Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

23 de março de 2014

Alberto de Oliveira: Cheiro de espádua




Quando a valsa acabou, veio à janela, 
Sentou-se. O leque abriu. Sorria e arfava,
Eu, viração da noite, a essa hora entrava
E estaquei, vendo-a decotada e bela.

Eram os ombros, era a espádua, aquela
Carne rosada um mimo! A arder na lava
De improvisa paixão, eu, que a beijava,
Hauri sequiosa toda a essência dela!

Deixei-a, porque a vi mais tarde, oh! ciúme!
Sair velada da mantilha. A esteira
Sigo, até que a perdi, de seu perfume.

E agora, que se foi, lembrando-a ainda,
Sinto que à luz do luar nas folhas, cheira
Este ar da noite àquela espádua linda!




Alberto de Oliveira
Brasil (Rio de Janeiro) 1859-1937
“ in Cinco Séculos de Poesia –
Antologia da Poesia Clássica Brasileira “
Seleção: Frederico Barbosa
Editor: Landy Editora

21 de março de 2014

Filipe Marinheiro: Fecho os olhos...



fecho os olhos
abro-me nos teus como uma balada impune no seu sangue
oscilante

entretido percorro-te, estremeço-me nas veias singulares
depois com a ponta da língua
afável caligrafia reponho as cordas giratórias

e andas no meu imenso chão
um chão embalado p'los nossos sorrisos de cetim
só teu, só meu a transformar-se

porém nunca a concluir ou terminar salvo esse romance
nada súbito a apertarem violetas durante
jactos perfumados

decerto uma bondade eterna
eis donde chegam os meus afectos

e nas artérias de seda cristal
crias novas meigas cores novos ligeiros ares
novos amantes tons
novos endurecidos ruídos
novo auroreal amor para eu continuar a ver

a ver-te debruçada sobre mar transparente
com veludo de orvalho entre os poros
a ver-nos encalhados continuando a moldar
brancos banhos

como numa nossa gargalhada
a dormir no cume de videntes astros adentro
só dessa maneira
estaremos destinados a tais grandes coisas


Filipe Marinheiro
Portugal (Coimbra) 1982
“ in Silêncios ”
Editor: Chiado Editora

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20 de março de 2014

Castro Alves: O "adeus" de Teresa


A vez primeira que eu fitei Teresa,
Como as plantas que arrasta a correnteza,
A valsa nos levou nos giros seus…
E amamos juntos… E depois na sala
"Adeus" eu disse-lhe a tremer co'a fala…

E ela corando, murmurou-me: "adeus”.


Uma noite entreabriu-se um reposteiro...
E da alcova saía um cavaleiro
Inda beijando uma mulher sem véus…
Era eu… Era a pálida Teresa!
"Adeus" lhe disse conservando-a presa…

E ela entre beijos murmurou-me: "adeus".

Passaram tempos séc'los de delírio,
Prazeres divinais… gozos do Empíreo…
... Mas um dia volvi aos lares meus.
Partindo eu disse - "Voltarei! descansa!..."
Ela, chorando mais que uma criança,

Ela em soluços murmurou-me: "adeus"

Quando voltei… era o palácio em festa!...
E a voz d'Ela e de um homem lá na orquestra
Preenchiam de amor o azul dos céus.
Entrei!... Ela me olhou branca… surpresa!
Foi a última vez que eu vi Teresa!...

E ela arquejando murmurou: "adeus!"


Castro Alves
Brasil (Bahia) 1847-1871
“ in Cinco Séculos de Poesia –
Antologia da Poesia Clássica Brasileira “
Seleção: Frederico Barbosa
Editor: Landy Editora
photo by Google

Percy Bysshe Shelley: Epipsychidion (5) Excerto


Anjo celeste, tu, excessivamente belo para seres humano,
a velar sob uma forma luminosa de Mulher
tudo aquilo que é em ti insustentável
pelo excesso de amor, de imortalidade e de luz!
Suave bênção para os que foram amaldiçoados!
Velado esplendor sobre este universo sombrio!
Tu, lua além das nuvens! Tu, forma viva
entre os mortos! Tu, estrela sobre as tempestades!
Maravilha, e beleza, e terror! Tu,
harmonia da arte que anima a natureza! Tu, espelho
onde, como no esplendor do Sol,
todas as formas aparecem gloriosas ao teu olhar!
Sim, mesmo nas obscuras palavras que te velam
agora, brilha um relâmpago desconhecido.
Peço-te: vem apagar deste triste poema
tudo o que nele é erro e só mortalidade.

Excerto

Epipsychidion é uma palavra forjada que significa
a união de duas almas.
Emilia Viviani foi a inspiradora deste poema.
Jovem italiana por quem o autor se apaixonou
aquando da sua estada em Itália.


Percy Bysshe Shelley
Reino Unido 1792-1822
in “ Poesia Romântica Inglesa
Byron, Shelley, Keats)
Editor: Relógio D’agua
photo by Google

Percy Bysshe Shelley: Epipsychidion (5) Excerto







































Esposa! irmã! anjo! guia dum Destino
cujo curso ignora as estrelas! Tu, que eu amei
tão tarde, para seres demasiado cedo adorada
por mim ─ que só nos campos da Imortalidade
devia o meu espírito ter-te venerado,
divina presença num lugar divino,
ou acompanhar-te, fielmente, sobre esta terra,
sombra do teu ser, desde a sua origem.
Mas não como sucede agora, amor, se já pressinto
que se fecharam as fontes do meu próprio coração
com o fim de manterem puras e brilhantes as suas ondas
para ti, porque nessas lágrimas encontras a alegria.
Não somos, tu e eu, como notas de música
que existem umas para as outras, embora tão diferentes,
─ diferença sem dissonância, capaz de gerar
aqueles sons tão suaves, que fazem vibrar as almas
como folhas, ao estremecerem sob a mesma brisa?
Tua sabedoria fala em mim, e ordena-me que ilumine
os escolhos onde se destroçam os grandes corações:
nunca, nunca me senti preso a essa seita poderosa
que julga que cada um devia escolher
entre a multidão só uma amante ou um amigo,
e todos os outros apesar da beleza e sabedoria,
seriam votados a um frio esquecimento, pois assim o decide
a nossa moral, e que seja essa a penosa estrada
atravessada pelos cansados passos dos tão pobres escravos
que seguem, entre os mortos, a caminho do seu lar
pela larga, ampla, vereda do mundo, e assim
presos a um só companheiro ─ inimigo e invejoso talvez─,
fazem a mais triste e longa das viagens.

À argila e ao ouro não se compara o verdadeiro Amor,
porque dividi-lo não é torna-lo menos poderoso.
O Amor é como o entendimento, que se torna brilhante
ao contemplar múltiplas verdades; é como a tua luz,
Imaginação!, que desde a terra e o céu,
e das profundidades da fantasia humana,
igual a mil prismas e espelhos, enche
o universo de gloriosos raios, e destrói
o erro, esse réptil, com as inúmeras setas solares
da própria luz que reverbera: ah! como são estreitos
o coração que ama, o cérebro que contempla,
a vida que se consome, o espírito que gera
um único ser, uma só forma, e assim edifica
um sepulcro para toda a sua eternidade.

                                 Excerto

Epipsychidion é uma palavra forjada que significa
a união de duas almas.
Emilia Viviani, jovem italiana por quem o autor se apaixonou 
aquando da sua estada em Itália, foi a inspiradora deste poema.


Percy Bysshe Shelley
Reino Unido 1792-1822
in “ Poesia Romântica Inglesa
Byron, Shelley, Keats)
Editor: Relógio D’agua
photo by Google

Lord Byron: Neste dia completo o meu 36º aniversário



É tempo deste coração permanecer insensível
porque já não pode comover o dos outros:
mas, se por ninguém eu posso ser amado,
ainda quero amar!

Os meus dias estão nas folhas já caídas;
as flores e os frutos do amor abandonaram-me;
a ninguém o verme, o cancro e o desgosto
poderão pertencer!

Como uma ilha vulcânica, sozinho
o fogo vem consumir-se no meu peito;
não há nenhum lume que aí se reacenda
─ uma chama funerária!


A esperança, o temor e o ciúme,
tudo o que é excessivo no sofrimento,
e o poder do amor, não posso compartilhar,
só lhes sofro as cadeias.

Mas é assim ─ não é neste lugar ─
que deviam estes pensamentos abalar-me, nem agora
quando a enfrenta o túmulo do herói
ou lhe coroa a fronte.

A espada a insígnia e o campo de batalha,
a glória e a Grécia, contemplo à minha volta!
O guerreiro espartano, levado sobre o escudo,
não era mais livre.

Desperta (que a Grécia, ela está acordada!)
Desperta meu espírito! Pensa naquele
que faz correr o teu sangue vital para o lago materno
onde fica o destino.

Subjuga os desejos que despertam ainda,
virilidade indigna! ─ para ti
deveriam ser indiferentes o sorriso ou o duro
olhar da Beleza.

Para que vives, se lamentas a tua juventude?
Aqui fica o lugar de uma morte honrosa.
Caminha para a luta, e deixa que se apague
o teu último alento!

Procura ─ sem o procurar, tê-lo-ias encontrado ─
o túmulo de um soldado, aquilo que mereces;
olha por fim à volta e prefere esta terra,
aceita o teu descanso.


Este poema data de 22 de janeiro de 1824, foi escrito
na Grécia, em Missolonghi, onde Byron viria a falecer
três meses depois.


Lord Byron
Reino Unido (Londres) 1788- Grécia1824
in “ Poesia Romântica Inglesa
Byron, Shelley, Keats)
Editor: Relógio D’agua
photo by Google