho
tens razão
nem que todas as fodas que me dês
são a fácil desforra
do tesão

porque a cona é que sabe
do vir ou do não vir
e só no seu sorrir
é que o caralho sobe

mas se és mal pago
não vais morrer de fomes
e se me pagas
não pagas o que comes.

(e o chato talvez
não seja mais
que o teu retrato
português)


E. M. Melo e Castro
Portugal 1932
in “Cara lh amas”
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