Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

11 de abril de 2015

Filipe Marinheiro: soube de ter um amor fácil...


soube de ter um amor fácil como a rasgar a língua
duma pedra de hélio

era assim que olhava interminavelmente
as montanhas a arder
enquanto dormiam um longo medo
logo pela manhã cerrada adentro…

noite com febre suja que pela raíz parece um cometa
a dançar bêbado

ou por outro tenho um amor paciente a estancar esta
difícil e ardorosa paixão que canta no fundo do sexo

até então despertar numa noite escaldante e
inexplicavelmente húmida…



Filipe Marinheiro
Portugal > Coimbra 1982
in Noutros Rostos
Editor: Chiado Editora
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Filipe Marinheiro: em cima da boca sedutora...































em cima da boca sedutora e doce
e a garganta em chaga aniquila todos
os espinhos e pérolas
desaparecendo-os
um por um
destes movimentos muito quentes
estrangulando-se sem memória nem coração



Filipe Marinheiro
Portugal > Coimbra 1982
in Noutros Rostos
Editor: Chiado Editora
photo by Google

9 de abril de 2015

Pedro Correia Garção: Queixas de Amor



























De beijos um cestinho Amor enchia,
E, depostos os duros passadores,
Quais semeiam o trigo os lavradores
Num campo os semeou todos um dia.

Daí a pouco com prazer se via
A seara toda a ferver toda em Amores,
Que aos lentos rebentava, entre as flores,
De que o travesso deus folgava e ria.

Eu que bem por acaso até bem me achava,
Um deles colho, e sobre o peito o prendo,
Sem recear o mal que me aguardava:

Pois as tensas raízes estendendo,
Pouco a pouco no coração mas crava
De onde novos amores vão nascendo.


Pedro Correia Garção
Portugal » Lisboa 1724-1772
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Pedro Chagas Freitas: Troco uma vida de orgasmos...



Troco uma vida de orgasmos pelo orgasmo de uma vida.
Há quase uma felicidade em cada minuto sem ti,
e até o prazer acontece sem que eu me venha com ele.
Os mais cerebrais pedem-me contenção, pedem-me
anulação. Mas não se pode conter o que nos faz querer.
Não se pode conter o que nos faz viver. E se a vida
existe e para que te seja assim, para que alguém,
um dia, possa ser assim de alguém. 


Pedro Chagas Freitas
Portugal » Azurém; Guimarães 1979
in Prometo falhar
Editor: Marcador
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6 de abril de 2015

Francisco de Aldana: Mil vezes digo...

     Mil vezes digo, ao ser abraçado
por Galateia, que é mais que o sol formosa,
e ela, olhando-me doce e desdenhosa,
murmura: « Tírsis meu, está calado.»
     Eu quero-lho jurar, entusiasmado,
e ela, encendida num matiz de rosa,
com um beijo mo impede, e pressurosa
tapa-me a boca com seu gesto amado.
     Com branda força, procuro soltar-me,
e ela afasta-me mais e diz-me logo:
« Não o jures, pois crer em ti me apraz.»
     Depois com tanta força encadear-me
tenta que Amor, presente ao doce jogo,
num desejo com obras satisfaz.


Francisco de Aldana
Espanha 1537-1577
in” Antologia da Poesia Espanhola
Siglo de Oro – 1ºvol. Renascimento”
Tradução: José Bento
Editor: Assirio & Alvim
photo by Tutt’ Art

David Mourão-Ferreira: Rangia entre nós dois




Rangia entre nós dois a música da areia
como se fosse Agosto a dedilhar um sistro
Agora está fechada a casa onde te amei
onde à noite uma vez devagar te despiste

Floresça o clavicórdio em pleno mês de Outubro
Na harpa de Setembro entrelaçou-se a vinha
A que vem de repente entre os dois este muro
feito de solidão de sal de marés vivas

Podia conjurar-te a que não me esquecesses
mas é longe do Mar que os navios são tristes
De que serve o convés com a sombra das redes

Quis a tua nudez  Não quis que te despisses



David Mourão-Ferreira
Portugal (Lisboa) 1927-1996
in 366 poemas que falam de amor
Selecção: Vasco Graça Moura
Editor: Quetzal Editores
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Manuel Alegre: As facas





Quatro letras nos matam quatro facas
que no corpo me gravam o teu nome
Quatro facas amor com que me matas
sem que eu mate esta sede e esta fome.

Este amor é de guerra. (De arma branca)
Amando ataco amando contra-atacas
este amor é de sangue que não estanca
Quatro letras nos matam quatro facas.

Armado estou de amor. E desarmado.
Morro assaltando morro se me assaltas
e em cada assalto sou assassinado.

Quatro letras amor com que me matas.
E as facas ferem mais quando me faltas.
Quatro letras nos matam quatro facas.



Manuel Alegre
Portugal (Águeda) 1936
in Obra Poética
Editor: Publicações D. Quixote

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Manuel Alegre: Na tua pele a terra treme






























Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.

Das tuas coxas pode ver-se a Lua
contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua…


Manuel Alegre
Portugal (Águeda) 1936
in Obra Poética
Editor: Publicações D. Quixote
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Francisco de La Torre: Bela minha ninfa é



     Bela minha ninfa é, se os laços de ouro
ao tranquilo vento desordena;
bela, se de seus olhos aliena
o altivo desdém que sempre choro;
     bela se com a luz que, única, adoro
a tormenta do vento e mar serena;
bela, se ao amargor da minha pena
devolve as graças do celeste coro.
     Bela se mansa, bela se terrível,
bela se cruel, bela esquiva, e bela
se torna a luz do céu grave clarão.
     Cuja beleza humana e aprazível
nem se pode saber o que é sem vê-la,
nem, vista, se compreende o que é o chão.



Francisco de La Torre
Espanha (Madrid) 1534-1594
in” Antologia da Poesia Espanhola
Siglo de Oro – 1ºvol. Renascimento”
Tradução: José Bento
Editor: Assirio & Alvim

photo by Tutt’ Art

Luiza Neto Jorge: Baixo-Relevo


Tu e eu
só estátuas de amanhã
Não temos na mão a flor
um livro uma espingarda
uma cadeira gasta onde morrer
E sem o monstro gótico apunhalado aos pés

(Todos os sonhos são de pedra ou bronze
não os meus de palha ou de papel)


Tu e eu
baixo-relevo
vendidos tocados expostos em vida
perseguidos pelos milionários
e pelos mortos talvez que invadiram já
o pedestal das estátuas

Tu e eu
elípticos de sexo
ontem gritada no teu peito
hoje secreto no meu ventre


deserdados da sombra
já sem gesto
escultura de amanhã


Luiza Neto Jorge
Portugal (Lisboa) 1929-1989
in Poesia 1960-1989
Editor: Assirio & Alvim
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Manuel Alegre: Gostava de morar na tua pele



Gostava de morar na tua pele
desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.

Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.

Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.

Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que dói como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém.


Manuel Alegre
Portugal (Águeda) 1936
in Obra Poética
Editor: Publicações D. Quixote
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Manuel Alegre: Poema do eterno retorno

























Há o teu rosto dentro do teu rosto: único e múltiplo.
As tuas mãos de outrora nas tuas mãos de agora
Há o primeiro amor que é sempre o último
antes do tempo ou só depois da hora.

E vinhas de tão longe. E era tão fundo.
Eu conheço-te. E era por mim. E era por ti. E era por dois.
E havia na tua voz o princípio do mundo.
E era antes da Terra. E era depois.


Manuel Alegre
Portugal (Águeda) 1936
in Obra Poética
Editor: Publicações D. Quixote
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Fernando Assis Pacheco: Seria o amor português

Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me importa?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve. 



Fernando Assis Pacheco
Portugal (Coimbra) 1937-1995
in Poemas de Amor
Antologia de Poesia Portuguesa
Org: Inês Pedrosa
Publicações D. Quixote
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Christina Rossetti: Golpe de asa



Uma vez sonhei que te encontrava,
Estávamos os dois em campo aberto;
Sobre nós dois pombos esvoaçavam
E cortejavam-se a descoberto.

Quando eis que se abate a escuridão,
Descendo a pique, tal voraz falcão,
E os devora, fracos pr’a voar,
Devendo o seu prazer renunciar,

E vendo eu tombar do firmamento
Suas brancas penas de sangue manchadas,
Meus olhos ergui p’ra ti chorando.

Mas tu fugiras; e as árvores ao vento
Bailavam ao som do balido brando
Das cabras e ovelhas tresmalhadas.


Christina Rossetti
Reino Unido (Londres) 1830-1894
in O mercado dos duendes e outros poemas
Editor: Assirio & Alvim
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Christina Rosseti: Canção 10



Quando eu morrer, meu querido,
Não me cantes canções tristes;
Nem rosas em minha cama
Plantes, nem sombrios ciprestes.
Sê tu a relva que cobre
E com orvalho me aquece;
E se quiseres recorda,
e se quiseres esquece.


Não hei-de sentir a sombra,
Não hei-de sentir a chuva;
Nem ouvir a cotovia
cantando como viúva.
E, sonhando p’lo crepúsculo
Que nunca há-de findar,
Feliz possa eu lembrar
E feliz possa olvidar.




Christina Rossetti
Reino Unido (Londres)  1830-1894
in O mercado dos duendes e outros poemas
Editor: Assirio & Alvim

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Christina Rossetti: Canção 4


Oh rosas no rubor da mocidade
Loureiro da idade adolescente;
Mas colhei para mim um ramo de hera
Envelhecido prematuramente.

Violetas pr’á campa da mocidade,
Grinaldas pr’a quem morre adolescente;
mas dai-me as folhas murchas que eu escolhi
No tempo de antigamente.


Christina Rossetti
Reino Unido (Londres) 1830-1894
in O mercado dos duendes e outros poemas
Editor: Assirio & Alvim
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29 de março de 2015

Armando Silva Carvalho: Dá-me um abraço, voltemos a S. Bento


























Dá-me um abraço, voltemos a São Bento
e sem democracias.
Dá o braço aos nossos cinquenta anos
que querem regressar
aos dezoito pelo caminho mais certo,
o do desejo.
Era ali que eu te ouvia chegar com o teu triunfo,
o teu corpo exultante,
os teus olhos verdíssimos que pousavam no prato
de lentilhas
em que matava a fome dos teus beijos.

Os outros andavam perdidos nas suas emboscadas
de solidão com direito a prémio
e a escada do quinto andar rangia no escuro
da minha espera.
E tu subias, subias devagar, com a vitória nas mãos
e no cabelo a espessa brilhantina
que era minha
e tua.
Chegavas e não falavas de livros,
gritavas pelo meu corpo em cada poro
e eu obediente e casto
despia-o devagar à luz da rua.


São Bento das antigas assembleias
da chuva miúda que brilhava nas pedras
da cama em que te expunhas
como numa montra.
O cio corria leve para não deixar traços
no alto desse andar
- O mar ficava preso e eu abria-te
os braços.

São Bento das antigas assembleias
da chuva miúda que brilhava nas pedras
da cama em que te expunhas
como numa montra.
O cio corria leve para não deixar traços
no alto desse andar
- O mar ficava preso e eu abria-te
os braços.

No meu liceu cresciam os burgueses
que mandam na política.
E comprava-te uma revista que trazia na capa
a Amália Rodrigues
a sair de um pequeno avião a hélice,
com um lenço na cabeça, triste e desarmada.
E amava o fado como te amava a ti
em silêncio e sem qualquer virtude
a não ser a das mão correndo em tom menor
pelo fogo do teu corpo
para ninguém nos ouvir chegar ao fundo.

E em fado me mudava até ao lume
Em fado revolvia como faca
Em fado devorava até às fezes
Em fado assassinava para que fosses.



Armando Silva Carvalho
Portugal (Óbidos) 1938
in O que foi passado a limpo, Obra Poética
Editor: Assirio & Alvim
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Cara lh ama: E. M. Melo e Castro

amam-no todos
uns porque o têm
bem colocado e ereto
outros porque a foda
sem ele não bate certo

e se o nariz não chega
e os dedos se dispersam
só ele é que é capaz
de entrar todo na toda
discreto e bom rapaz

e os tristes que o não têm
amam-no doutra maneira
distantes e macios
não sabem se se vêm
ou se é só caganeira


E. M. Melo e Castro
Portugal 1932
in “Cara lh amas”
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