Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

26 de abril de 2014

António Ramos Rosa: A tua figura desperta a minha energia subtil








A tua figura desperta a minha energia subtil
e ascende à primeira forma sublime e simples.
Primavera do mundo e aromático barco
e na palma da mão a delicada inicial.
Neste instante as luzes são passagens transparentes
e eu coloco o teu ventre novamente na paisagem.
Venho de ti e vou para ti antes do primeiro jacto
num côncavo seio na cúpula do segredo,
que é tão fechado como a não respiração
e que se abre no rosto dos meus membros.


António Ramos Rosa
Portugal (Faro) 1924-2013
in Antologia Poética
Editor: Publicações D. Quixote
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António Ramos Rosa: Amor da palavra, amor do corpo


















A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que te não vejo.
Boca na boca, através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?
Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.


António Ramos Rosa
Portugal (Faro) 1924-2013
in Antologia Poética
Editor: D. Quixote
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Nuno Júdice: Poema de amor











O céu, as linhas de luz na água,

caminhos diferentes para o coração.

A queda de sons diversos na atenta coincidência

dos ouvidos. A relação de uma límpida tarde

com um movimento de ombros junto do teu corpo,

na luminosa sequência da tua voz.

Um andar divino de transparente espectro

sobre o fundo de árvores;

o acentuar da impressão dos teus olhos

na quente atmosfera estagnada.

Mas o súbito levantar do vento dissipou

a primitiva aparência. Um canto lívido

de mortas recordações apenas subsistiu,

o indefinido desgosto dos teus braços,

o remorso de gestos incompletos

que a memória suspende.

Nem me espanto já com a tua proximidade.

Bem vindos, decompostos lábios!

O ranger da cama sobrepõe-se

ao ruído das cigarras.





Nuno Júdice

Portugal (Mexilhoeira Grande, Algarve) 1949

in Obra Poética (1972-1985)

Editor: Quetzal Editores

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Nuno Júdice: Um amor







Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados.
                                                            Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.


Nuno Júdice
Portugal (Mexilhoeira Grande, Algarve) 1949
in Obra Poética (1972-1985)
Editor: Quetzal Editores
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