Venho ao teu encontro a procurar,
bondade, um céu de camponeses,
altas árvores onde o sol e a chuva
adormecem na mesma folha,
Não posso amar-te mais,
luz madura, espaço aberto.
Não posso dar-te mais do que te dou:
sangue, insónias, telegramas, dedos.
Aqui estou, fronte pura, rodeado
de sombra, de soluços, de perguntas.
Aceita esta ternura surda,
este jasmim aprisionado.
Nos meus lábios, melhor: no fogo,
talvez no pão, talvez na água,
para lá dos suplícios e do medo,
tu continuas: matinalmente.
Eugénio de Andrade
Portugal (Castlo Branco) 1923-2005
in As palavras Interditas!
Até Amanhã
Editor: Assirio & Alvim
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Carta de apresentação
O SECRETO MILAGRE DA POESIA
Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.
Excerto
in Rosa do Mundo
18 de janeiro de 2015
13 de janeiro de 2015
Eugénio de Andrade: A Mão
A mão
que no fundo da noite chama,
num sopro mais ligeiro
que o desejo
ou o cheiro
do feno quente ainda
da última gota de água,
a mão
esquece a árvore onde fez ninho
e vai pousar
entre o frio dos joelhos
devagar.
Eugénio de Andrade
Portugal(Castelo Branco) 1923-2005
in Obscuro Domínio
Editor: Assirio &Alvim
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Helder Moura Pereira: Eu não sabia que…
Eu não sabia que sabia esta coisa já sabida:
contigo a vida, até o sexo, pode ser coisa divertida.
Sabia, afinal, ou não sabia, como qualquer personagem
do Livro das Façanhas, que mal abrisses
um pouco dos teus braços, eu iria, qual Ulisses,
atirar-me para dentro da tua imagem?
Agora esperei por ti décadas, séculos, todo um milénio
mas amanhã, se o dia se fragmentar como em mim,
tu já não serás o corpo que me deu oxigénio
e eu não voltarei a escrever um poema assim.
Helder Moura Pereira
Portugal 1949
in A tua cara não me é estranha – Assirio & Alvim
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Eugénio de Andrade: Até Amanhã

Sei agora como nasceu a alegria
como nasce o vento entre barcos de papel,
Como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima
É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado
amanhecer de pássaros no sangue
E subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos no horizonte
onde o mar é divino e sem palavras.
Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.
Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in As palavras interditas,
Até Amanhã
Editor: Assirio & Alvim
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in As palavras interditas,
Até Amanhã
Editor: Assirio & Alvim
Eugénio de Andrade: CONTIGO
Acordo na manhã de oiro
entre o teu rosto e o mar.
As mãos afagam a luz,
prolongam o dia breve.
Entre o teu rosto e o mar
ninguém deseja ser neve.
Ninguém deseja o veneno
da noite despovoada.
Acorda-me a tua voz,
nupcial, branca, delgada.
Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in As Palavras Interditas
Editor: Assirio & Alvim
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Oscar Dias Corrêa: LASCÍVIA
Quero tê-la nos braços delirante,
Nesse calor que à carne dá o desejo,
Quero-a impetuosa, lúbrica, ofegante,
Insatisfeita ao beijo, ansiando o beijo!
Que você seja só e toda a amante,
Nada mais, nada, sem Rubor nem pejo...
Confusa, estranha, pálida, um instante...
É assim que a quero, e penso, e sinto, e vejo!
E tudo se dará num só momento,
Que durará o nada, o tudo, o nada,
E será a luz, a flor, a força, o vento!
Fará do agora toda a eternidade,
Fará da eternidade todo o agora,
E de nós dois fará uma só vontade!
Oscar Dias Corrêa
Brasil (Itaúna, MG) 1921,
Rio Janeiro 2005
in Antologia de poetas brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Oscar Dias Corrêa: Há Sete Anos...
Dos sonhos, ilusões e desenganos
Que marcaram minh'alma sofredora
Em vinte e sete longos e árduos anos.
Da vida, por você, esqueci, de outrora,
Cruéis embates, ásperos, insanos;
Isto lhe devo, se em meu peito mora
Ventura, e vivo sem temor e enganos.
Que outros sete, pois, e mais sete, e ainda
Sete mais, outros, muitos. Deus convenha
Juntos lutemos esta dura lida.
Para que, um dia, a glória amada e infinda,
Feliz de proclamá-la e vê-la eu tenha,
Pastora minha amada toda a vida!
Oscar Dias Corrêa
Brasil (Itaúna, MG) 1921
Rio Janeiro 2005
in Antologia de poetas brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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12 de janeiro de 2015
Paulo Vanzolini: Valsa das três da manhã
Eu não bebo para esquecer,
bebo para lembrar.
Eu bebo e cambabeio e tenho você ao meu lado
é o meu instante de felicidade.
Vou andando na nebelina das ruas
conversando com você
cantigas da perdida felicidade.
Seu perfume bom se mistura
ao cheiro bom da madrugada
sua mão nem pesa no meu braço
mas seu contato é doce, doce
e o rumor do seu passo
é música, é música pura.
Só não vejo você
Mas não faz mal.
Sei que você está a meu lado
isso me basta
e vou andando na nebelina, feliz,
até cair.
Paulo Vanzolini
Brasil (São Paulo) 1924-2013
in Antologia de poetas brasileiros
Seleção: Mariazinhaa Congílio
Editora: Universitária Editora
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Alvarenga Peixoto: Jônia e Nise
Eu vi a linda Jônia e, namorado,
Fiz logo o voto eterno de querê-la;
Mas vi depois a Nise, e é tão bela,
Que merece igualmente o meu cuidado.
A qual escolherei, se, neste estado,
Eu não sei distinguir esta daquela?
Se Nise agora vir, morro por ela,
Se Jônia vir aqui, vivo abrasado.
Mas ah! que esta me despreza, amante,
Pois sabe que estou preso em outros braços,
E aquela me não quer, por inconstante.
Vem Cupido, solta-me destes laços:
Ou faze destes dois um só semblante,
Ou divide meu peito em dois pedaços!
Alvarenga Peixoto
Brasil (Rio Janeiro) 1742? 1744
Angola (Ambaca) 1792
in Cinco Séculos de Poesia, Antoloia de poetas brasileiros
Seleção: Frederico Barbosa
Editora: Landy Editora - Brasil
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Sônia Queiroz: Ensinamento
ensina-me a inocência
olhar o céu e dizer
céu
olhar a noite e dizer
noite
como no tempo da criação
ensina-me a procurar nas tardes
a grande bola de fogo
ensina-me a procurar nas noites
o traço fino da lua
o traço firme da lua.
Sônia Queiroz
Brasil (Belo Horizonte) 1953
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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11 de janeiro de 2015
César Leal: Soneto Acrobático I
Que a morte seja leve como a brisa
ou dança de relâmpagos nas águas,
corrida de um corcel apocalíptico
na bruma que circunda nossas mágoas.
Dissolva-me estes olhos o abandono
à sombra que me habita o peito em guerra
e guarda o coração longínquo sono
de flores de em semente inda na terra.
Que a morte exile a vida em mundo incerto:
- distância não medida em comprimento
que para o pensamento o longe é perto
para vós, para nós e tenras plantas
que dão perfume em flor e amor no fruto.
César Leal
Brasil (Saboeiro) 1924-2013
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Ana Luísa Amaral: O exacto curso do rio
Exactamente como foi, o medo de me enganar
mais tarde na memória - é tudo o que me resta: estar
de noite às escuras a pensar em ti
E se me lembro mal, se troco as vezes, naquela
quinta-feira o dia do amor em vez de ser
na quarta, o erro surge-me gigante,
um peso carregado como Atlas
Por isso é que preciso de lembrar coisas
exactas, como aconteceu tudo; não só
transpor depois na ficção recolhida, sou eu
que te preciso e dos teus dias
que me foram meus
Lembrar-me exactamente como foi, o que usei
nesse dia e o que usei no outro, até que horas
tudo, se havia gente ou não
e em que dia. Porque as palavras depois se
reconstroem
O que se disse então torna-se fácil.
Assim dito parece coisa pouca,
lugar comum e
fácil, mas as noites são grandes
e lembrar-te
exactamente,
de uma forma correcta
é-me tão importante
dentro das noites a pensar em ti
sabendo: não te vejo nunca mais.
mais tarde na memória - é tudo o que me resta: estar
de noite às escuras a pensar em ti
E se me lembro mal, se troco as vezes, naquela
quinta-feira o dia do amor em vez de ser
na quarta, o erro surge-me gigante,
um peso carregado como Atlas
Por isso é que preciso de lembrar coisas
exactas, como aconteceu tudo; não só
transpor depois na ficção recolhida, sou eu
que te preciso e dos teus dias
que me foram meus
Lembrar-me exactamente como foi, o que usei
nesse dia e o que usei no outro, até que horas
tudo, se havia gente ou não
e em que dia. Porque as palavras depois se
reconstroem
O que se disse então torna-se fácil.
Assim dito parece coisa pouca,
lugar comum e
fácil, mas as noites são grandes
e lembrar-te
exactamente,
de uma forma correcta
é-me tão importante
dentro das noites a pensar em ti
sabendo: não te vejo nunca mais.
Ana Luísa Amaral
Portugal (Lisboa) 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi
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Hilda Hilst: Do Amor XL
Aflição de ser eu e não ser outra,
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu , casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
( A noite como fera se avizinha ).
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.
Hilda Hil st
Brasil (Jaú, São Paulo) 1930-2004
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Cyro Pimentel: Eros Adolescente
Em teu corpo, grito de girassóis,
Rápidos cruzam-se animais celestes.
Atravessa-o um veloz tropel de Eros.
Inundando de cinzas o sangue cintilante.
Nascem no corpo devastado em voos
Abruptos
As vermelhas sombras inoculadas
Na infância - as pétalas
Soltas no ministério de vento fértil.
Nos seus delírios as donzelas
Sonham-se os potros da constelação!
E alucinadas pelo olhar-relâmpago
Da vida, disparam acoitadas pelo
Rebenque terrestre. Marcadas a cornos
De tango, agonizam sob um céu doente...
Cyro Pimrentel
Brasil(São Paulo) 1926-2008
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Rápidos cruzam-se animais celestes.
Atravessa-o um veloz tropel de Eros.
Inundando de cinzas o sangue cintilante.
Nascem no corpo devastado em voos
Abruptos
As vermelhas sombras inoculadas
Na infância - as pétalas
Soltas no ministério de vento fértil.
Nos seus delírios as donzelas
Sonham-se os potros da constelação!
E alucinadas pelo olhar-relâmpago
Da vida, disparam acoitadas pelo
Rebenque terrestre. Marcadas a cornos
De tango, agonizam sob um céu doente...
Cyro Pimrentel
Brasil(São Paulo) 1926-2008
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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10 de janeiro de 2015
Cyro Pimentel: Solenidade
Exorcizados, saem os leopardos da sombra
Do teu corpo.
Cavalos soltos nos prédios selvagens
Voam, submissos à neblina.
Trilham o jardim dos vocábulos,
E fugitivo sob a terra
Segue o rio interior,
Onde em margens de almas e fantasmas
Sobejam os sentidos.
Estrelas feridas pelos céus
As tristes palavras eternas;
E após lutas, lentas mortes, construo -
Alta! a ascendente verdade terrestre.
Afastam-se as feiticeiras do templo
E soberbo no altar de Orfeu tangível
Domino, com a solenidade dos deuses,
Teu corpo adormecido de meninas.
Cyro Pimentel
Brasil (São Paulo) 1926-2008
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Eugénio de Andrade: Apenas um Corpo
Respira. Um corpo horizontal,
tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula, infatigável.
Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
o peito e tremem,
pesadas de desejo.
Um rio interior aguarda.
Aguarda um relampago,
um rio de sol,
outro corpo.
Se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.
Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo do meu corpo desvelado.
Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in As Palavras Interditas,
Até Amanhã
Editor: Assirio & Alvim
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tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula, infatigável.
Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
o peito e tremem,
pesadas de desejo.
Um rio interior aguarda.
Aguarda um relampago,
um rio de sol,
outro corpo.
Se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.
Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo do meu corpo desvelado.
Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in As Palavras Interditas,
Até Amanhã
Editor: Assirio & Alvim
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Ana Marques Gastão: Amados na hora...

Amados na hora
passageira, curta
são os lugares,
sabores a mel
e tília e a casa
vago repouso
ou morte.
A ti, secreto amor,
devolvo o vento
e o gesto esquecido
na bruma das horas
Ana Marques Gastão
Portugal (Lisboa) 1962
in Nocturnos
Editor: Gótica
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Ana Marques Gastão: Não é o coração

Não é o coração
mas esta carne
em seu rumo.
Não é o coração
mas teu silêncio
de intenso furor
Não é o coração
mas as mãos
seu corpo, vazias
Na grave melodia
de um instante
tu e eu
em desiquílibrio
na infame
consistência
de um absoluto
obstáculo .
Ana Marques Gastão
Portugal (Lisboa) 1962
in Nocturnos
Editor: Gótica
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em seu rumo.
Não é o coração
mas teu silêncio
de intenso furor
Não é o coração
mas as mãos
seu corpo, vazias
Na grave melodia
de um instante
tu e eu
em desiquílibrio
na infame
consistência
de um absoluto
obstáculo .
Ana Marques Gastão
Portugal (Lisboa) 1962
in Nocturnos
Editor: Gótica
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Eugénio de Andrade: O Amor
Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.
A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.
A inudar-te de facas,
de saliva esperma lume.
Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.
A marcar sobre os teus flancos
o itinerário da espuma.
Assim é o amor: mortal e navegável.
Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in Obscuro Domínio
Editor: Assirio & Alvim
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30 de novembro de 2014
Eugénio de Andrade: Sobre as ervas
Respiras
como se pela garganta
deslizasse todo o azul de Espanha
a noite
a língua do vento
como se pela garganta
deslizasse todo o azul de Espanha
a noite
a língua do vento
sem outras mãos
outros olhos
para beber no escuro
para beber no escuro
Deita-te
sobre o meu peito
inclina
até ao chão
as frágeis
hastes da beleza.
sobre o meu peito
inclina
até ao chão
as frágeis
hastes da beleza.
As palavras
onde te escondes
onde te escondes
altas
passam
passam
passam as águas
dóceis
do verão
dóceis
do verão
É tempo
já as amoras sangram
é tempo ainda
já as amoras sangram
é tempo ainda
abre-me as portas do teu corpo
ó meu amor
ó meu amor
deixa-me entrar.
Já sobre ti
de aroma em aroma
os lábios todos
caem
de aroma em aroma
os lábios todos
caem
nupciais ou mortais os corpos
são para penetrar
lenta
oh
lentamente.
são para penetrar
lenta
oh
lentamente.
As mãos
sobre a nuca
delicadas.
sobre a nuca
delicadas.
Sobre as ervas
o leite
espesso do silêncio.
o leite
espesso do silêncio.
Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in Véspera de Água
Editor: Assirio & Alvim
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Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in Véspera de Água
Editor: Assirio & Alvim
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Ildásio Tavares: In Extremis
Quando eu morrer e reverter ao chão,
não profiram discursos nem louvores:
se acaso tive glória ou tive amores,
não sepultem o passado em meu caixão.
Não quero missa, prece ou oração;
nem sufoquem meu corpo sob flores;
não levem ao cemitério pranto ou dores,
quer seja de saudade ou de paixão.
Recitem versos, cantem melodia-
não fui senão poeta em minha vida,
girando dentro de mim qual caracol.
Terei mais luz no derradeiro dia
um cruel esplendor na despedida:
poesia enchendo o tumulo de sol.
Ildásio Tavares
Brasil (Gongogi) 1940
(Salvador) 2010
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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se acaso tive glória ou tive amores,
não sepultem o passado em meu caixão.
Não quero missa, prece ou oração;
nem sufoquem meu corpo sob flores;
não levem ao cemitério pranto ou dores,
quer seja de saudade ou de paixão.
Recitem versos, cantem melodia-
não fui senão poeta em minha vida,
girando dentro de mim qual caracol.
Terei mais luz no derradeiro dia
um cruel esplendor na despedida:
poesia enchendo o tumulo de sol.
Ildásio Tavares
Brasil (Gongogi) 1940
(Salvador) 2010
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Aluysio Mendonça Sampaio: O Relógio
No silêncio da noite insone
o relógio é o coração do tempo
pulsando.
Som metálico incessante,
do átimo que passa,
eis a cadência marcial
para o nada.
Belo é o fluir da vida
o desabrochar da flor
pletora de luz
ao despontar de sóis.
No ventre da vida
germina a morte
saliente, constante
lâmina cortante do tempo.
Pudéssemos parar o coração das eras!
O nosso instante - eterno.
O nosso amor - perene.
Ah! Maldito relógio
consciência do efémero
por que não cessas de bater
o ritmo monótono monocorde
do minuto que passa?
Deixe-me ficar no instante
- minha eternidade.
Aluysio Mendonça Sampaio
Brasil (Sergipe) 1926
São Paulo 2008
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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Leonor Scliar-Cabral: Iemandite
Emerge em névoa e balança os seios
e sobre a espuma a flotar em flocos
repete múrmura ao seu amante:
Vem, meu amado.
conduz-me firme, a cintura e cinge,
mistura o sémen ao sal e às algas
e ao vai-e-vem em transporte singra,
mar que me afoga
Morrer eu quero, morrer de amor,
fluctivagando corcéis fogosos,
colhendo salvas recém jogadas
como oferenda
por quem da praia lançou-me rosas.
O espinho sangra e os deuses choram.
Serão eternas tão breves as ondas
e o seu marulho.
Leonor Scliar-Cabral
Brasil (Porto Alegre) 1929
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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e sobre a espuma a flotar em flocos
repete múrmura ao seu amante:
Vem, meu amado.
conduz-me firme, a cintura e cinge,
mistura o sémen ao sal e às algas
e ao vai-e-vem em transporte singra,
mar que me afoga
Morrer eu quero, morrer de amor,
fluctivagando corcéis fogosos,
colhendo salvas recém jogadas
como oferenda
por quem da praia lançou-me rosas.
O espinho sangra e os deuses choram.
Serão eternas tão breves as ondas
e o seu marulho.
Leonor Scliar-Cabral
Brasil (Porto Alegre) 1929
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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22 de novembro de 2014
Ildásio Tavares: Soneto Pastoral
Estas rugas que vejo no teu rosto
cicatrizes do tempo e da esperança
são saudades marcadas na criança,
sol nascente tornando-se sol posto.
Este tempo que em rugas escreveu
uma história de lágrimas e de riso,
purgatório que faz-se paraíso;
uma vida que nunca arrefeceu.
Este rosto sereno que me fita
tão distante dos sonhos do passado
é um espelho partido e remendado,
retalhos de prazer e de desdita!
Estas rugas, teu rosto, cicatrizes
são mágoas que desaguam sem raízes.
Ildásio Tavares
Brasil (Gongogi, Bahia) 1940
Salvador 2010
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congilío
Editor: Universitária Editora
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cicatrizes do tempo e da esperança
são saudades marcadas na criança,
sol nascente tornando-se sol posto.
Este tempo que em rugas escreveu
uma história de lágrimas e de riso,
purgatório que faz-se paraíso;
uma vida que nunca arrefeceu.
Este rosto sereno que me fita
tão distante dos sonhos do passado
é um espelho partido e remendado,
retalhos de prazer e de desdita!
Estas rugas, teu rosto, cicatrizes
são mágoas que desaguam sem raízes.
Ildásio Tavares
Brasil (Gongogi, Bahia) 1940
Salvador 2010
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congilío
Editor: Universitária Editora
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21 de setembro de 2014
Aluysio Mendonça Sampaio: Esperança

de tanto pisar os caminhos do mundo
os meus pés estão sangrando
e o meu coração ferido
como o chão gretado
olhos fitos na distância
avanço
rumo à fímbria do horizonte
de meus lábios brota um canto
como uma flor
nascida no agreste de meu peito
meu coração está ferido
e contudo puro e livre
como o canto que brota de meus lábios
ou o orvalho antes de tocar a terra
Aluysio Mendonça Sampaio
Brasil (Sergipe 1926;
São Paulo 2008
in Antologia de Poetas Brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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