Carta de apresentação
O SECRETO MILAGRE DA POESIA
Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.
Excerto
in Rosa do Mundo
11 de janeiro de 2015
César Leal: Soneto Acrobático I
Que a morte seja leve como a brisa
ou dança de relâmpagos nas águas,
corrida de um corcel apocalíptico
na bruma que circunda nossas mágoas.
Dissolva-me estes olhos o abandono
à sombra que me habita o peito em guerra
e guarda o coração longínquo sono
de flores de em semente inda na terra.
Que a morte exile a vida em mundo incerto:
- distância não medida em comprimento
que para o pensamento o longe é perto
para vós, para nós e tenras plantas
que dão perfume em flor e amor no fruto.
César Leal
Brasil (Saboeiro) 1924-2013
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Ana Luísa Amaral: O exacto curso do rio
Exactamente como foi, o medo de me enganar
mais tarde na memória - é tudo o que me resta: estar
de noite às escuras a pensar em ti
E se me lembro mal, se troco as vezes, naquela
quinta-feira o dia do amor em vez de ser
na quarta, o erro surge-me gigante,
um peso carregado como Atlas
Por isso é que preciso de lembrar coisas
exactas, como aconteceu tudo; não só
transpor depois na ficção recolhida, sou eu
que te preciso e dos teus dias
que me foram meus
Lembrar-me exactamente como foi, o que usei
nesse dia e o que usei no outro, até que horas
tudo, se havia gente ou não
e em que dia. Porque as palavras depois se
reconstroem
O que se disse então torna-se fácil.
Assim dito parece coisa pouca,
lugar comum e
fácil, mas as noites são grandes
e lembrar-te
exactamente,
de uma forma correcta
é-me tão importante
dentro das noites a pensar em ti
sabendo: não te vejo nunca mais.
mais tarde na memória - é tudo o que me resta: estar
de noite às escuras a pensar em ti
E se me lembro mal, se troco as vezes, naquela
quinta-feira o dia do amor em vez de ser
na quarta, o erro surge-me gigante,
um peso carregado como Atlas
Por isso é que preciso de lembrar coisas
exactas, como aconteceu tudo; não só
transpor depois na ficção recolhida, sou eu
que te preciso e dos teus dias
que me foram meus
Lembrar-me exactamente como foi, o que usei
nesse dia e o que usei no outro, até que horas
tudo, se havia gente ou não
e em que dia. Porque as palavras depois se
reconstroem
O que se disse então torna-se fácil.
Assim dito parece coisa pouca,
lugar comum e
fácil, mas as noites são grandes
e lembrar-te
exactamente,
de uma forma correcta
é-me tão importante
dentro das noites a pensar em ti
sabendo: não te vejo nunca mais.
Ana Luísa Amaral
Portugal (Lisboa) 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi
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Hilda Hilst: Do Amor XL
Aflição de ser eu e não ser outra,
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu , casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
( A noite como fera se avizinha ).
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.
Hilda Hil st
Brasil (Jaú, São Paulo) 1930-2004
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Cyro Pimentel: Eros Adolescente
Em teu corpo, grito de girassóis,
Rápidos cruzam-se animais celestes.
Atravessa-o um veloz tropel de Eros.
Inundando de cinzas o sangue cintilante.
Nascem no corpo devastado em voos
Abruptos
As vermelhas sombras inoculadas
Na infância - as pétalas
Soltas no ministério de vento fértil.
Nos seus delírios as donzelas
Sonham-se os potros da constelação!
E alucinadas pelo olhar-relâmpago
Da vida, disparam acoitadas pelo
Rebenque terrestre. Marcadas a cornos
De tango, agonizam sob um céu doente...
Cyro Pimrentel
Brasil(São Paulo) 1926-2008
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Rápidos cruzam-se animais celestes.
Atravessa-o um veloz tropel de Eros.
Inundando de cinzas o sangue cintilante.
Nascem no corpo devastado em voos
Abruptos
As vermelhas sombras inoculadas
Na infância - as pétalas
Soltas no ministério de vento fértil.
Nos seus delírios as donzelas
Sonham-se os potros da constelação!
E alucinadas pelo olhar-relâmpago
Da vida, disparam acoitadas pelo
Rebenque terrestre. Marcadas a cornos
De tango, agonizam sob um céu doente...
Cyro Pimrentel
Brasil(São Paulo) 1926-2008
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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10 de janeiro de 2015
Cyro Pimentel: Solenidade
Exorcizados, saem os leopardos da sombra
Do teu corpo.
Cavalos soltos nos prédios selvagens
Voam, submissos à neblina.
Trilham o jardim dos vocábulos,
E fugitivo sob a terra
Segue o rio interior,
Onde em margens de almas e fantasmas
Sobejam os sentidos.
Estrelas feridas pelos céus
As tristes palavras eternas;
E após lutas, lentas mortes, construo -
Alta! a ascendente verdade terrestre.
Afastam-se as feiticeiras do templo
E soberbo no altar de Orfeu tangível
Domino, com a solenidade dos deuses,
Teu corpo adormecido de meninas.
Cyro Pimentel
Brasil (São Paulo) 1926-2008
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Eugénio de Andrade: Apenas um Corpo
Respira. Um corpo horizontal,
tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula, infatigável.
Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
o peito e tremem,
pesadas de desejo.
Um rio interior aguarda.
Aguarda um relampago,
um rio de sol,
outro corpo.
Se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.
Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo do meu corpo desvelado.
Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in As Palavras Interditas,
Até Amanhã
Editor: Assirio & Alvim
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tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula, infatigável.
Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
o peito e tremem,
pesadas de desejo.
Um rio interior aguarda.
Aguarda um relampago,
um rio de sol,
outro corpo.
Se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.
Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo do meu corpo desvelado.
Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in As Palavras Interditas,
Até Amanhã
Editor: Assirio & Alvim
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Ana Marques Gastão: Amados na hora...

Amados na hora
passageira, curta
são os lugares,
sabores a mel
e tília e a casa
vago repouso
ou morte.
A ti, secreto amor,
devolvo o vento
e o gesto esquecido
na bruma das horas
Ana Marques Gastão
Portugal (Lisboa) 1962
in Nocturnos
Editor: Gótica
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Ana Marques Gastão: Não é o coração

Não é o coração
mas esta carne
em seu rumo.
Não é o coração
mas teu silêncio
de intenso furor
Não é o coração
mas as mãos
seu corpo, vazias
Na grave melodia
de um instante
tu e eu
em desiquílibrio
na infame
consistência
de um absoluto
obstáculo .
Ana Marques Gastão
Portugal (Lisboa) 1962
in Nocturnos
Editor: Gótica
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em seu rumo.
Não é o coração
mas teu silêncio
de intenso furor
Não é o coração
mas as mãos
seu corpo, vazias
Na grave melodia
de um instante
tu e eu
em desiquílibrio
na infame
consistência
de um absoluto
obstáculo .
Ana Marques Gastão
Portugal (Lisboa) 1962
in Nocturnos
Editor: Gótica
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Eugénio de Andrade: O Amor
Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.
A inudar-te de facas,
de saliva esperma lume.
Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.
A marcar sobre os teus flancos
o itinerário da espuma.
Assim é o amor: mortal e navegável.
Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in Obscuro Domínio
Editor: Assirio & Alvim
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30 de novembro de 2014
Eugénio de Andrade: Sobre as ervas
Respiras
como se pela garganta
deslizasse todo o azul de Espanha
a noite
a língua do vento
como se pela garganta
deslizasse todo o azul de Espanha
a noite
a língua do vento
sem outras mãos
outros olhos
para beber no escuro
para beber no escuro
Deita-te
sobre o meu peito
inclina
até ao chão
as frágeis
hastes da beleza.
sobre o meu peito
inclina
até ao chão
as frágeis
hastes da beleza.
As palavras
onde te escondes
onde te escondes
altas
passam
passam
passam as águas
dóceis
do verão
dóceis
do verão
É tempo
já as amoras sangram
é tempo ainda
já as amoras sangram
é tempo ainda
abre-me as portas do teu corpo
ó meu amor
ó meu amor
deixa-me entrar.
Já sobre ti
de aroma em aroma
os lábios todos
caem
de aroma em aroma
os lábios todos
caem
nupciais ou mortais os corpos
são para penetrar
lenta
oh
lentamente.
são para penetrar
lenta
oh
lentamente.
As mãos
sobre a nuca
delicadas.
sobre a nuca
delicadas.
Sobre as ervas
o leite
espesso do silêncio.
o leite
espesso do silêncio.
Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in Véspera de Água
Editor: Assirio & Alvim
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Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in Véspera de Água
Editor: Assirio & Alvim
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Ildásio Tavares: In Extremis
Quando eu morrer e reverter ao chão,
não profiram discursos nem louvores:
se acaso tive glória ou tive amores,
não sepultem o passado em meu caixão.
Não quero missa, prece ou oração;
nem sufoquem meu corpo sob flores;
não levem ao cemitério pranto ou dores,
quer seja de saudade ou de paixão.
Recitem versos, cantem melodia-
não fui senão poeta em minha vida,
girando dentro de mim qual caracol.
Terei mais luz no derradeiro dia
um cruel esplendor na despedida:
poesia enchendo o tumulo de sol.
Ildásio Tavares
Brasil (Gongogi) 1940
(Salvador) 2010
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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se acaso tive glória ou tive amores,
não sepultem o passado em meu caixão.
Não quero missa, prece ou oração;
nem sufoquem meu corpo sob flores;
não levem ao cemitério pranto ou dores,
quer seja de saudade ou de paixão.
Recitem versos, cantem melodia-
não fui senão poeta em minha vida,
girando dentro de mim qual caracol.
Terei mais luz no derradeiro dia
um cruel esplendor na despedida:
poesia enchendo o tumulo de sol.
Ildásio Tavares
Brasil (Gongogi) 1940
(Salvador) 2010
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Aluysio Mendonça Sampaio: O Relógio
No silêncio da noite insone
o relógio é o coração do tempo
pulsando.
Som metálico incessante,
do átimo que passa,
eis a cadência marcial
para o nada.
Belo é o fluir da vida
o desabrochar da flor
pletora de luz
ao despontar de sóis.
No ventre da vida
germina a morte
saliente, constante
lâmina cortante do tempo.
Pudéssemos parar o coração das eras!
O nosso instante - eterno.
O nosso amor - perene.
Ah! Maldito relógio
consciência do efémero
por que não cessas de bater
o ritmo monótono monocorde
do minuto que passa?
Deixe-me ficar no instante
- minha eternidade.
Aluysio Mendonça Sampaio
Brasil (Sergipe) 1926
São Paulo 2008
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Leonor Scliar-Cabral: Iemandite
Emerge em névoa e balança os seios
e sobre a espuma a flotar em flocos
repete múrmura ao seu amante:
Vem, meu amado.
conduz-me firme, a cintura e cinge,
mistura o sémen ao sal e às algas
e ao vai-e-vem em transporte singra,
mar que me afoga
Morrer eu quero, morrer de amor,
fluctivagando corcéis fogosos,
colhendo salvas recém jogadas
como oferenda
por quem da praia lançou-me rosas.
O espinho sangra e os deuses choram.
Serão eternas tão breves as ondas
e o seu marulho.
Leonor Scliar-Cabral
Brasil (Porto Alegre) 1929
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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e sobre a espuma a flotar em flocos
repete múrmura ao seu amante:
Vem, meu amado.
conduz-me firme, a cintura e cinge,
mistura o sémen ao sal e às algas
e ao vai-e-vem em transporte singra,
mar que me afoga
Morrer eu quero, morrer de amor,
fluctivagando corcéis fogosos,
colhendo salvas recém jogadas
como oferenda
por quem da praia lançou-me rosas.
O espinho sangra e os deuses choram.
Serão eternas tão breves as ondas
e o seu marulho.
Leonor Scliar-Cabral
Brasil (Porto Alegre) 1929
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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22 de novembro de 2014
Ildásio Tavares: Soneto Pastoral
Estas rugas que vejo no teu rosto
cicatrizes do tempo e da esperança
são saudades marcadas na criança,
sol nascente tornando-se sol posto.
Este tempo que em rugas escreveu
uma história de lágrimas e de riso,
purgatório que faz-se paraíso;
uma vida que nunca arrefeceu.
Este rosto sereno que me fita
tão distante dos sonhos do passado
é um espelho partido e remendado,
retalhos de prazer e de desdita!
Estas rugas, teu rosto, cicatrizes
são mágoas que desaguam sem raízes.
Ildásio Tavares
Brasil (Gongogi, Bahia) 1940
Salvador 2010
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congilío
Editor: Universitária Editora
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cicatrizes do tempo e da esperança
são saudades marcadas na criança,
sol nascente tornando-se sol posto.
Este tempo que em rugas escreveu
uma história de lágrimas e de riso,
purgatório que faz-se paraíso;
uma vida que nunca arrefeceu.
Este rosto sereno que me fita
tão distante dos sonhos do passado
é um espelho partido e remendado,
retalhos de prazer e de desdita!
Estas rugas, teu rosto, cicatrizes
são mágoas que desaguam sem raízes.
Ildásio Tavares
Brasil (Gongogi, Bahia) 1940
Salvador 2010
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congilío
Editor: Universitária Editora
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21 de setembro de 2014
Aluysio Mendonça Sampaio: Esperança

de tanto pisar os caminhos do mundo
os meus pés estão sangrando
e o meu coração ferido
como o chão gretado
olhos fitos na distância
avanço
rumo à fímbria do horizonte
de meus lábios brota um canto
como uma flor
nascida no agreste de meu peito
meu coração está ferido
e contudo puro e livre
como o canto que brota de meus lábios
ou o orvalho antes de tocar a terra
Aluysio Mendonça Sampaio
Brasil (Sergipe 1926;
São Paulo 2008
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Idelma Ribeiro de Faria: A Virgem de Negro

No rosto a marca do eterno
na mão a lanterna bíblica
no peito uma rosa rubra
partiu em busca do Esposo
o casto o excelso o inefável.
Selou a boca ao sorriso
fechou o peito ao desejo
calçou sandálias de ferro
sob os pés de rosa e neve.
Silêncios cheios de assombro
povoaram-lhe a vigília.
Vagalhões de anseios morros
cavaram fundos abismos
em sua calma-superfície.
Perdeu-se por entre os astros.
O Esposo morava longe
daquela estrada de sal
daquele rio de areia
daquela praia esgotada.
Ergueu os olhos ao alto.
Não viu mais que a grande noite.
Exausta desceu à terra
para a renúncia final.
No rosto a marca do tempo
na mão a lâmpada extinta
no peito a rosa vermelha
agora fransfeita em cinza.
Idelma Ribeiro de Faria
Brasil (Rio Claro, São Paulo) 1914
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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1 de setembro de 2014
Mia Couto: mar me quer
- O senhor pode ter sido acarinhado por mão, por lábio, por
corpo, mas nenhuma carícia lhe devolve tanto a alma como a
lágrima deslizando.
Mia Couto
Moçambique, Beira 1955
in mar me quer
Editor: Editorial Caminho
24 de agosto de 2014
Betty Vidigal: Paixão Via Internet

Com lupa te examino e me detenho
em pequenas minúcias do teu nome;
na falta de um rosto para dar-te
identidade e singularidade
analiso cada letra e seus detalhes.
Sim o recurso da pele, eletrizante,
ao alcance dos dedos para o toque,
encontro encanto nas teclas do teclado
e acaricio as letras mansamente.
Não posso, olhos nos olhos, rir contigo:
estendo-te asteriscos. Outros códigos
servem de ponte, ligação, liame.
De qualquer forma, humamos são humanos,
sujeitos sempre às mesmas reações:
respiração alterada, mãos mais frias
e ao ver-te entrar na sala, certo dia,
disparou-me o coração no mesmo choque
da adolescente de joelhos trémulos
diante do seu principe encantado,
tentando parecer indiferente.
identidade e singularidade
analiso cada letra e seus detalhes.
Sim o recurso da pele, eletrizante,
ao alcance dos dedos para o toque,
encontro encanto nas teclas do teclado
e acaricio as letras mansamente.
Não posso, olhos nos olhos, rir contigo:
estendo-te asteriscos. Outros códigos
servem de ponte, ligação, liame.
De qualquer forma, humamos são humanos,
sujeitos sempre às mesmas reações:
respiração alterada, mãos mais frias
e ao ver-te entrar na sala, certo dia,
disparou-me o coração no mesmo choque
da adolescente de joelhos trémulos
diante do seu principe encantado,
tentando parecer indiferente.
Betty Vidigal
Brasil (São Paulo)
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Brasil (São Paulo)
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Fernando Luís Sampaio: Epicentro
A sua doce presença trovejava mentiras
Na alegria de nos vermos morria
o sonho de mais tarde nos encontrarmos
num abraço.
O que dizia era o contrário da luz
que se desprendia da sua figura. De uma vida
feita aos poucos, a tua boca
merecia outra constelação.
O disfarce das sombras
que se moviam no seu espírito servia
de epicentro para mais uma partida.
Sobrevivia aos solavancos, tentado a
escapar ao destino, espécie de porta
giratória entre o céu e o inferno.
num abraço.
O que dizia era o contrário da luz
que se desprendia da sua figura. De uma vida
feita aos poucos, a tua boca
merecia outra constelação.
O disfarce das sombras
que se moviam no seu espírito servia
de epicentro para mais uma partida.
Sobrevivia aos solavancos, tentado a
escapar ao destino, espécie de porta
giratória entre o céu e o inferno.
Fernando Luís Sampaio
Moçambique 1960
in Falsa Partida
Editor: Assirio & Alvim
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3 de agosto de 2014
B. de Barros: Rapsódia de Ouro Preto
O ouro ja não se encontra
mais à flor da terra
em ouro preto. Eu sei.
Vagueei a noite inteira
pela praça imensa
suspensa das ladeiras,
Marilia não achei
por entre a multidão
de peregrinos uma pepita
um grão sobre o lajedo
uma faísca à luz
inconvincente não vislumbrei
Marilia de ouro preto
madeixas nas janelas.
Em tempos idos quando
meninos e cabritos moravam
nestes morros, as flores de ouro
preto rolaram pelas serras
deixando a sua ausência,
Marilia, à flor da terra
oculta em grupiaras no
seio de aluviões. Entretanto,
Marilia, nesta noite
de ausência, sob a ponte
de pedra, do mais fundo
o riacho cantava o meu amor
à flor da terra toda de ouro preto
presente em seu barroco resplendor.
B. de Barros
Brasil; São Paulo
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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mais à flor da terra
em ouro preto. Eu sei.
Vagueei a noite inteira
pela praça imensa
suspensa das ladeiras,
Marilia não achei
por entre a multidão
de peregrinos uma pepita
um grão sobre o lajedo
uma faísca à luz
inconvincente não vislumbrei
Marilia de ouro preto
madeixas nas janelas.
Em tempos idos quando
meninos e cabritos moravam
nestes morros, as flores de ouro
preto rolaram pelas serras
deixando a sua ausência,
Marilia, à flor da terra
oculta em grupiaras no
seio de aluviões. Entretanto,
Marilia, nesta noite
de ausência, sob a ponte
de pedra, do mais fundo
o riacho cantava o meu amor
à flor da terra toda de ouro preto
presente em seu barroco resplendor.
B. de Barros
Brasil; São Paulo
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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2 de agosto de 2014
Pedro Chagas Freitas: Silêncio que se vai amar
Silêncio que se vai amar
Todos os amores começam assim. No silêncio de um
olhar, no
silêncio de uma mão dependente da outra, de outra
mão vadia
a vaguear pela cidade nocturna do teu corpo, no
silêncio dos lábios
trincados, trocados, massajados, abraçados e
voltados a abraçar.
Todos os amores são silêncio estendido.
E todos os silêncios merecem o amor.
(Excerto)
Pedro Chagas Freitas
Portugal;Azurém,Guimarães 1979
in prometo falhar
Editor: Marcador
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28 de julho de 2014
António Botto: A noite cai nos teus olhos

A noite cai nos teus olhos
De um verde malicioso
E há qualquer fluido que vai
Vibrando silencioso...
Inda é cedo. Mais um pouco.
─ Não vês como as rosas
Se mostram nitidamente?!
Mais um pouco...
Deixa que a noite dissolva
Tudo na mesma aparência
Que tem a minha tristeza
Quando tu andas distante
Ou vens pra ficar ausente!...
E teimas? ─ Pois bem: adeus!
Parece que te macei...
Mas fica; o dia vem longe;
Sim, não sejas indeciso...
Esquece que te beijei.
António Botto
Portugal (Concavada, Abrantes) 1897
Brasil (Rio de Janeiro) 1959
in Canções e outros poemas
Editor: Edições
Quasi
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António Botto: Anda, vem…
Anda vem... porque te
negas,
Carne morena, toda
perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha ─ rosa de
lume?
Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite
presos num beijo.
Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!
E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê
contente!
─ Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem
pecado!
Anda, vem!... Dá-me o
teu corpo
Em troca dos meus
desejos...
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus
beijos!
António Botto
Portugal (Concavada, Abrantes) 1897
Brasil (Rio de Janeiro) 1959
in Canções e outros poemas
Editor: Edições Quasi
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António Botto: Não é ciúme que eu tenho

Não é ciúme o que eu tenho,
É pena;
Uma pena
Que me rasga o coração.
Essa mulher
Nunca pode merecer-te;
Não vive da tua vida,
Nem cabe na ilusão
Da tua sensualidade.
- Mas é bela! Tu afirmas;
E eu respondo que te enganas.
A beleza –
Sempre foi
Um motivo secundário
No corpo que nós amamos;
A beleza não existe
E quando existe não dura.
A beleza –
Não é mais do que o desejo
Fremente que nos sacode...
- O resto, é literatura.
Conheço bem os teus nervos;
Deixaram nódoas de lume
Na minha carne trigueira;
- Esta carne que lembrava
Laivos de luz outonal,
Doirada, sem consistência,
A aproximar-se do fim...
Eu já conheço o teu sexo,
Tu já gostaste de mim!
A frescura do teu beijo
E o poder do teu abraço
- Tudo isso eu devassei...
Não é ciúme o que eu tenho;
Mas quando te vi com ela
- Sem que me vissem, chorei...
António Botto
Portugal (Concavada, Abrantes) 1897
Brasil (Rio de Janeiro) 1959
in Canções e outros poemas
Editor: Edições
Quasi
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António Botto: Andava a lua nos céus
Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas
Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronze.
Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho.
Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Placidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.
Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.
Arrastou-me para Ele,
E encostado ao meu ombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...
Olhei o céu!
Agora a lua fugia,
Entre nuvens que tornavam
A linda noite sombria.
Deram-se as bocas num beijo,
─ Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento.
Vinha longe a madrugada.
Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir, ─
Bebia vinho, perdidamente,
Bebia vinho..., até cair.
António Botto
Portugal (Concavada, Abrantes) 1897
Brasil (Rio de Janeiro) 1959
in Canções e outros poemas
Editor: Edições
Quasi
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