Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

25 de maio de 2015

Um firme coração posto em ventura: Diogo Bernardes




Um firme coração posto em ventura,
Um desejar honesto, que s’enjeite
De vossa condição, sem que respeite
A meu tão puro amor, a fé tão pura;

Um ver-vos, de piedade e de brandura
Imagem sempre, faz-me que suspeite
Qu’alguma brava fera vos deu leite,
Ou que naceste d’ua pedra dura.

Ando buscando causa que desculpe
Crueza tão estranha; porém, quanto
Nisso trabalho mais, mais mal me trata,

Donde vem que não há quem nos não culpe:
A vós, porque matais quem vos quer tanto;
A mim, que tanto quero a quem me mata.


Diogo Bernardes
(Portugal 1520-1605)
in Os dias do Amor
Editor: Ministério dos Livros
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Romance: Joana da Gama


Onde acharei sofrimento
para vida tão penada?
não me deixa meu tormento
com a dor desesperada;

tem-me feito tanto dano
que me tem a alma chagada;
no meio do coração
tristeza aposentada;

não lhe posso fugir, não,
que comigo vai pegada;
têm-me as potências somadas
que me não servem de nada;

nenhuma cousa de gosto
em mim pode ter entrada;
se alguma hora prazer vejo

faz-me ser mais enojada;
mil gritos dão meus sentidos
quando eu estou calada.


Joana da Gama
(Portugal 1520?-1586)
in Os dias do Amor
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Se pelo olhar o coração se vê: Michelangelo Buonarroti






                     Se pelo olhar o coração se vê,
não tenho outro sinal mais manifesto
da minha chama; e só por tal aspecto
merecerei, senhor, tua mercê.

Teu espírito, talvez, com maior fé
da que imagino, ao ver o fogo honesto
que tão alto arde em mim... piedoso e presto
a graça que te peço enfim me dê.

Oh, feliz esse dia, se isto é certo!
E pare então o tempo, e o sol no céu,
e das horas os tão antigos passos,

até que eu possa ter, mesmo sem mérito,
o doce e desejado senhor meu
para sempre entre os meus indignos braços!


Michelangelo Buonarroti
Itália »Toscânia 1475-1564
In Os dias do Amor - Um poema para cada dia do ano
Editor: Ministério dos Livros
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24 de maio de 2015

Manoel Rodrigues: Ode ás noites íntimas


Ode às noites íntimas
As palavras nada proíbem.

Quem proíbe,
pouco entende o brilho húmido dos lábios
que se entreabrem,
e do pénis as grossas
túmidas veias e a ansiosa glande;
ou ainda,
se percebe,
os desentende:

Quantas meninas houver desflorado,
tanta a sanha de calar o que todos fazem
em cada volta que a Terra dá e nas que deu
e nos biliões que dará,
ocultando sob os telhados e sob as árvores o lutar
de corpos que leva voando no espaço.

De que ter pudor,
se dois humanos ensaiam
longamente na boca e pele que se morde
e nos pêlos afagados que se orvalham
a rigidez e a penetração do membro?

A vida também é as mãos apalparem
indagando os seios,
o clitóris rodarem como aos mamilos,
para que as femininas mãos,
apertem o membro e o masturbem.

Nada,
pois,
impede de cantar-se a luxúria,
os pêlos,
a tesa pele,
o confundir vultos,
o segredo de cada vez descoberto ou
inventado,
a língua,
as mãos,
os dedos exactos e o mais penetrando tudo que
o corpo abra,
e a garganta grite,
e os dentes exijam,
e as coxas apertem e logo se abram,
e pernas e calcanhares prendam,
e as unhas cravem,
e o ventre salte no movimento tão antigo das
marés vivas materna origem,
e a vulva acompanhe em calculadas contracções
o falo que mergulha e sai,
e assim tenha
o saber herdado dos moluscos do mar.

Pudor de escrever o penetrar de corpos
cada dia tão diverso quanto são os dias?

O membro usa o comprimento e a dureza
com a lucidez e o gozo de senti-lo
nos lábios que o recebem no desespero
de resistirem e a sede de o abraçarem e medirem,
suor de sal,
instantes ondas,
olhos brancos loucos de lua,
quando do telúrico vulcão ao longe os gemidos vêm subindo,
no ritmo dos quadris que aceleram e da respiração que arfa,
e as palavras ditas na noite,
segredadas,
de quem sábio alteroso se navega e indica o norte,
para que nada se perca,
já a lava começa a premente subida,
da medula do corpo à ponta do ventre,
e os gemidos crescem e se apressam,
misturados às palavras,
ainda guiando e logo perdidas,
obscenas em gritos e rugidos,
que limitam a noite à cama,
explodidas nos saltos do membro que o
esperma ejectam e a carne profunda,
apertando,
ávida,
sorve e chama na perdição que não é subir a astros,
mas esvair-se em vida p'ra semear o mundo.

Logo lentos os corpos esfriam e dormem.

Para depois haver a manhã e da vida
o labor salvar-se nas noites que virão.


Manoel Rodrigues
Brasil
in Poesia Completa
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Aquela nunca vista formosura: António Ferreira

 
Aquela nunca vista formosura,
Aquela viva graça e doce riso,
Humilde gravidade e alto aviso,
Mais divina que humana real brandura,


Aquela alma inocente e sábia e pura
Que entre nós cá fazia um paraíso,
Ante os olhos a trago e lá a diviso
No céu triunfar da morte e sepultura.

Pois por quem choro, triste? Por quem chamo
Sobre esta pedra dura a meus gemidos,
Que nem me pode ouvir nem me responde?

Meus suspiros nos céus sejam ouvidos;
E enquanto a clara vista se me esconde,
Seu despojo, amarei, amei e amo.



António Ferreira 
(Portugal 1528-1569  
 “in Poemas de Amor
Antologia de Poesia Portuguesa
Org. Inês Pedrosa 
Editor: Publicações D. Quixote
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David Mourão-Ferreira: Libertação

Fui à praia, e vi nos limos
a nossa vida enredada:
ó meu amor, se fugimos,
ninguém saberá de nada.

Na esquina de cada rua,
uma sombra nos espreita,
e nos olhares se insinua,
de repente uma suspeita.

Fui ao campo, e vi os ramos
decepados e torcidos:
ó meu amor, se ficamos,
pobres dos nossos sentidos.

Hão-de transformar o mar
deste amor numa lagoa:
e de lodo hão-de a cercar,
porque o mundo não perdoa.

Em tudo vejo fronteiras,
fronteiras ao nosso amor.
Longe daqui, onde queiras,
a vida será maior.

Nem as esperanças do céu
me conseguem demover
Este amor é teu e meu:
só na terra o queremos ter. 


David Mourão-Ferreira
Portugal (Lisboa) 1927-1996
in Obra Poética
Editor: Editorial Presença
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David Mourão-Ferreira: Momento

Chegado o momento
em que tudo é tudo
dos teus pés ao ventre
das ancas à nuca
ouve-se a torrente
de um rio confuso
Levanta-se o vento
Comparece a lua
Entre linguas e dentes
este sol nocturno
Nos teus quatro membros
de curvos arbustos
lavra um só incêndio
que se torna muitos
Cadente silêncio
sob o que murmuras
Por fora por dentro
do bosque do púbis
crepitam-me os dedos
tocando alaúde
nas cordas dos nervos
a que te reduzes
Assim o momento
em que tudo é tudo
Mais concretamente
água fogo música 



David Mourão-Ferreira
Portugal (Lisboa) 1927-1996
in Obra Poética
Editor: Editorial Presença
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Fernando de Herrera: Alma bela...


Alma bela, que neste escuro véu
cobriste uns dias o teu vigor luzente,
em fundo e cego olvido, gravemente,
sem erguer voo, sob o que te escondeu.

Já, desdenhando o sítio onde o céu
te encerrou e apurou com força ardente,
e o mortal nó rasgado, vais presente
prà eterna paz, em guerra o chão que é meu.

Volta pra mim tua luz, teu centro tira
prò amplo círculo de imortal beleza,
como vapor terrestre levantado

este espírito opresso, que suspira
em vão pra fugir desta estreiteza
que impede estar contigo descansado.




Fernando de Herrera
Espanha (Sevilha) 1534-1597
in” Antologia da Poesia Espanhola
Siglo de Oro – 1ºvol. Renascimento”
Editor: Assirio & Alvim 
photo by Tutt’ Art

Fernando Assis Pacheco: Um campo batido pela brisa


 A tua nudez inquieta-me.

Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho «um pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
iluminado, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.



Fernando Assis Pacheco
Portugal (Coimbra) 1937-1995
in A Musa Irregular
Editor: Assirio & Alvim
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21 de abril de 2015

Meu amor tem meu coração, eu tenho o seu: Philip Sidney



Meu amor tem meu coração, eu tenho o seu,
Em troca justa, um pelo outro estão.
O meu está com ele, em mim o que ele me deu,
Nunca se arranjou uma melhor transacção.
Seu coração em mim os dois une agora,
Nele, o meu guia sentidos e pensamento;
Ele ama meu coração que foi seu outrora,
Acarinho o seu porque em mim tem aposento.
Foi ao vê-lo que o seu coração feri,
Meu coração foi f’rido pla sua ferida;
Dele ferido, a sua dor reacendi,
E assim em mim sua dor faz mais dorida.
Ambos f’ridos, a troca ventura nos deu:
Meu amor tem meu coração, eu tenho o seu.


Philip Sidney
(England 1554-1586)
in Os dias do Amor
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Cesário Verde: A débil


Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.


Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.


E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices de absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.


« Ela aí vem!» disse eu para os demais;
e pus-me a olhar, vexado e suspirando,
o teu corpo que pulsa, alegre e brando,
na frescura dos linhos matinais.

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, - talvez que o não suspeites! -
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça;
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu, muito natural,
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

Sorriam, nos seus trens, os titulares;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto,
Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esbelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E de altos funcionários da nação.

« Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!»
De repente, paraste, embaraçada
Ao pé dum numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.


Cesário Verde
(Portugal 1855 – 1866)
in Poesia completa e cartas
Editor: Mel Editores
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David Mourão-Ferreira: Soneto do amor difícil


A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa...

Mas se na praia a onda se despedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu. 

David Mourão-Ferreira
Portugal (Lisboa) 1927-1996
in Obra Poética
Editor: Editorial Presença
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18 de abril de 2015

Diogo Bernardes: Onde porei meus olhos que não veja



Onde porei meus olhos que não veja
A causa, donde nasce meu tormento?
A que parte irei co pensamento
Que para descansar parte me seja?


Já sei como s’engana quem deseja,
Em vão amor, firme contentamento:
De que nos gostos seus, que são de vento,
Sempre falta seu bem, seu mal sobeja.


Mas inda, sobre claro desengano,
Assim me traz est’alma sogigada,
Que dele está pendendo o meu desejo;


E vou de dia em dia, de ano em ano,
Após um não sei quê, após um nada:
Que, quanto mais me chego, menos vejo.






Diogo Bernardes
Portugal 1520-1605
in Poemas de Amor
Antologia de Poesia Portuguesa
Editor: Publicações D. Quixote
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