Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

25 de maio de 2014

Luiza Neto Jorge: Preludio para Sexo e Sonho

 
A virilha verde congestionou-me o sonho. Relentado a par de mim e a
voz, o eco. Há corpos de homens rígidos, para deitar abaixo com uma
bola vermelha, corpos, subitamente, numa barraca de feira.
A virilha verde retesou-me o sonho.
Porquanto o horizonte é uma centopeia grande, o mar é uma centopeia
grande. Nós uma centopeia emborcada, a arranhar o ar.
Abano-me com um leque de papel amarrotado. Saturo-me de coisas
familiares. No outono, as flores apócrifas, no papel da parede, deixarão
zumbir corolas.
A virilha verde sugou-me o sonho.
O sexo da 2ª pessoa induvidada. A alma da 2ª pessoa ambígua é o
aberto entre mim e o sangue.
Sangra um lábio ilúcido arpoado no meu.
E o silêncio espásmico.
A virilha verde amorteceu no sonho.
Será urgente talhar uma paz apodrecida, a
chicote, pelas manhãs nervadas?
Dormiste com as chaminés a fumegar.
Dormi a dar à luz.
Para se defender de nós, a noite estendeu
o escudo. Há uma lua
apedrejada de mitos e estrelas.
A virilha verde morreu.

Vigília



Luiza Neto Jorge
Portugal; Lisboa 1939-1989
in Poesia
Editor: Assírio & Alvim
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22 de maio de 2014

E. M. Melo e Castro: Abro a experiência do teu corpo



Abro
     a experiência
               do teu corpo

o teu voo
     a experiência
          do teu ovo

a tua vinha
     a experiência
          da tua vinda

a tua voz
     a experiência
          de te ver

a tua pele
     a experiência
          de te despir

o teu peso
     a experiência
          do teu peso

o teu ver
     a experiência
          de te haver

o teu dar
     a experiência
          da tua dor

a tua cama
     a experiência
          de ti como

o teu lume
     a experiência
          do teu volume

a tua loucura
     a experiência
          de ti dura

o teu lugar
     a experiência
          do teu ar

as tuas pernas
     a experiência
          de ti terna

o teu húmus
     a experiência
          do teu ânus



E. M. Melo e Castro
Portugal (Covilhã) 1932
in Sim... Sim! - Poemas Eróticos
Editor: Vega
photo by google

18 de maio de 2014

Sônia Queiroz: Nomes


quando os nossos corpos puderam se tocar
era passado o tempo
das paixões
eu já não tinha forças
e só pude pedir: me ama!

ainda me ouviste
e te puseste à larga
como quem soçobra
como quem transborda.

a esse já depois
chamei:
amor tardio.





Sônia Queiroz
Brasil (Belo Horizonte; MG) 1953
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Betty Vidigal: Porém

Um homem deve às vezes restar quieto sobre a cama,
com os olhos entreabertos
e um sorriso quase irónico nos lábios
e permitir que alguém, em gestos rápidos,
lhe desfranza o sobrancenho contraído,
alise as linhas do semblante carregado
e depois trace desenhos, levemente,
com as unhas e os dentes,
em sua pele fina e delicada.

Homens detestam que alguém lhes diga
que têm a pele fina e delicada.
Porém, se andam sempre tão bem vestidos,
de terno ou jeans,
camisa abotoada,
no máximo com a manga arregaçada,
tão protegidos do sol, dos poluentes,
como querem que seja diferente?
Uma mulher caminha exposta,
ombros à mostra,
vestidos curtos, acima dos joelhos,
e a pele torna-se, naturalmente,
- não mais grossa -
porém, mais resistente
e, pelo efeito da erosão dos ventos,
talvez mais lisa até.

E bronzeada,
acostumada aos ráios ultra-violeta
e à poluição.
Já homem, não.

Então a pele é clara, é claro,
e lisa, por que não?
Homem sabe-se lá porquê,
adora ser durão.



Betty Vidigal
Brasil (São Paulo)j
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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17 de maio de 2014

Márcia Theophilo: BOTO




Quando em suas noites de fogo Yaci acorda espantada,
Boto se transforma
em guerreiro e invade seu leito. As vozes abafadas
no escuro, cresce o silêncio, serpente ele se enrosca
e se enrodilha no seu corpo
pouco a pouco sobe sinuosamente,
entre carícias amacia as asperezas das escamas.
Entre seus longos cabelos surge dizendo: meu amor.
É pedra, é água.
Onde é  seu ninho? Navegando entre as folhas,
arcos e ciprestes lhe atinge em delírio
tirando-lhe o respiro: nuvem ela polpa de fruta madura,
odores selvagens, cores. Pensamentos irracionais
exaltam seu corpo:
seus sentidos sete pulos de gato lascivo,
se interroga, pensa e soluça entre suas tranças.
Yaci abraça as suas coxas douradas.
Muito longe começa o teu rio, Boto.
Em desarmonia se cruzam olhares intensos.
Ela busca força em suas entranhas.
Garras arrancam as ancas, as pernas, as costas Boto
vingança desejada.

Escuta seu nome por ele sussurrado: Yaci.
Boto sem remorso fere e ela se arrebata.
Procura-lhe em noites sem descanso
e nos dias seguintes chega inesperado.
Ele surge e ela se exalta.
Cavalos, ninhos, pássaros, borboletas
madeiras, serras, galhos, esferas, rios e riachos.
Boto metade água
metade peixe e metade homem.
Quando toca o fundo do rio e cavalga arrastado pelas
águas, inunda os arbustos entre ilhas.
Yaci estreita em seus braços as escamas
peixe que foge, sabor de água e frutos do mar,

Boto peixe sal-sol-sal. Vista. Respiro





Márcia Theophilo
Brasil (Fortaleza, Ceará) 1941
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Alvares de Azevedo: Namoro a Cavalo

 
Eu moro em Catumbi. Mas a desgraça
Que rege minha vida malfadada,
Pôs lá no fim da rua do Catete
A minha Dulcineia namorada.
 
Alugo (três mil réis) por uma tarde
Um cavalo de trote (que esparrela!)
Só para erguer meus olhos suspirando
À minha namorada na janela...
 
 Todo o meu ordenado vai-se em flores
E em lindas folhas de papel bordado
Onde eu escrevo trêmulo, amoroso,
Algum verso bonito... mas furtado.
 
Morro pela menina, junto dela
Nem ouso suspirar de acanhamento...
Se ela quisesse eu acabava a história
Como toda a Comédia - em casamento.
 
Ontem tinha chovido... Que desgraça!
Eu ia a trote inglês ardendo em chama,
Mas lá vai senão quando uma carroça
Minhas roupas tafuis encheu de lama...
 
Eu não desanimei. Se Dom Quixote
No Rocinante erguendo a larga espada
Nunca voltou de medo, eu, mais valente,
Fui mesmo sujo ver a namorada...!
 
Mas eis que no passar pelo sobrado
Onde habita nas lojas minha bela
Por ver-me tão lodoso ela irritada
Bateu-me sobre as ventas a janela...
 
O cavalo ignorante de namoros
Entre dentes tomou a bofetada,
Arripia-se, pula, e dá-me um tombo
Com pernas para o ar, sobre a calçada...
 
Dei ao diabo os namoros. Escovado
Meu chapéu que sofrera no pagode
Dei de pernas corrido e cabisbaixo
E berrando de raiva como um bode.
 
Circunstância agravante. A calça inglesa
Rasgou-se no cair de meio a meio,
O sangue pelas ventas me corria
Em paga do amoroso devaneio!...
 


Alvares de Azevedo
Brasil (São Paulo) 1831-1852
in Cinco Séculos de Poesia,
Antologia da Poesia Brasileira
Seleção: Frederico Barbosa
Editor: Landy Editora
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Ana Marques Gastão: Em nós desagua o mistério...



Em nós desagua o mistério
das coisas - solidão tranquila
que cada um consigo arrasta.

Entre o disperso dia e a íntima noite
somos o sopro por dentro da angústia.






Ana Marques Gastão
Portugal (Lisboa) 1962
in Nocturnos
Editor: Gótica
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10 de maio de 2014

Eugénio de Andrade: Ariadne


Agora falarei dos olhos de Ariadne.
Falarei dos teus olhos, pois de Ariadne
só talvez haja memória
entre as pernas de Teseu.

De Ariadne ou não, os olhos são azuis.
Azuis de um azul muito frágil,
como se ao fazer a cor uma criança
tivesse calculado mal a água.
É um azul diluído, o azul dos teus olhos,
diluído em duas ou três lágrimas
- uma delas minha, pelo menos uma,
as outras tuas, as outras de Ariadne.

Falarei destes olhos. Os de Ariadne,
deles deixarei que seja Teseu a falar.
Falarei desse azul que não vi em Creta,
pois passei a infãncia numa terra sem mar,
falarei desse azul que não vi em Naxos,
mas vi em Delfos onde, entre colunas,
passava os dias divinamente a fornicar,
indiferente ao oráculo de Apolo.
De resto, que deus grego não me aprovaria?
Que outra coisa se pode fazer na Grécia?
Ali podeis fornicar com toda a gente
- é clássico e barato-,
até com os coronéis.

Agora falarei dos olhos gregos  de Ariadne,
que não são de Ariadne nem são gregos,
desses olhos que se fossem música
seriam a música de águados oboés,
falarei apenas dos olhos do meu amor,
desses olhos de um azul tão azul?
que são mesmo o azul dos olhos de Ariadne.



Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in  Obscuro Domínio
Editor: Assirio e Alvim
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.Compre na Wook: http://www.wook.pt/ficha/obscuro-dominio/a/id/15056643http://www.wook.pt/?a_aid=536bffbfa3e8a

3 de maio de 2014

Francisco Brines: A Piedade do tempo

Em que escuro recanto do tempo que morreu
vivem ainda,
a arder, aquelas coxas?


                   Dão luz ainda
a estes olhos tão velhos e enganados,
que voltam agora a ser o milagre que foram:
desejo de uma carne, e a alegria
do que não se nega.


A vida é o naufrágio de uma obstinada imagem
que já nunca saberemos se existiu,
pois só pertence a um lugar extinto.




Francisco Brines
Espanha (Oliva,Valência) 1932
in A Última Costa
Editor:  Assirio & Alvim
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