Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

22 de março de 2015

Maria Teresa Horta: Oferecia o corpo…





Oferecia o corpo com a mesma suavidade. As pernas
esguias ou o ventre, tal como os seios e os ombros,
tinham um contorno adolescente onde ela domava o
vício, onde ela soltava, às vezes, o vício, com um
torpor ou com uma liberdade total, uma necessidade
extrema. E o gemido enchia a casa depois de sair
mordido da sua boca.

Excerto


Maria Teresa Horta
Portugal (Lisboa) 1937
in Ambas as mãos sobre o corpo
Editor: Publicações D. Quixote
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Fernando Echevarría: Amor à vista



Entras como um punhal
até à minha vida.
Rasgas de estrelas e de sal
a carne da ferida.

Instala-te nas minas.
Dinamita e devora.
Porque quem assassinas
é um monstro de lágrimas que adora.

Dá-me um beijo ou a morte.
Anda. Avança.
Deixa lá a esperança
para quem a suporte.

Mas o mar e os montes...
isso, sim.
Não te amedrontes.
Atira-os sobre mim.


Atira-os de espada.
Porque ficas vencida
ou desta minha vida
não fica nada.

Mar e montes teus beijos, meu amor,
sobre os meus férreos dentes.
Mar e montes esperados com terror
de que te ausentes.

Mar e montes teus beijos, meu amor!... 




Fernando Echevarría
Espanha (Santander) 1929 – Poeta português
in Poemas de Amor
Antologia de Poesia Portuguesa
Org: Inês Pedrosa
Editor: Publicações D. Quixote
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Pedro Tamen: Não sei amor…

Não sei, amor, sequer, se te consinto
ou se te inventas, brilhas, adormeces
nas palavras sem carne em que te minto
a verdade intemida em que me esqueces.
Não sei, amor, se as lavas do vulcão
nos lavam, veras, ou se trocam tintas
dos olhos ao cabelo ou coração
de tudo e de ti mesma. Não que sintas
outra coisa de mais que nos feneça;
mas só não sei, amor, se tu não sabes
que sei de certo a malha que nos teça,
o vento que nos leves ou nos traves,
a mão que te nos dê ou te nos peça,
o princípio de sol que nos acabes.


Pedro Tamen
Portugal (Lisboa) 1934
in Tábua das matérias
Editor: Tertulia
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David Mourão-Ferreira: Os teus olhos

Os teus olhos
exigindo
ser bebidos

Os teus ombros
reclamando
nenhum manto

Os teus seios
pressupondo
tantos pomos

O teu ventre
recolhendo
o relâmpago


David Mourão-Ferreira
Portugal » Lisboa1927-1996
in Antologia Poética
Editor: Editorial Presença
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Maria Teresa Horta: Apertei mais a tua mão



Apertei mais a tua mão presa na minha e
senti-te subitamente longe. Dobrei mais ainda
os dedos sobre os teus quase fincando as unhas,
sentindo a pele quente, os dedos compridos,
firmes, toda a tua mão como que todo o teu
corpo. A saudade, a distância do teu corpo, a
distância da tua mão ali na minha.

(…)


Maria Teresa Horta
Portugal (Lisboa) 1937
in Ambas as mãos sobre o corpo
Editor: Publicações D. Quixote
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Gomes Leal: Autópsia do Amor




O Amor - essa paixão romanesca e fagueira -
que os vates têm cantado em bemol comovido,
é, na forma, uma coisa assaz brusca e grosseira,
como o assalto da fera e o ataque do bandido.

Tal e qual como o lobo ataca uma cordeira,
a empolga e lhe crava o colmilho atrevido,
assim ataca o Amor. - São da mesma maneira
o Espasmo, a Fúria, o Uivo, o Estertor, o Rugido.

Nas contorções do Cio e os seus enlaçamentos,
há o ardor da Serpente, a enroscar-se nas preias,
e a estrangular o touro enorme e mugidor.

E quer cheire ao sertão, ou da Lais aos ungentos,
Nos rosais, num covil, ou de Nero nas ceias,
- são sempre os mesmos ais, o Pranto, o Espasmo, a Dor.




Gomes Leal
Portugal 1848-1921
in Poemas de Amor
Org: Inês Pedrosa
Editor: Publicações D. Quixote
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Victor Hugo: O Sultão Achemet

A Joana, a Granadina,
Sempre cantante e ladina,
Disse o sultão com ardor:
― Eu daria sem favor
O meu reino por Medina
Medina por teu amor.

Faz-te cristão, rei sublime!
Pois não é bom que se afirme
O prazer ter encontrado
Nos braços de um debochado.
Não quero fazer um crime:
Já me basta um pecado.

Com as pérolas cuja graça,
Minha rainha, realça
Do teu colo o branquear,
Eu farei por te agradar,
Se quiseres que eu faça
Rosário do teu colar.    




Victor Hugo
França (Besançon) 1802-1885
in Poemas
Editor Assirio & Alvim

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21 de março de 2015

Fernando Pessoa: Bébé, vem cá; vem para o pé do Nininho




















Bébé, vem cá; vem para o pé do Nininho;
Vem para os braços do Nininho;
põe a tua boquinha contra a boca do Nininho…
Vem… estou tão só, tão só de beijinhos…

Quem me dera ter a certeza de tu teres saudades
de mim a valer.
Ao menos isso era uma consolação… Mas tu, se
calhar, pensas menos em mim que no rapaz do gargarejo,
e no D.A.F. e no guarda livros da C.D. & c.!
Má, má, má, má, má…!!!
    Açoites é que tu precisas.
Adeus: vou-me deitar dentro de um balde de cabeça para
baixo para descansar o espírito. Assim fazem todos os
grandes homens – pelo menos quando têm – 1º espirito,
2º cabeça, 3º balde onde meter a cabeça.

Um beijo só durando todo o tempo que o mundo ainda
tem que durar, do teu, sempre e muito teu
                  Fernando (Nininho)


Fernando Pessoa
Portugal » Lisboa 1888-1935
in Cartas de Amor de Fernando Pessoa
a Ophelia Queiróz
Editor: Portugália Editora

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Fernando Pessoa: O amor que me têm...



“ O amor que me têm
                      ela disse,

 “ Não tem paixão, que consuma;
ciúme que desvaire; esquecimento, que deslustre.

     Amar-me é como uma noite de verão,
     quando os mendigos dormem ao relento,
     e parecem pedras à beira dos caminhos.

Dos meus lábios mudos não vem o canto das sereias,
nem melodia como a das árvores e das fontes;
mas o meu silêncio acolhe como uma música indecisa,
o meu sossego afaga como o torpor de uma brisa.



Fernando Pessoa
Portugal» Lisboa 1888-1935
in Livro do desassossego de
Bernardo Soares
Editor: Assirio & Alvim
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17 de março de 2015

Maria Angela Almeida: Toma o teu tempo


♫ ♪ ♫ Toma o teu tempo ♫ ♪ 

Toma o teu tempo e vem... vem junto a mim. Senta-te a meu lado numa conversa sem palavras. Deixa que o olhar fale por nós, e desvende um mundo de segredos há tanto guardados. Encosta a mão no peito e sente... sente o pulsar da vida no coração, o sentimento fluíndo à flor da pele, vibrante, escaldante, na ansiedade de saciar o tacto. Quando o dia adormecer e a noite despertar, ama a minha alma, doce... docemente, e toca suave... suavemente, a solidão que existe 
em mim!
Quando me disseres “adeus”, leva-me contigo, no odor exalado, no pudor demonstrado, 
e não te esqueças, por favor... guarda a minha solidão, que eu guardarei o teu calor... 
no sangue que me corre nas veias, na doçura de um suspiro, no pensamento distante 
revivendo o momento de uma conversa sem palavras.
E, se um dia quiseres voltar, então terei que te entregar... todo o calor que guardei, 
todos os sonhos que imaginei e as palavras que não falei. Mas, toma o teu tempo e 
vem... vem junto a mim. Senta-te a meu lado e deixa-te ficar... e que a minha solidão 
não volte, para me abraçar!


Maria Angela Almeida
Portugal » Setubal 1959

14 de março de 2015

Manuel Alegre: Nos teus olhos anda o mar



Nos teus olhos alguém anda no mar
alguém se afoga e grita por socorro
e és tu que vais ao fundo devagar
enquanto sobre ti eu quase morro.

E de repente voltas do abismo
e nos teus olhos há um choro riso
teu corpo agora é lava e fogo e sismo
de certo modo já não sou preciso.

Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.

Das tuas coxas pode ver-se a Lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua.


Manuel Alegre
Portugal (Águeda) 1936
in Obra Poética
Editor: Publicações D. Quixote
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Fernando Assis Pacheco: A bela do bairro


Ela era muito bonita e benza-a Deus
muito puta que era sempre à espera
dos pagantes à janela do rés-do-chão
mas eu teso e pior que isso néscio desses 

amores tenho o quê? Quinze anos
tenho o quê uns olhos que a vejo
que se debruçava mostrando os peitos
que amei como se ama unicamente
uma vez um colo branco e até jóias
que ela punha eram luzentes semelhando estrelas
eu bato o passeio à hora certa e amo-a
de cabelo solto e tudo não parece
senão o céu afinal um pechisbeque

ainda agora as minhas narinas fremem
turva-se o coração desmantelado
amando-a amei-a tanto e sem vergonha
oh pecar assim de jaquetão sport e um cigarro
nos queixos a admiração que eu fazia
entre a malta não é para esquecer nem lá ao fundo
como então puxo as abas da farpela
lentamente caminho para ela
a chuva cai miúda
e benza-a Deus que bonita e que puta
e que desvelos a gente
gastava em frente do amor


Fernando Assis Pacheco
Portugal (Coimbra) 1937-1995
in Poemas de Amor
Antologia de Poesia Portuguesa
Org: Inês Pedrosa
Publicações D. Quixote
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22 de fevereiro de 2015

Eugénio de Andrade: Escrito na terra


Da migração dos pássaros falaremos devagar
noutra ocasião

da cal espessa entornada na boca
dos poços
onde o silêncio apodrece.


Há uma razão para não rejeitarmos
tão cruel metáfora do sémen


descobrimos
nas altíssimas e lúcidas bagas de setembro
uma sabedoria próxima ainda das nascentes.


Era isto
onde uma só pedra queima os dedos.


Se queres um exemplo
pega neste mar estranho
olha-te nele
mas não te demores a contemplar
a branca quietude das violetas.


Vamos
         é noite agora é tempo
enquanto meus lábios brilham
de alguém morrer sobre o teu corpo.



Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in Véspera da Água
Editor: Assirio & Alvim
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21 de fevereiro de 2015

Francisco Brines: A Despedida da luz



Desce, luz, a meus olhos
descansa teu cansaço
neles tão fatigados,
alivia-me e acaba-te
no amor do homem.
Antes que se dilate
a sombra dessa noite
em que tens que morrer
e eu tenho de morrer,
levanta-me teu lenço
que, por trás das montanhas,
é um fogo de rosas,
Vem dizer-me que a vida
foi dia longo e fiel,
que de meu amor soube,
e amarei este cansaço.






Francisco Brines
Espanha (Oliva, Valência) 1932
in A Última Costa
Editor: Assirio & Alvim
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William Carlos Williams: Chegada

E, todavia, chegas
dás por ti a desatar-lhe
o vestido
em alheios aposentos -
sentes que o outono
deixa cair as suas folhas de seda e linho
junto aos seus tornozelos.
Falso e o brilho do corpo que emerge
e se contorce
como vento no inverno...!

William Carlos Williams
USA (Retheford, New Jersey) 1883-1963
in Antologia Breve
Editor: Assirio & Alvim
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18 de fevereiro de 2015

Victor Hugo: Aparição





Vi um anjo branco que sobre mim passava;
O seu voo luminoso a tormenta acalmava,
E fazia calar ao longe o mar ruidoso.
- Que vens fazer, anjo, neste lugar tenebroso?
Respondeu: - A tua alma eu venho buscar.
Tive medo porque ouvi uma mulher a falar;
E disse-lhe, estendendo os braços a tremer:
- Que me restará? pois tu vais desaparecer.
Calou-se; o céu onde a sombra leva a palma
Escurecia... Disse: Se levares a minha alma,
Aonde a levarás? mostra-me pra que lugar.
Continuava calado. - Ó viajante do celeste lar,
Serás tu a morte? perguntei, ou és a vida?
Senti sobre a minha alma a noite estendida,
E o anjo tornou-se negro, dizendo: Sou o amor.
A fronte era mais clara que o dia em seu esplendor,
E eu via, na sombra onde luzia o seu!  olhar,
Os astros, através das asas, a brilhar.



Victor Hugo
França (Besançon) 1802-1886
in Poemas
Editor: Assirio & Alvim
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17 de fevereiro de 2015

William Carlos Williams: Soneto em busca de um amor


Os corpos nus como troncos sem casca
exalam às vezes um odor tão
doce, homem e mulher

debaixo das árvores loucamente
em harmonia com o tapete de

aromáticas folhas de pinheiro
bordadas com videira virgem
disso poderia fazer-se um soneto

Disso poderia fazer-se um soneto! louco odor
odor de agulhas de pinheiro, odor de
troncos sem casca somente odor
de videira virgem que

não tem odor, odor de mulher nua,
por vezes odor de homem.




William Carlos Williams
USA (Retheford, New Jersey) 1883-1963
in Antologia Breve
Editor: Assirio & Alvim
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Ana Luísa Amaral: Lua de papel






























Se eu cantasse o amor sem resultado ou causa,
seria mais sensata: chegava-me uma lua de papel,
um par de braços lisos, conformados

Se eu cantasse o amor sem causa ou resultado,
tinha muito mais paz: fingida em luas-cheias,
seria mais sensata e decerto poeta bem melhor

Assim o que me resta é lua a trans-
bordar de tridimensional. A paz a falhar toda
e eu resolvida em causa insistir papel. E amor.


Ana Luísa Amaral
Portugal (Lisboa) 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi
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Ana Luísa Amaral: Titulo por haver


No meu poema ficaste
de pernas para
o ar
(mas também eu
já estive tantas vezes)

Por entre versos vejo-te as mãos
no chão
do meu poema
e os pés tocando o título
(a haver quando eu
quiser)

Enquanto o meu desejo assim serás:
incómodo estatuto;
preciso de escrever-te
do avesso
para te amar em excesso



Ana Luísa Amaral
Portugal (Lisboa) 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi
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15 de fevereiro de 2015

Eugénio de Andrade: Sobre a cintura

Deixa a mão
caminhar
perder o alento


até onde se não respira.

Deixa a mão
errar
sobre a cintura
apenas conivente
com o nácar da língua.


Só um grito desde o châo
pode fulminá-la.


A morte
não é um segredo
não é em nós jardim de areia.


De noite
no silêncio baço dos espelhos
um homem
pode trazer a morte pela mão.


Vou ensinar-te como se reconhece

repara

é ainda um rapaz
não acaba de crescer


nos ombros
                  a luz
desatada


a fulva
lucicez dos flancos.


A boca sobre a boca nevava.



Eugénio de Andrade
Portugal (Castelo Branco) 1923-2005
in Véspera da Água
Editor: Assirio & Alvim
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Ana Luísa Amaral: KAMASUTRAS



Atira a roupa toda
para o chão.
Depressa. Sem momento sedutor
nenhum

As peças aos bocados,
desmaiadas,
caídas pelo chão.
Do mais pesado ao mais quase
infinito de leveza

E deixa a luz
acesa. Sem sedução
nenhuma. Uma luz pelo menos



Ana Luísa Amaral
Portugal (Lisboa) 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi
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Ana Luísa Amaral: Madrigal em madrugada




A exaustão
das cinco da manhã
e a noite em claro

Gravo o poema,
que o peso da caneta
e eu nem Atlas

Os olhos fecharem-se
mais fortes
que o desejo
                 (vontade de rimar
                  nestes espaços) 

                 [Se agora tu viesses
                  dar-me um beijo
                  com certeza adormecia
                  nos teus braços]


             
Ana Luísa Amaral
Portugal > Lisboa 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi
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8 de fevereiro de 2015

Filipe Marinheiro: ponho-me a amar dolorosamente...

ponho-me a amar dolorosamente
que nunca amei ou amarei
coisas secretas coisas que gemem endoidecidas nesta escrita
que navega para se manter acordada e ao mesmo tempo ausente
dos solenes gestos perdidos na cumplicidade das noites
sem luzes por se apagarem ou se acenderem

aves possuem as visões vivas da ardente paixão
e de repente cheio de suor danço com os dedos em cima da cara
rachando o vertical sangue a cuspe gelatinoso e espalho o veneno
das outras pessoas sobre a ideia sem um fim em si

depois cravo o meu corpo como quem molda um embrulho
de máscaras a enforcarem-se

mas subo radioso pelo peso da alma abaixo contorcendo-se
e ao cair para o inquietante ruído dos pés a atravessar as costelas
uma a uma cruzando-se

por dentro ato as vértebras que se rasgam lindamente
até sacudirem as cordas vocais

aí desprendo os dias dos seus filamentos de açúcar aonde pouso
a cabeça entre os teus peitos e desperto esta triste poesia
que tanto me aprisiona e ama


Filipe Marinheiro
Portugal > Coimbra 1982
in Noutros Rostos
Editor: Chiado Editora
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Filipe Marinheiro: despertei a falar-te dessa escassa palavra que é o amor





















despertei a falar-te dessa escassa palavra que é o amor
girava nas tuas veias em assobio luminoso

tu cantavas no vermelho de minha garganta orvalhada
como um amanhecer dos beijos sobre as rosas do nosso peito
maravilhado por novas palavras com furor a despertarem

os pássaros que nos apertavam baixinhos nas suas asas de música
contra todas as coisas de um mar a enrodilhar a leveza que a todo
o momento nos sorve e onde aquele fresco amor se concentra
despertava


Filipe Marinheiro
Portugal > Coimbra 1982
in Noutros Rostos
Editor: Chiado Editora
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24 de janeiro de 2015

Ana Luísa Amaral: Coisas de luz antigas

Aquele namorado que tinha
um nome bom: há quanto tempo foi?
A vida resvalante como gelo
e aquele namorado de nome bom
e férias, ficou perdido em luz,
mais de vinte anos.


Deu-me uma vez a mão
um beijo resvalante à hora de deitar
e na pensão. Mas tinha um nome bom.
falava de cinema e calçava de azul
e um bigode curtinho,
que escorregou aceso como gelo
no centro da pensão.

Rasguei as cartas dele
há quinze anos, em dia de gavetas
e de luz, e nem fotografia me ficou
de desarrumação. Mas tinha um nome bom,
falava de cinema e calçava de azul
e resvalou-me quente como gelo
à hora de deitar:


um namorado sem falar
de amor
(que a timidez maior
e o quarto dos meus pais
nessa pensão
no mesmo corredor)



Ana Luísa Amaral
Portugal (Lisboa) 1956
in Poesia Reunida
Editor: Edições Quasi

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