Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

5 de abril de 2014

José Agostinho Baptista: O verão




Estás no verão,
num fio de repousada água, nos espelhos perdidos sobre
a duna.
Estás em mim,
nas obscuras algas do meu nome e à beira do nome
pensas:
teria sido fogo, teria sido ouro e todavia é pó,
sepultada rosa do desejo, um homem entre as mágoas.
És o esplendor do dia,
os metais incandescentes de cada dia.
Deitas-te no azul onde te contemplo e deitada reconheces
o ardor das maçãs,
as claras noções do pecado.
Ouve a canção dos jovens amantes nas altas colinas dos
meus anos.
Quando me deixas, o sol encerra as suas pérolas, os
rituais que previ.
Uma colmeia explode no sonho, as palmeiras estão em
ti e inclinam-se.
Bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima.
Doce e cruel é setembro.
Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.


José Agostinho Baptista
Portugal (Funchal, Madeira) 1948
in Paixão e Cinzas
Editor: Assírio & Alvim
photo by Google



José Agostinho Baptista: Despedida




Uma harpa envelhece.
Nada se ouve ao longo dos canais e os remadores
sonham junto às estátuas de treva.
A tua sombra está atrás da minha sombra e dança.
Tocas-me de tão longe, sobre a falésia, e não sei se
foi amor.
Certo rumor de cálices, uma súplica ao dealbar das
ruínas,
tudo se perdeu no solitário campo dos céus.
Uma estrela caía.
Esse fogo consumido queima ainda a lembrança do
sul, a sua extrema dor anoitecida.
Não vens jamais.
O teu rosto é a relva mutilada dos passos em que me
entristeço, a absoluta condenação.
Chove quando penso que um dia as tuas rosas floriam
no centro desta cidade.
Não quis, à volta dos lábios, a profanação do jasmim,
as tuas folhas de outubro.
Ocultarei, na agonia das casas, uma pena que esvoaça,
a nudez de quem sangra à vista das catedrais.
O meu peito abriga as tuas sementes, e morre.
Esta música é quase o vento.




José Agostinho Baptista
Portugal (Funchal, Madeira) 1948
in Paixão e cinzas
Editor: Assírio & Alvim
photo by Google



Lilás Carriço: O beijo que me deste...




























O beijo que me deste apaixonado,
Em ânsias duma alma delirante,
Fez-me sentir em ti o louco amante
Que há muito desejava ver chegado.

Nesse delírio cego, arrebatado,
A sufocar minh’alma transbordante,
A ti prendeste, desde aquele instante,
Meu ser até então não procurado.

Hoje disseco as fibras do meu ser
E a palpitar ainda julgo ver
A carne que cingiste em febre louca.

E, ainda hoje, tremo por meu mal,
Com esse beijo longo, sensual,
Da tua boca presa à minha boca!



Lilás Carriço
Brasil (Manaus)
Portugal (Moimenta da Beira)
in Miragem no tempo
Editor: Porto Editora
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Lilás Carriço: Era linda a mulher que tu levaste




Era linda a mulher que tu levaste
A consagrar-se a ti naquele dia,
Junto ao altar em ondas de magia
E nela os olhos, louco, tu pousaste.

Tão alva pomba, certo, tu julgaste
Qual outra Vénus ser, quem resplendia,
Em beleza, em amor, em alegria,
Dos teus rebentos a formosa haste.

E eu olhava, triste e encantada,
Aquela que o destino, bem fadada,
Quisera ser escrínio de beleza.

Metida no meu eu tão pobrezinho,
Pensava, soluçando, só, baixinho:
Como é tão inclemente a Natureza!



Lilás Carriço
Brasil (Manaus)
Portugal (Moimenta da Beira)
in Arco-Íris Poético
Editor: Porto Editora
photo by google