Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

6 de abril de 2015

Manuel Alegre: Gostava de morar na tua pele



Gostava de morar na tua pele
desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.

Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.

Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.

Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que dói como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém.


Manuel Alegre
Portugal (Águeda) 1936
in Obra Poética
Editor: Publicações D. Quixote
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Manuel Alegre: Poema do eterno retorno

























Há o teu rosto dentro do teu rosto: único e múltiplo.
As tuas mãos de outrora nas tuas mãos de agora
Há o primeiro amor que é sempre o último
antes do tempo ou só depois da hora.

E vinhas de tão longe. E era tão fundo.
Eu conheço-te. E era por mim. E era por ti. E era por dois.
E havia na tua voz o princípio do mundo.
E era antes da Terra. E era depois.


Manuel Alegre
Portugal (Águeda) 1936
in Obra Poética
Editor: Publicações D. Quixote
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Fernando Assis Pacheco: Seria o amor português

Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me importa?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve. 



Fernando Assis Pacheco
Portugal (Coimbra) 1937-1995
in Poemas de Amor
Antologia de Poesia Portuguesa
Org: Inês Pedrosa
Publicações D. Quixote
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Christina Rossetti: Golpe de asa



Uma vez sonhei que te encontrava,
Estávamos os dois em campo aberto;
Sobre nós dois pombos esvoaçavam
E cortejavam-se a descoberto.

Quando eis que se abate a escuridão,
Descendo a pique, tal voraz falcão,
E os devora, fracos pr’a voar,
Devendo o seu prazer renunciar,

E vendo eu tombar do firmamento
Suas brancas penas de sangue manchadas,
Meus olhos ergui p’ra ti chorando.

Mas tu fugiras; e as árvores ao vento
Bailavam ao som do balido brando
Das cabras e ovelhas tresmalhadas.


Christina Rossetti
Reino Unido (Londres) 1830-1894
in O mercado dos duendes e outros poemas
Editor: Assirio & Alvim
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Christina Rosseti: Canção 10



Quando eu morrer, meu querido,
Não me cantes canções tristes;
Nem rosas em minha cama
Plantes, nem sombrios ciprestes.
Sê tu a relva que cobre
E com orvalho me aquece;
E se quiseres recorda,
e se quiseres esquece.


Não hei-de sentir a sombra,
Não hei-de sentir a chuva;
Nem ouvir a cotovia
cantando como viúva.
E, sonhando p’lo crepúsculo
Que nunca há-de findar,
Feliz possa eu lembrar
E feliz possa olvidar.




Christina Rossetti
Reino Unido (Londres)  1830-1894
in O mercado dos duendes e outros poemas
Editor: Assirio & Alvim

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Christina Rossetti: Canção 4


Oh rosas no rubor da mocidade
Loureiro da idade adolescente;
Mas colhei para mim um ramo de hera
Envelhecido prematuramente.

Violetas pr’á campa da mocidade,
Grinaldas pr’a quem morre adolescente;
mas dai-me as folhas murchas que eu escolhi
No tempo de antigamente.


Christina Rossetti
Reino Unido (Londres) 1830-1894
in O mercado dos duendes e outros poemas
Editor: Assirio & Alvim
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29 de março de 2015

Armando Silva Carvalho: Dá-me um abraço, voltemos a S. Bento


























Dá-me um abraço, voltemos a São Bento
e sem democracias.
Dá o braço aos nossos cinquenta anos
que querem regressar
aos dezoito pelo caminho mais certo,
o do desejo.
Era ali que eu te ouvia chegar com o teu triunfo,
o teu corpo exultante,
os teus olhos verdíssimos que pousavam no prato
de lentilhas
em que matava a fome dos teus beijos.

Os outros andavam perdidos nas suas emboscadas
de solidão com direito a prémio
e a escada do quinto andar rangia no escuro
da minha espera.
E tu subias, subias devagar, com a vitória nas mãos
e no cabelo a espessa brilhantina
que era minha
e tua.
Chegavas e não falavas de livros,
gritavas pelo meu corpo em cada poro
e eu obediente e casto
despia-o devagar à luz da rua.


São Bento das antigas assembleias
da chuva miúda que brilhava nas pedras
da cama em que te expunhas
como numa montra.
O cio corria leve para não deixar traços
no alto desse andar
- O mar ficava preso e eu abria-te
os braços.

São Bento das antigas assembleias
da chuva miúda que brilhava nas pedras
da cama em que te expunhas
como numa montra.
O cio corria leve para não deixar traços
no alto desse andar
- O mar ficava preso e eu abria-te
os braços.

No meu liceu cresciam os burgueses
que mandam na política.
E comprava-te uma revista que trazia na capa
a Amália Rodrigues
a sair de um pequeno avião a hélice,
com um lenço na cabeça, triste e desarmada.
E amava o fado como te amava a ti
em silêncio e sem qualquer virtude
a não ser a das mão correndo em tom menor
pelo fogo do teu corpo
para ninguém nos ouvir chegar ao fundo.

E em fado me mudava até ao lume
Em fado revolvia como faca
Em fado devorava até às fezes
Em fado assassinava para que fosses.



Armando Silva Carvalho
Portugal (Óbidos) 1938
in O que foi passado a limpo, Obra Poética
Editor: Assirio & Alvim
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Cara lh ama: E. M. Melo e Castro

amam-no todos
uns porque o têm
bem colocado e ereto
outros porque a foda
sem ele não bate certo

e se o nariz não chega
e os dedos se dispersam
só ele é que é capaz
de entrar todo na toda
discreto e bom rapaz

e os tristes que o não têm
amam-no doutra maneira
distantes e macios
não sabem se se vêm
ou se é só caganeira


E. M. Melo e Castro
Portugal 1932
in “Cara lh amas”
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22 de março de 2015

Manuel Alegre: Teoria do amor






Amor é mais do que dizer.
Por amor no teu corpo fui além
e vi florir a rosa em todo o ser
fui anjo e bicho e todos e ninguém.

Como Bernard de Ventadour amei
uma princesa ausente em Tripoli
amada minha onde fui escravo e rei
e vi que o longe estava todo em ti.

Beatriz e Laura e todas e só tu
rainha e puta no teu corpo nu
o mar de Itália a Líbia o belvedere.

E quanto mais te perco mais te encontro
morrendo e renascendo e sempre pronto
para em ti me encontrar e me perder.


Manuel Alegre
Portugal (Águeda) 1936
in Obra Poética
Editor: Publicações D. Quixote
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Maria Teresa Horta: Anjos mulheres VI



As mulheres voam
como os anjos:
Com as suas asas feitas
de cristal de rocha da memória

Disponíveis
para voar

soltas...

Primeiro
lentamente: uma por uma

Depois,
iguais aos passaros

fundas...

Nadando,
juntas

Secreta: a rasar o
chão

a rasar a fenda
da lua


no menstruo:
por entre a fenda das pernas

Às vezes é o aço
que se prende
na luz

A dobrarmos o espaço?

Bruxas:
pomos asas em vassouras
de vento

E voamos

Como as asas
lhe cresciam nas coxas

diziam dela:
que era um anjo do mar

Rondo alto,
postas em nudez de ombros
e pernas

perseguindo,

pelos espaços,
lunares
da menstruação

e corpo desavindo

Não somos violencia
mas o voo

quando nadamos
de costas pelo vento

até à foz do tempo
no oceano denso
da nossa própria voz

Sabemos distinguir
a dormir
os anjos das rosas voadoras

pelo tacto?

Somos os anjos
do destino

com a alma
pelo avesso
do útero

Voamos a lua
menstruadas

Os homens gritam:
– são as bruxas

As mulheres pensam:
– são os anjos

As crianças dizem:
– são as fadas

Fadas?

filigrama cintilante
de asas volteando
no fundo da vagina

Nadamos?

De costas,
no espaço deste século

Mudar o rumo
e as pernas mais ao
fundo

portas por trás
dobradas pelos rins

Abrindo o ar
com o corpo num só golpe

Soltas,
viando
até chegar ao fim

Dizem-nos:
que nos limitemos ao espaço

Mas nós voamos
também
debaixo de água

Nós somos os anjos
deste tempo

Astronautas,
voando na memória
nas galáxias do vento...

Temos um pacto
com aquilo que
voa

– as aves
da poesia

– os anjos
do sexo

– o orgasmo
dos sonhos

Não há nada
que a nossa voz não abra

Nós somos as bruxas da palavra


Maria Teresa Horta
Portugal 1932
in Anjos
Editor: Litexa Editora
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Sá de Miranda: Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho


Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si,
e vou tresvaliando, como em sonho.

Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m’espanto às vezes, outras m’avergonho.

Que, tornando ante vós, senhora, tal,
quando m’era mister tant’outr’ajuda,
de que me valerei, se alma não val?

Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em al,
afronta o coração, a língua é muda.


Sá de Miranda
Portugal » Coimbra 1481-1558
in Os dias do Amor
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Haiku Erótico: E. M. Melo e Castro


mamilos ilhas
do mar elástico
flores
na pele do peito

negro loiro
o perfume volume
clitóris
da face do êxtase

vento oscilando
cúpula no mastro
glande
rubra de neve

na pele do deserto
areia movediça
cetim
de dedos cactus

fundo e claro
o obscuro fluxo
canto
do olho aberto

figura esguia
peixe na água
lava
por fenda fina

a saliva sabe
do sol o toque
beijo
eixo na boca


voo no ritmo
das asas duplas
cópula

única é a ave

.
volume ocupando
o espaço da mão
flecha
redonda logo

olhos abertos
na cor da noite
voláteis
cristais de luz

na onda anda
um outro lugar
vulva
volume vago

o ambiguo dizer
pedra de toque
pénis
no calor dos olhos

caricia outra
leve fluir
língua
o toque ácido

total orgasmo
nulo de nada
luz
sobre a iluminação


E. M. Melo e Castro
Portugal 1932
in “Sim… Sim! poemas eróticos”
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