Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

21 de março de 2015

Fernando Pessoa: O amor que me têm...



“ O amor que me têm
                      ela disse,

 “ Não tem paixão, que consuma;
ciúme que desvaire; esquecimento, que deslustre.

     Amar-me é como uma noite de verão,
     quando os mendigos dormem ao relento,
     e parecem pedras à beira dos caminhos.

Dos meus lábios mudos não vem o canto das sereias,
nem melodia como a das árvores e das fontes;
mas o meu silêncio acolhe como uma música indecisa,
o meu sossego afaga como o torpor de uma brisa.



Fernando Pessoa
Portugal» Lisboa 1888-1935
in Livro do desassossego de
Bernardo Soares
Editor: Assirio & Alvim
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17 de março de 2015

Maria Angela Almeida: Toma o teu tempo


♫ ♪ ♫ Toma o teu tempo ♫ ♪ 

Toma o teu tempo e vem... vem junto a mim. Senta-te a meu lado numa conversa sem palavras. Deixa que o olhar fale por nós, e desvende um mundo de segredos há tanto guardados. Encosta a mão no peito e sente... sente o pulsar da vida no coração, o sentimento fluíndo à flor da pele, vibrante, escaldante, na ansiedade de saciar o tacto. Quando o dia adormecer e a noite despertar, ama a minha alma, doce... docemente, e toca suave... suavemente, a solidão que existe 
em mim!
Quando me disseres “adeus”, leva-me contigo, no odor exalado, no pudor demonstrado, 
e não te esqueças, por favor... guarda a minha solidão, que eu guardarei o teu calor... 
no sangue que me corre nas veias, na doçura de um suspiro, no pensamento distante 
revivendo o momento de uma conversa sem palavras.
E, se um dia quiseres voltar, então terei que te entregar... todo o calor que guardei, 
todos os sonhos que imaginei e as palavras que não falei. Mas, toma o teu tempo e 
vem... vem junto a mim. Senta-te a meu lado e deixa-te ficar... e que a minha solidão 
não volte, para me abraçar!


Maria Angela Almeida
Portugal » Setubal 1959

14 de março de 2015

Manuel Alegre: Nos teus olhos anda o mar



Nos teus olhos alguém anda no mar
alguém se afoga e grita por socorro
e és tu que vais ao fundo devagar
enquanto sobre ti eu quase morro.

E de repente voltas do abismo
e nos teus olhos há um choro riso
teu corpo agora é lava e fogo e sismo
de certo modo já não sou preciso.

Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.

Das tuas coxas pode ver-se a Lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua.


Manuel Alegre
Portugal (Águeda) 1936
in Obra Poética
Editor: Publicações D. Quixote
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Fernando Assis Pacheco: A bela do bairro


Ela era muito bonita e benza-a Deus
muito puta que era sempre à espera
dos pagantes à janela do rés-do-chão
mas eu teso e pior que isso néscio desses 

amores tenho o quê? Quinze anos
tenho o quê uns olhos que a vejo
que se debruçava mostrando os peitos
que amei como se ama unicamente
uma vez um colo branco e até jóias
que ela punha eram luzentes semelhando estrelas
eu bato o passeio à hora certa e amo-a
de cabelo solto e tudo não parece
senão o céu afinal um pechisbeque

ainda agora as minhas narinas fremem
turva-se o coração desmantelado
amando-a amei-a tanto e sem vergonha
oh pecar assim de jaquetão sport e um cigarro
nos queixos a admiração que eu fazia
entre a malta não é para esquecer nem lá ao fundo
como então puxo as abas da farpela
lentamente caminho para ela
a chuva cai miúda
e benza-a Deus que bonita e que puta
e que desvelos a gente
gastava em frente do amor


Fernando Assis Pacheco
Portugal (Coimbra) 1937-1995
in Poemas de Amor
Antologia de Poesia Portuguesa
Org: Inês Pedrosa
Publicações D. Quixote
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22 de fevereiro de 2015

Eugénio de Andrade: Escrito na terra


Da migração dos pássaros falaremos devagar
noutra ocasião

da cal espessa entornada na boca
dos poços
onde o silêncio apodrece.


Há uma razão para não rejeitarmos
tão cruel metáfora do sémen


descobrimos
nas altíssimas e lúcidas bagas de setembro
uma sabedoria próxima ainda das nascentes.


Era isto
onde uma só pedra queima os dedos.


Se queres um exemplo
pega neste mar estranho
olha-te nele
mas não te demores a contemplar
a branca quietude das violetas.


Vamos
         é noite agora é tempo
enquanto meus lábios brilham
de alguém morrer sobre o teu corpo.



Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in Véspera da Água
Editor: Assirio & Alvim
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21 de fevereiro de 2015

Francisco Brines: A Despedida da luz



Desce, luz, a meus olhos
descansa teu cansaço
neles tão fatigados,
alivia-me e acaba-te
no amor do homem.
Antes que se dilate
a sombra dessa noite
em que tens que morrer
e eu tenho de morrer,
levanta-me teu lenço
que, por trás das montanhas,
é um fogo de rosas,
Vem dizer-me que a vida
foi dia longo e fiel,
que de meu amor soube,
e amarei este cansaço.






Francisco Brines
Espanha (Oliva, Valência) 1932
in A Última Costa
Editor: Assirio & Alvim
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William Carlos Williams: Chegada

E, todavia, chegas
dás por ti a desatar-lhe
o vestido
em alheios aposentos -
sentes que o outono
deixa cair as suas folhas de seda e linho
junto aos seus tornozelos.
Falso e o brilho do corpo que emerge
e se contorce
como vento no inverno...!

William Carlos Williams
USA (Retheford, New Jersey) 1883-1963
in Antologia Breve
Editor: Assirio & Alvim
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18 de fevereiro de 2015

Victor Hugo: Aparição





Vi um anjo branco que sobre mim passava;
O seu voo luminoso a tormenta acalmava,
E fazia calar ao longe o mar ruidoso.
- Que vens fazer, anjo, neste lugar tenebroso?
Respondeu: - A tua alma eu venho buscar.
Tive medo porque ouvi uma mulher a falar;
E disse-lhe, estendendo os braços a tremer:
- Que me restará? pois tu vais desaparecer.
Calou-se; o céu onde a sombra leva a palma
Escurecia... Disse: Se levares a minha alma,
Aonde a levarás? mostra-me pra que lugar.
Continuava calado. - Ó viajante do celeste lar,
Serás tu a morte? perguntei, ou és a vida?
Senti sobre a minha alma a noite estendida,
E o anjo tornou-se negro, dizendo: Sou o amor.
A fronte era mais clara que o dia em seu esplendor,
E eu via, na sombra onde luzia o seu!  olhar,
Os astros, através das asas, a brilhar.



Victor Hugo
França (Besançon) 1802-1886
in Poemas
Editor: Assirio & Alvim
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17 de fevereiro de 2015

William Carlos Williams: Soneto em busca de um amor


Os corpos nus como troncos sem casca
exalam às vezes um odor tão
doce, homem e mulher

debaixo das árvores loucamente
em harmonia com o tapete de

aromáticas folhas de pinheiro
bordadas com videira virgem
disso poderia fazer-se um soneto

Disso poderia fazer-se um soneto! louco odor
odor de agulhas de pinheiro, odor de
troncos sem casca somente odor
de videira virgem que

não tem odor, odor de mulher nua,
por vezes odor de homem.




William Carlos Williams
USA (Retheford, New Jersey) 1883-1963
in Antologia Breve
Editor: Assirio & Alvim
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Ana Luísa Amaral: Lua de papel






























Se eu cantasse o amor sem resultado ou causa,
seria mais sensata: chegava-me uma lua de papel,
um par de braços lisos, conformados

Se eu cantasse o amor sem causa ou resultado,
tinha muito mais paz: fingida em luas-cheias,
seria mais sensata e decerto poeta bem melhor

Assim o que me resta é lua a trans-
bordar de tridimensional. A paz a falhar toda
e eu resolvida em causa insistir papel. E amor.


Ana Luísa Amaral
Portugal (Lisboa) 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi
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Ana Luísa Amaral: Titulo por haver


No meu poema ficaste
de pernas para
o ar
(mas também eu
já estive tantas vezes)

Por entre versos vejo-te as mãos
no chão
do meu poema
e os pés tocando o título
(a haver quando eu
quiser)

Enquanto o meu desejo assim serás:
incómodo estatuto;
preciso de escrever-te
do avesso
para te amar em excesso



Ana Luísa Amaral
Portugal (Lisboa) 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi
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15 de fevereiro de 2015

Eugénio de Andrade: Sobre a cintura

Deixa a mão
caminhar
perder o alento


até onde se não respira.

Deixa a mão
errar
sobre a cintura
apenas conivente
com o nácar da língua.


Só um grito desde o châo
pode fulminá-la.


A morte
não é um segredo
não é em nós jardim de areia.


De noite
no silêncio baço dos espelhos
um homem
pode trazer a morte pela mão.


Vou ensinar-te como se reconhece

repara

é ainda um rapaz
não acaba de crescer


nos ombros
                  a luz
desatada


a fulva
lucicez dos flancos.


A boca sobre a boca nevava.



Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in Véspera da Água
Editor: Assirio & Alvim
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Ana Luísa Amaral: KAMASUTRAS



Atira a roupa toda
para o chão.
Depressa. Sem momento sedutor
nenhum

As peças aos bocados,
desmaiadas,
caídas pelo chão.
Do mais pesado ao mais quase
infinito de leveza

E deixa a luz
acesa. Sem sedução
nenhuma. Uma luz pelo menos



Ana Luísa Amaral
Portugal (Lisboa) 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi
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Ana Luísa Amaral: Madrigal em madrugada




A exaustão
das cinco da manhã
e a noite em claro

Gravo o poema,
que o peso da caneta
e eu nem Atlas

Os olhos fecharem-se
mais fortes
que o desejo
                 (vontade de rimar
                  nestes espaços) 

                 [Se agora tu viesses
                  dar-me um beijo
                  com certeza adormecia
                  nos teus braços]


             
Ana Luísa Amaral
Portugal > Lisboa 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi
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8 de fevereiro de 2015

Filipe Marinheiro: ponho-me a amar dolorosamente...

ponho-me a amar dolorosamente
que nunca amei ou amarei
coisas secretas coisas que gemem endoidecidas nesta escrita
que navega para se manter acordada e ao mesmo tempo ausente
dos solenes gestos perdidos na cumplicidade das noites
sem luzes por se apagarem ou se acenderem

aves possuem as visões vivas da ardente paixão
e de repente cheio de suor danço com os dedos em cima da cara
rachando o vertical sangue a cuspe gelatinoso e espalho o veneno
das outras pessoas sobre a ideia sem um fim em si

depois cravo o meu corpo como quem molda um embrulho
de máscaras a enforcarem-se

mas subo radioso pelo peso da alma abaixo contorcendo-se
e ao cair para o inquietante ruído dos pés a atravessar as costelas
uma a uma cruzando-se

por dentro ato as vértebras que se rasgam lindamente
até sacudirem as cordas vocais

aí desprendo os dias dos seus filamentos de açúcar aonde pouso
a cabeça entre os teus peitos e desperto esta triste poesia
que tanto me aprisiona e ama


Filipe Marinheiro
Portugal > Coimbra 1982
in Noutros Rostos
Editor: Chiado Editora
Foto do autor

Filipe Marinheiro: despertei a falar-te dessa escassa palavra que é o amor





















despertei a falar-te dessa escassa palavra que é o amor
girava nas tuas veias em assobio luminoso

tu cantavas no vermelho de minha garganta orvalhada
como um amanhecer dos beijos sobre as rosas do nosso peito
maravilhado por novas palavras com furor a despertarem

os pássaros que nos apertavam baixinhos nas suas asas de música
contra todas as coisas de um mar a enrodilhar a leveza que a todo
o momento nos sorve e onde aquele fresco amor se concentra
despertava


Filipe Marinheiro
Portugal > Coimbra 1982
in Noutros Rostos
Editor: Chiado Editora
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24 de janeiro de 2015

Ana Luísa Amaral: Coisas de luz antigas

Aquele namorado que tinha
um nome bom: há quanto tempo foi?
A vida resvalante como gelo
e aquele namorado de nome bom
e férias, ficou perdido em luz,
mais de vinte anos.


Deu-me uma vez a mão
um beijo resvalante à hora de deitar
e na pensão. Mas tinha um nome bom.
falava de cinema e calçava de azul
e um bigode curtinho,
que escorregou aceso como gelo
no centro da pensão.

Rasguei as cartas dele
há quinze anos, em dia de gavetas
e de luz, e nem fotografia me ficou
de desarrumação. Mas tinha um nome bom,
falava de cinema e calçava de azul
e resvalou-me quente como gelo
à hora de deitar:


um namorado sem falar
de amor
(que a timidez maior
e o quarto dos meus pais
nessa pensão
no mesmo corredor)



Ana Luísa Amaral
Portugal (Lisboa) 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi

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18 de janeiro de 2015

Ana Luísa Amaral: Que pode ser portátil (e trágico) o amor



Um romance de amor por esta noite
em lua nevoenta ― e uma máquina velha
de escrever. Ingénua e tão portátil,
de imensa melodia desigual.

Ah, o prazer do verso em movimento
lento, o til beijando em fogo a mancha
do papel que se arrepia ao longo
de mil gralhas. O sentimento mútuo

e vagaroso: o «um» feito com ele,
o «zero» a servir de ó, a letra que não sai,
desesperada, por culpa de algum pó,
que se intromete, negro de ciúme.

Agora, o xis em cima de palavra
moribunda de amor. Morreu. Qual trágica
Desdémona, morreu. Uma morte pujante
de sereia, com tinta longa e cheia,




e não desaparecendo-se vilmente
(Ofélia evanescente). Ah, o prazer
de linha de permeio, descalça,
toda nua, em premente desvio. O frio
que ela aqui faz, fingindo-se de frio
― na letra em desalinho ― o travessão
falhado no caminho, mas em perfeito lume.
E o regresso ao ciúme mais sublime:

voltar atrás na linha e repetir
o crime: acento muito grave e de
perfume que se tinha esquecido de nascer:
aparição agudamente bela.



Ana Luísa Amaral
Portugal (Lisboa) 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi
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Eugénio de Andrade: SERENATA

Venho ao teu encontro a procurar,
bondade, um céu de camponeses,
altas árvores onde o sol e a chuva
adormecem na mesma folha,

Não posso amar-te mais,
luz madura, espaço aberto.
Não posso dar-te mais do que te dou:
sangue, insónias, telegramas, dedos.

Aqui estou, fronte pura, rodeado
de sombra, de soluços,  de perguntas.
Aceita esta ternura surda,
este jasmim aprisionado.

Nos meus lábios, melhor: no fogo,
talvez no pão, talvez na água,
para lá dos suplícios e do medo,
tu continuas: matinalmente.


Eugénio de Andrade
Portugal (Castlo Branco) 1923-2005
in As palavras Interditas!
            Até Amanhã
Editor: Assirio & Alvim
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13 de janeiro de 2015

Eugénio de Andrade: A Mão



A mão
que no fundo da noite chama,

num sopro mais ligeiro
que o desejo

ou o cheiro
do feno quente ainda
da última gota de água,

a mão
esquece a árvore onde fez ninho

e vai pousar
entre o frio dos joelhos

devagar.





Eugénio de Andrade
Portugal(Castelo Branco) 1923-2005
in Obscuro Domínio
Editor: Assirio &Alvim
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Helder Moura Pereira: Eu não sabia que…

























Eu não sabia que sabia esta coisa já sabida:
contigo a vida, até o sexo, pode ser coisa divertida.
Sabia, afinal, ou não sabia, como qualquer personagem

do Livro das Façanhas, que mal abrisses
um pouco dos teus braços, eu iria, qual Ulisses,
atirar-me para dentro da tua imagem?

Agora esperei por ti décadas, séculos, todo um milénio
mas amanhã, se o dia se fragmentar como em mim,
tu já não serás o corpo que me deu oxigénio
e eu não voltarei a escrever um poema assim.


Helder Moura Pereira
Portugal 1949
in A tua cara não me é estranha – Assirio & Alvim
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Eugénio de Andrade: Até Amanhã




























Sei agora como nasceu a alegria
como nasce o vento entre barcos de papel,
Como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima

É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado
amanhecer de pássaros no sangue

E subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos no horizonte
onde o mar é divino e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.


Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in As palavras interditas,
            Até Amanhã
Editor: Assirio & Alvim

Eugénio de Andrade: CONTIGO



Acordo na manhã de oiro
entre o teu rosto e o mar.

As mãos afagam a luz,
prolongam o dia breve.

Entre o teu rosto e o mar
ninguém deseja ser neve.

Ninguém deseja o veneno
da noite despovoada.

Acorda-me a tua voz,
nupcial, branca, delgada.







Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in As Palavras Interditas
Editor: Assirio & Alvim
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Oscar Dias Corrêa: LASCÍVIA



Quero tê-la nos braços delirante,
Nesse calor que à carne dá o desejo,
Quero-a impetuosa, lúbrica, ofegante,
Insatisfeita ao beijo, ansiando o beijo!

Que você seja só e toda a amante,
Nada mais, nada, sem Rubor nem pejo...
Confusa, estranha, pálida, um instante...
É assim que a quero, e penso, e sinto, e vejo!

E tudo se dará num só momento,
Que durará o nada, o tudo, o nada,
E será a luz, a flor, a força, o vento!

Fará do agora toda a eternidade,
Fará da eternidade todo o agora,
E de nós dois fará uma só vontade!





Oscar Dias Corrêa
Brasil (Itaúna, MG) 1921,
              Rio Janeiro 2005             
in Antologia de poetas brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor:  Universitária Editora
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Oscar Dias Corrêa: Há Sete Anos...


Há sete anos é você pastora
Dos sonhos, ilusões e desenganos
Que marcaram minh'alma sofredora
Em vinte e sete longos e árduos anos.

Da vida, por você, esqueci, de outrora,
Cruéis embates, ásperos, insanos;
Isto lhe devo, se em meu peito mora
Ventura, e vivo sem temor e enganos.

Que outros sete, pois, e mais sete, e ainda
Sete mais, outros, muitos. Deus convenha
Juntos lutemos esta dura lida.

Para que, um dia, a glória amada e infinda,
Feliz de proclamá-la e vê-la eu tenha,
Pastora minha amada toda a vida!






Oscar Dias Corrêa
Brasil (Itaúna, MG) 1921
               Rio Janeiro 2005
in Antologia de poetas brasileiros
Seleção: Mariazinha Congílio
Editor: Universitária Editora
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