Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

18 de maio de 2014

Sônia Queiroz: Nomes


quando os nossos corpos puderam se tocar
era passado o tempo
das paixões
eu já não tinha forças
e só pude pedir: me ama!

ainda me ouviste
e te puseste à larga
como quem soçobra
como quem transborda.

a esse já depois
chamei:
amor tardio.





Sônia Queiroz
Brasil (Belo Horizonte; MG) 1953
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Betty Vidigal: Porém

Um homem deve às vezes restar quieto sobre a cama,
com os olhos entreabertos
e um sorriso quase irónico nos lábios
e permitir que alguém, em gestos rápidos,
lhe desfranza o sobrancenho contraído,
alise as linhas do semblante carregado
e depois trace desenhos, levemente,
com as unhas e os dentes,
em sua pele fina e delicada.

Homens detestam que alguém lhes diga
que têm a pele fina e delicada.
Porém, se andam sempre tão bem vestidos,
de terno ou jeans,
camisa abotoada,
no máximo com a manga arregaçada,
tão protegidos do sol, dos poluentes,
como querem que seja diferente?
Uma mulher caminha exposta,
ombros à mostra,
vestidos curtos, acima dos joelhos,
e a pele torna-se, naturalmente,
- não mais grossa -
porém, mais resistente
e, pelo efeito da erosão dos ventos,
talvez mais lisa até.

E bronzeada,
acostumada aos ráios ultra-violeta
e à poluição.
Já homem, não.

Então a pele é clara, é claro,
e lisa, por que não?
Homem sabe-se lá porquê,
adora ser durão.



Betty Vidigal
Brasil (São Paulo)j
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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17 de maio de 2014

Márcia Theophilo: BOTO




Quando em suas noites de fogo Yaci acorda espantada,
Boto se transforma
em guerreiro e invade seu leito. As vozes abafadas
no escuro, cresce o silêncio, serpente ele se enrosca
e se enrodilha no seu corpo
pouco a pouco sobe sinuosamente,
entre carícias amacia as asperezas das escamas.
Entre seus longos cabelos surge dizendo: meu amor.
É pedra, é água.
Onde é  seu ninho? Navegando entre as folhas,
arcos e ciprestes lhe atinge em delírio
tirando-lhe o respiro: nuvem ela polpa de fruta madura,
odores selvagens, cores. Pensamentos irracionais
exaltam seu corpo:
seus sentidos sete pulos de gato lascivo,
se interroga, pensa e soluça entre suas tranças.
Yaci abraça as suas coxas douradas.
Muito longe começa o teu rio, Boto.
Em desarmonia se cruzam olhares intensos.
Ela busca força em suas entranhas.
Garras arrancam as ancas, as pernas, as costas Boto
vingança desejada.

Escuta seu nome por ele sussurrado: Yaci.
Boto sem remorso fere e ela se arrebata.
Procura-lhe em noites sem descanso
e nos dias seguintes chega inesperado.
Ele surge e ela se exalta.
Cavalos, ninhos, pássaros, borboletas
madeiras, serras, galhos, esferas, rios e riachos.
Boto metade água
metade peixe e metade homem.
Quando toca o fundo do rio e cavalga arrastado pelas
águas, inunda os arbustos entre ilhas.
Yaci estreita em seus braços as escamas
peixe que foge, sabor de água e frutos do mar,

Boto peixe sal-sol-sal. Vista. Respiro





Márcia Theophilo
Brasil (Fortaleza, Ceará) 1941
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Alvares de Azevedo: Namoro a Cavalo

 
Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada,
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcineia namorada.
 
Alugo (três mil réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na janela...
 
 Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito... mas furtado.
 
Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia - em casamento.
 
Ontem tinha chovido... Que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafuis encheu de lama...
 
Eu não desanimei. Se Dom Quixote
No Rocinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada...!
 
Mas eis que no passar pelo sobrado
Onde habita nas lojas minha bela
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela...
 
O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada,
Arripia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada...
 
Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.
 
Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!...
 


Alvares de Azevedo
Brasil (São Paulo) 1831-1852
in Cinco Séculos de Poesia,
Antologia da Poesia Brasileira
Seleção: Frederico Barbosa
Editor: Landy Editora
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Ana Marques Gastão: Em nós desagua o mistério...



Em nós desagua o mistério
das coisas - solidão tranquila
que cada um consigo arrasta.

Entre o disperso dia e a íntima noite
somos o sopro por dentro da angústia.






Ana Marques Gastão
Portugal (Lisboa) 1962
in Nocturnos
Editor: Gótica
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10 de maio de 2014

Eugénio de Andrade: Ariadne


Agora falarei dos olhos de Ariadne.
Falarei dos teus olhos, pois de Ariadne
só talvez haja memória
entre as pernas de Teseu.

De Ariadne ou não, os olhos são azuis.
Azuis de um azul muito frágil,
como se ao fazer a cor uma criança
tivesse calculado mal a água.
É um azul diluído, o azul dos teus olhos,
diluído em duas ou três lágrimas
- uma delas minha, pelo menos uma,
as outras tuas, as outras de Ariadne.

Falarei destes olhos. Os de Ariadne,
deles deixarei que seja Teseu a falar.
Falarei desse azul que não vi em Creta,
pois passei a infãncia numa terra sem mar,
falarei desse azul que não vi em Naxos,
mas vi em Delfos onde, entre colunas,
passava os dias divinamente a fornicar,
indiferente ao oráculo de Apolo.
De resto, que deus grego não me aprovaria?
Que outra coisa se pode fazer na Grécia?
Ali podeis fornicar com toda a gente
- é clássico e barato-,
até com os coronéis.

Agora falarei dos olhos gregos  de Ariadne,
que não são de Ariadne nem são gregos,
desses olhos que se fossem música
seriam a música de águados oboés,
falarei apenas dos olhos do meu amor,
desses olhos de um azul tão azul?
que são mesmo o azul dos olhos de Ariadne.



Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in  Obscuro Domínio
Editor: Assirio e Alvim
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.Compre na Wook: http://www.wook.pt/ficha/obscuro-dominio/a/id/15056643http://www.wook.pt/?a_aid=536bffbfa3e8a

3 de maio de 2014

Francisco Brines: A Piedade do tempo

Em que escuro recanto do tempo que morreu
vivem ainda,
a arder, aquelas coxas?


                   Dão luz ainda
a estes olhos tão velhos e enganados,
que voltam agora a ser o milagre que foram:
desejo de uma carne, e a alegria
do que não se nega.


A vida é o naufrágio de uma obstinada imagem
que já nunca saberemos se existiu,
pois só pertence a um lugar extinto.




Francisco Brines
Espanha (Oliva,Valência) 1932
in A Última Costa
Editor:  Assirio & Alvim
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Francisco Brines: Azul


Busquei o azul, perdi a juventude.

Os corpos, como ondas, rompiam-se
em areias desertas. Houve amor
no recanto florido de um jardim
fechado. E quis achar palavras
que alguém pudesse amar, e elas valeram-me.

Estou a chegar ao fim. Cega meus olhos
um desolado azul iluminado.


Francisco Brines
Espanha (Oliva, Valência) 1932
in A Última Costa
Editor: Assirio & :Alvim
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28 de abril de 2014

António Ramos Rosa: É por ti que escrevo




É por ti que escrevo que não és musa nem deusa
mas a mulher do meu horizonte
na imperfeição e na incoincidência do dia-a-dia
Por ti desejo o sossego oval
em que possas identificar-te na limpidez de um centro
em que a felicidade se revele como um jardim branco
onde reconheças a dália da tua identidade azul
É porque amo a cálida formosura do teu torso
a latitude pura da tua fronte
o teu olhar de água iluminada
o teu sorriso solar
é porque sem ti não conheceria o girassol do horizonte
nem a túmida integridade do trigo
que eu procuro as palavras fragrantes de um oásis
para a oferenda do meu sangue inquieto
onde pressinto a vermelha trajectória de um sol
que quer resplandecer em largas planícies
sulcado por um tranquilo rio sumptuoso



António Ramos Rosa
Portugal (Faro) 1924-2013
in O teu rosto
Editor: Edições Asa

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27 de abril de 2014

António Ramos Rosa: Para Agripina


Amanheceu a minha vida no teu rosto
de uma doçura intensa e tão suave
como se um divino fundo nele brilhasse
Eu era o que nascia soberanamente leve
e encontrava na limpidez centro do equilíbrio
Só em ti cheguei amanhecendo
na minha madurez. Entrei no templo
em que a luz latente era a secreta sombra
Foste sonhada por meus olhos e minhas mãos
por minha pele e por meu sangue
Se o dia tem este fulgor inteiro é porque existes
E é porque existes que se levanta o mundo
em quotidianos prodígios
em que ao fundo brilha o horizonte certo.


António Ramos Rosa
Portugal (Faro) 1924-2013
in O teu rosto
Editor: Edições Asa
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António Ramos Rosa: Não posso adiar o amor




















Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o rneu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração


António Ramos Rosa
Portugal (Faro) 1924-2013
in Antologia Poética
Editor: D. Quixote

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António Ramos Rosa: Poema dum funcionário cansado


A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só


António Ramos Rosa
Portugal (Faro) 1924-2013
in Antologia Poética
Editor: D. Quixote
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António Ramos Rosa: Cabelos




Cabelos são os teus cabelos as tuas mãos
e que sinais de perfeição tão triste
que doçura do espírito da terra
que suavidade do espírito da água

Ombros seios umbigo velo sexo
tudo velado pelo ouro da sombra
da castidade ardente honra da carne
honra de amor para o que a conhecer


António Ramos Rosa
Portugal (Faro) 1924-2013
in 366 poemas que falam de amor
Org: Vasco Graça Moura
Editor: Quetzal 
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