Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

8 de março de 2014

Lídia Martinez: Enrolo-me em ti





Enrolo-me em ti como se de ti nascesse
e aceito a violência que me magoa
a carne.
O queixume devolve-te o prazer
perco-me o contorno,
preciso do teu abraço para ancorar
a vertigem que me rouba
mais um assopro.
Queria deixar-te envolto em ternura,
bafo quente, e longos cílios
acariciando-te o rosto, para que voltes
sempre ligeiro
no espaço aberto que aqui procuras.


Lídia Martinez
Portugal n.?
in Um adeus perfeito
Editora Ulmeiro
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Gregório de Matos: Ai, Custódia!


                    Ai, Custódia!  Sonhei, não sei se o diga:
Sonhei, que entre meus braços vos gozava.
Oh se verdade fosse, o que sonhava!
Mas não permita Amor, que eu tal consiga.

O que anda no cuidado, e dá fadiga,
Entre sonhos Amor representava
No teatro da noite, que apartava
A alma dos sentidos, doce liga.

Acordei eu, e feito sentinela
De toda a cama, pus-me uma peçonha,
Vendo-me só sem vós, e em tal mazela.

E disse, porque o caso me envergonha,
Trabalho tem, quem ama. E se desvela,
E muito mais quem dorme, e em falso sonha


Gregório de Matos
Brasil   (Salvador) 1636?- 1696
in Cinco séculos de poesia
Antologia de poesia brasileira clássica
Seleção: Frederico Barbosa
Landy Editora
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7 de março de 2014

Alberto da Costa e Silva: O Amor aos Sessenta


Isto que é o amor (como se o amor não fosse
esperar o relâmpago clarear o degredo):
ir-se por tempo abaixo como grama em colina,
preso a cada torrão de minuto e desejo.

Ser contigo não sendo como as fases da lua,
como os ciclos de chuva ou a alternância dos ventos,
mas como numa rosa as pétalas fechadas,
como os olhos e as pálpebras ou a sombra dos remos

contra o casco do barco que se vai, sem avanço
e sem pressa de ausência, entre o mito e o beijo.
Ser assim quase eterno como o sonho e a roda
que se fecha no espaço deste sol às estrelas

e amar-te, sabendo que a velhice descobre
a mais bela beleza no teu rosto jovem.


Alberto da Costa e Silva
Brasil –São Paulo n.1931
in “Antologia de poetas brasileiros
Selecção de Mariazinha Congílio
Universitária Editora
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4 de março de 2014

Antonio Gamoneda: Extingue-se o melro




Extingue-se o melro na incandescência dos

                                                 teus lábios

Sinto em ti grandes feridas e desnudas-te

                                   nas minhas fontes

Extingue-se o melro nas alcovas brancas

                                    onde sou cego,

onde, algumas vezes, soam em ti

                         grandes sinos.



Antonio Gamoneda
Espanha 1931
Iin “Oração Fria” Antologia
Assirio & Alvim
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Antonio Gamoneda: Houve um tempo





Houve um tempo em que as minhas
                            únicas paixões
eram a pobreza e a chuva

Agora sinto a pureza dos limites
                       e a minha paixão
não existiria se soubesse o seu nome.


Antonio Gamoneda
Espanha 1931
Iin “Oração Fria” Antologia
Assirio & Alvim
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Antonio Gamoneda: Há caminhos de amargura




Há caminhos de amargura
da minha boca às tuas faces.
A nudez dos teus seios
põe cinza nas minhas mãos.

Talvez entre o teu olhar
e a minha voz os mortos vibrem.


Antonio Gamoneda
Espanha 1931
Iin “Oração Fria” Antologia
Assirio & Alvim
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Maria Teresa Horta: Muito lentamente...



Muito lentamente, a custo, fecha as pálpebras
azuladas e geme baixo; um gemido contínuo,
de dentes cerrados, os punhos a crisparem-se
de cada lado do lençol e o rosto de uma palidez
de morte. Mantém os braços abertos, a respiração
presa, por vezes abandonada.
Abandonada, por vezes como que oferecida.
Tenta ainda fugir-lhe, arranca-lhe as coxas
entreabertas à pressão da sua língua, ao tacto do seu
hálito, porém, mal ele parece libertá-la ela submete-se,
ansiosa, apenas com uma ponte de rebeldia no
movimento do corpo. E o gemido torna-se mais
sincopado, contornado, entrecortado.



Maria Teresa Horta
Portugal 1937
in  “Ambas as mãos sobre o corpo”
D. Quixote Editores
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1 de março de 2014

Herberto Helder: l’amour la mort




petit pute deitada toda nua sobre a cama à espera,

e inexplicavelmente eu entro nela de corpo inteiro

e idade inteira


Herberto Helder
Portugal 1930
in " Servidões"
Assirio & Alvim
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