Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

12 de junho de 2014

Lilás Carriço: Faz hoje um ano, amor


Faz hoje um ano, amor, que tu partiste,
Morrendo no meu  peito essa quimera
Que me trazia em plena Primavera
Nos longos meses de um Inverno triste.

Faz hoje um ano... Nem eu sei se existe
Alguma dor que seja mais sincera
Do que essa dor que, desde então, impera
Nesta alma que, terrível, destruíste.

No mundo de promessas confiei
E toda a ti, bem louca, me entreguei
Tal como a borboleta busca a luz.

Mas, na tristeza qual eu vivo agora,
Já não recordo como foi o outrora
E ao nada essa quimera me reduz.





Lilás Carriço
Brasil; Manaus
Portugal; Moimenta da Beira
in Labirinto da Vida
Editor: Porto Editora
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Jorge Luis Borges: O Ameaçado




















É o amor. Terei de esconder-me ou fugir.
Crescem os muros do seu cárcere, como um sonho atroz.
A formosa máscara mudou mas como sempre é a única.
De que me servirão os meus talismãs: o exercício das letras,
a vaga para cantar os seus mares e as suas espadas, a serena
amizade, as galerias da Biblioteca, as coisas comuns, os
hábitos, o jovem amor da minha mãe, a sombra militar dos
meus mortos, a noite intemporal, o sabor do sonho?

Estar contigo ou não estar contigo é a medida do meu tempo.
Já o cântaro se quebra sobre a fonte, já o homem se levanta
à voz da ave, já se escureceram os que olham por detrás das
janelas, mas a sombra não trouxe a paz.
É, já sei, o amor: a ansiedade e o alívio de ouvir a tua voz,
a espera e a memória, o horror de viver no sucessivo.

É o amor com as suas mitologias, com as suas pequenas
magias inúteis.
Há uma esquina pela qual não me atrevo a passar.
Já os exércitos me cercam, as hordas.
(Esta habitação é irreal; ela não a viu.)
O nome de uma mulher me denuncia.
Dói-me por todo o corpo uma mulher.




Jorge Luis Borges
Argentina; Buenos Aires 1899
Suiça; Genebra 1986
in  Obra Poética
Editor: Quetzal
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8 de junho de 2014

José Saramago: Viajo no teu corpo



Viajo no teu corpo. Só teu corpo?
Mas quão breve seria essa viagem
Se no limite dela a alma nua
Não me desse do teu corpo a certa imagem.




José Saramago
Portugal; Azinhaga, Ribatejo 1922
Espanha; Tías, Las Palmas 2010
in Provavelmente alegria
Editor: Editorial Caminho
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Aluysio Mendonça Sampaio: No silêncio da noite insone

No silêncio da noite insone
o relógio é o coração do tempo
pulsando.


Som metálico incessante,
do átimo que passa,
eis a cadência marcial
para o nada.


Belo é o fluir da vida
o desabrochar da flor
pletora da luz
ao despontar de sóis.


No ventre da vida
germina a morte
silente, constante
lâmina cortante do tempo.


Pudéssemos parar o coração das eras!
O nosso instante ― eterno.
O nosso amor ― perene.
Ah! Maldito relógio
consciência do efémero
por que não cessas de bater
o ritmo monótono monocorde
do minuto que passa?

Deixe-me ficar no instante
― minha eternidade.


Aluysio Mendonça Sampaio
Brasil; Sergipe 1926
       São Paulo 2008
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José Saramago: Fim e Recomeço





Não pode ser o luar esta brancura,
Nem aves batem asas sobre o leito,
Onde caem os corpos fatigados:
Será, de mim, o sangue que murmura,
Serão, de ti, as luas do teu peito:
Onde vai o cansaço, renovador.







José Saramago
Portugal; Azinhaga, Ribatejo 1922
Espanha; Tías, Las Palmas 2010
in Os poemas possíveis
Editor: Editorial Caminho

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José Saramago: Aspa

















Sobre o leito desmanchado te derrubo,
Onde atiças o desejo que acendi.
À glória do teu corpo, de mim, subo.
Não cantam anjos, mas do céu bem perto,
De um suor de agonia recoberto,
Tudo se cumpre na aspa que escolhi.



José Saramago
Portugal; Azinhaga, Ribatejo 1922
Espanha; Tías, Las Palmas 2010
in Os poemas possíveis
Editor: Editorial Caminho
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José Saramago: Declaração





Não, não há morte.
Nem morto está o fruto que tombou:
Dá-lhes vida o abraço dos meus dedos,
Respiram na cadência do meu sangue,
Do bafo que os tocou.
Também um dia, quando esta mão secar,
Na memória doutra mão perdurará,
Como a boca guarda caladamente
O sabor das bocas que beijou.



José Saramago
Portugal; Azinhaga, Ribatejo 1922
Espanha; Tías, Las Palmas 2010
in Os poemas possíveis
Editor: Editorial Caminho
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José Saramago: Aprendamos, Amor





Aprendamos, amor, com estes montes
Que, tão longe do mar, sabem o jeito
De banhar no azul dos horizontes.

Façamos o que é certo e de direito:
Dos desejos ocultos outras fontes
E desçamos ao mar do nosso leito.



José Saramago
Portugal; Azinhaga, Ribatejo 1922
Espanha; Tías, Las Palmas 2010
in Os poemas possíveis
Editor: Editorial Caminho
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José Saramago: Julieta a Romeu





















É tarde, amor, o vento se levanta,
A escura madrugada vem nascendo,
Só a noite foi nossa claridade.
Já não serei quem fui, o que seremos
Contra o mundo há-de ser, quem nos rejeita,
Culpados de inventar a liberdade.



José Saramago
Portugal; Azinhaga, Ribatejo 1922
Espanha; Tías, Las Palmas 2010
in Os poemas possíveis
Editor: Editorial Caminho
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José Saramago: Romeu a Julieta
















Eu vou amor, mas deixo cá a vida,
No calor desta cama que abandono,
Areia dispersada que foi duna.
Se a noite se fez dia, e com a luz
O negro afastamento se interpõe,
A escuridão da morte nos reúna.



José Saramago
Portugal; Azinhaga, Ribatejo 1922
Espanha; Tías, Las Palmas 2010
in Os poemas possíveis
Editor: Editorial Caminho
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6 de junho de 2014

Lilás Carriço: Os teus lábios, sedentos do meu ser



Os teus lábios, sedentos do meu ser,
Colaste fortemente à minha boca
E sinto, desde então, em mim viver
A febre ardente duma ânsia louca.

Beijas-te e, no teu beijo de prazer,
Busquei sofregamente a tua boca
E, só então, passei a perceber
Que a vida, longe deles, era pouca!

Deixas-te sobre a carne o fogo ardente,
O vibrar desses beijos louco e quente
Que me deixou atónica, vencida,

E, hoje, já não sei, nesta amargura,
Se aquilo que senti naquela altura
Era o céu ou o inferno nesta vida.





Lilás Carriço
Brasil; Manaus
Portugal; Moimenta da Beira
in Arco-íris Poético
Editor: Porto Editora
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31 de maio de 2014

Ruy Belo: E tudo era possível



Na minha juventude antes de ter saído
de casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que tinha lido

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder de uma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer



Ruy Belo
Portugal; Lisboa 1919
Santa Barbara; Califórnia 1978
in Todos os Poemas
Editor: Assírio & Alvim
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Lilás Carriço: Perfil crioulo


Era linda!...
Os seus cabelos, negros e compridos,
ao contrastar no claro dos vestidos,
caíam-lhe ondulados no colo voluptuoso
como um colo de cisne, grácil e capitoso.
A sua tez morena acetinada,
onde brilhavam uns claros olhos tentadores
rescendia, macia e perfumada,
emoldurada por cílios sonhadores.
Brincavam-lhe na boca uns dentes de marfim,
imitando a brancura veludínea do jasmim.
Os seus lábios vermelhos, sensuais,
recortavam-se em curvas ideais,
evocando a linda Citereia
que deles se servia pra tentar
o belo Júpiter ao sentir beijar
a boca doce e quente da gentil sereia.
O seu corpo sereno, coleante,
ao requebrar-se em curvas caprichosas,
era qual bela taça de espumante
num gota-a-gota em horas deliciosas!

Era bela!...
Um sorriso modesto, indefinido,
em formoso botão desabrochado,
aflorava no revê rosto entristecido
entre as faces oculto, envergonhado.
Um olhar escondido, mas ardente,
numa desconfiança sem igual,
aumentava o feitiço meigo e quente
que vinha dessa deusa tropical.
Perigosa presença a esconder-se´
apagada, suave e feiticeira,
num breve andar de sílfide ligeira.
Uma silenciosa timidez,
admirável fonte de brandura,
dava-lhe um ar intenso de candura
com uns leves assomos de altivez.
Parecia viver num outro mundo
donde voltava com tristeza imensa
pra este mergulhado em treva densa
tão igual ao seu ser meditabundo,
um ser que, no seu todo, sem rival,
era um pomo gostoso e perfumado
apetecido e sempre disputado
por quem sentia o aroma enfeitiçado
dessa encantada Circe original!

Era linda!...
Em toda ela a noite era um dia,
em toda ela a luz resplandecia
em revérberos mágicos, fagueiros,
a incidir serenos, feiticeiros,
a escoar o filtro tentador
o poder estuante, sensual,
a atração do todo corporal
que nela era desejo e era amor!



Lilás Carriço
Brasil; Manaus
Portugal; Moimenta da Beira
in Arco-Íris Poético
Editor: Porto Editora

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25 de maio de 2014

Jorge de Sena: Arte de Amar


Quem diz de amor fazer que os actos não são tão belos
que sabe ou sonha de beleza? Quem
sente que suja ou é sujado por fazê-los
que goza de si mesmo ou de alguém?

Só não é belo o que não se deseja
ou que ao nosso desejo mal responde.
E suja ou é sujado que não seja
feito do ardor que se não nega ou esconde.

Que gestos há  mais belos que os do sexo!
Que corpo belo é menos belo em movimento?
E que mover-se o corpo no de um outro o amplexo
não é dos corpos o mais puro intento!

Olhos se fecham não para ver
mas para o corpo ver o que é que eles não,
e no silêncio se ouça um só ranger
da carne que é da carne a só razão.




Jorge de Sena
Portugal; Lisboa 1919
Santa Barbara; Califórnia 1978
in Antologia Poética
Editor: Guimarães Editores
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Mia Couto: Seios e Anseios


As vezes que morri
boca derramada entre os teus seios,
todas essas vezes
não me deram luto
porque, de mim, eu em ti nascia.

 Todos esses abismos,
meu amor,
não me deram regresso.

 Depois de ti,
não há caminhos.

 Porque eu nasci
antes de haver vida,
depois de tu chegares.

 


Mia Couto
Moçambique; Beira 1955
in tradutor de chuvas - poesia
Editor: Editorial Caminho
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Mia Couto: Beijo





Não quero o primeiro beijo:
basta-me
o instante antes do beijo.

Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo.

O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.

Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.



Mia Couto
Moçambique; Beira 1955
in tradutor de chuvas - poesia
Editor: Editorial Caminho
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Luiza Neto Jorge: Preludio para Sexo e Sonho

 
A virilha verde congestionou-me o sonho. Relentado a par de mim e a
voz, o eco. Há corpos de homens rígidos, para deitar abaixo com uma
bola vermelha, corpos, subitamente, numa barraca de feira.
A virilha verde retesou-me o sonho.
Porquanto o horizonte é uma centopeia grande, o mar é uma centopeia
grande. Nós uma centopeia emborcada, a arranhar o ar.
Abano-me com um leque de papel amarrotado. Saturo-me de coisas
familiares. No outono, as flores apócrifas, no papel da parede, deixarão
zumbir corolas.
A virilha verde sugou-me o sonho.
O sexo da 2ª pessoa induvidada. A alma da 2ª pessoa ambígua é o
aberto entre mim e o sangue.
Sangra um lábio ilúcido arpoado no meu.
E o silêncio espásmico.
A virilha verde amorteceu no sonho.
Será urgente talhar uma paz apodrecida, a
chicote, pelas manhãs nervadas?
Dormiste com as chaminés a fumegar.
Dormi a dar à luz.
Para se defender de nós, a noite estendeu
o escudo. Há uma lua
apedrejada de mitos e estrelas.
A virilha verde morreu.

Vigília



Luiza Neto Jorge
Portugal; Lisboa 1939-1989
in Poesia
Editor: Assírio & Alvim
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