Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

28 de maio de 2015

Francisco de La Torre: Só e calado



Só e calado, triste e pensativo,
fujo de todos com os olhos cheios
de lágrimas e dor,; sempre os enleios
de uns olhos evitando, por quem vivo.
     Neles fica meu espírito cativo
a sofrer sua paixão; e eles alheios
do seu primeiro amor, os belos seios
humedecem a chorar seu fado esquivo.
     A luz eu aguardei dessa beleza,
e na alma levo o golpe justiceiro,
e ali me segue, aonde vou, sua ira.
     Um bem tiro a meus olhos, e o primeiro,
por quem minha alma chora tal dureza,
é ver a dor que no seu rosto mira.


Francisco de La Torre
Espanha (Madrid) 1534-1594
in” Antologia da Poesia Espanhola
Siglo de Oro – 1ºvol. Renascimento”
Tradução: José Bento
Editor: Assirio & Alvim
photo by Tutt’ Art

António Ramos Rosa: Vertentes



As palavras esperam o sono
e a música do sangue sobre as pedras corre
a primeira treva surge
o primeiro não a primeira quebra


A terra em teus braços é grande
o teu centro desenvolve-se como um ouvido
a noite cresce uma estrela vive
uma respiração na sombra o calor das árvores


Há um olhar que entra pelas paredes da terra
sem lâmpadas cresce esta luz de sombra
começo a entender o silêncio sem tempo
a torre extática que se alarga



A plenitude animal é o interior de uma boca
um grande orvalho puro como um olhar7



Deslizo no teu dorso sou a mão do teu seio
sou o teu lábio e a coxa da tua coxa
sou nos teus dedos toda a redondez do meu corpo
sou a sombra que conhece a luz que a submerge

A luz que sobe entre
as gargantas agrestes
deste cair na treva
abre as vertentes onde
a água cai sem tempo 




António Ramos Rosa
Portugal (Lisboa) 1924-2013
in Antologia Poética
Editor: Publicações D. Quixote

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Pedro Tamen: Palavras minhas



Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.
Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido…
Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
- que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.




Pedro Tamen
Portugal (Lisboa) 1934
in Tábua das matérias
Editor: Tertulia
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Pedro Tamen: A segurança destas paralelas




A segurança destas paralelas
- a beira da varanda e o horizonte;
assim me pacifico, e é por elas
que subo lentamente cada monte.
O tempo arrefecido, e só soprado
por uma brisa tarda que do mar
torna este minuto leve aconchegado
traz mansas as certezas de se estar.
E vêm novos nomes: são as fadas,
gigantes e anões, que são assim
alegres de o serem – parcos nadas
que enchendo de silêncios este sim
dele fazem brinquedos, madrugadas…
Agora eu estou em ti e tu em mim.


Pedro Tamen
Portugal (Lisboa) 1934
in Tábua das matérias
Editor: Tertulia

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Victor Hugo: Já que Maio em flor


Já que Maio em flor nos prados nos quer ver,
Vem! Não deixes de na tua alma acolher
O campo, os bosques e as sombras atraentes,
O largo luar, perto das ondas dormentes,
O atalho que acaba onde começa o caminho,
E o ar, a primavera e o horizonte infindo
Que este mundo beija, humilde e divertido,
Como um lábio a bainha do celeste vestido!
Vem! Que o pudico olhar das estrelas dos céus
Que a terra contempla através de tantos véus,
Que a árvore penetrada de perfumes e cantos,
Que o sopro abrasador do meio-dia nos campos,
E a sombra e o sol e as ondas e a verdura,
E a resplandecência de toda a natura
Façam desabrochar, como uma dupla flor,
Beleza na tua fronte, no coração amor!



Victor Hugo
France?
in Poemas
Editor: Assirio & Alvim
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Christina Rossetti: Sossego


Ó terra, cai pesada por caridade;
Cobre seus olhos cansados de olhar;
Deita-te ao pé, que não sobre lugar
Para ânsia ou riso de hilaridade.

Não perguntou, ninguém lhe respondeu:
Protegida por escassez bendita
De tudo que lhe fizesse desdita,
luz num sossego semelhante ao Céu.

Em paz repousa o seu coração:
A noite o recolheu em claridade,
O silêncio cantou-lhe uma canção.

Descansa agora sem comoção
Até ao dealbar da Eternidade;
E quando acordar não será tarde.




Christina Rossetti
Reino Unido » Londres 1830-1894
in O mercado dos duendes e outros poemas
Editor: Assirio & Alvim
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Ali, onde há penedos, urze e mato: Pedro Homem de Melo


Ali, onde há penedos, urze e mato,
Pela primeira vez te vi bailar!
E, em certo corpo esguio de regato,
Ali, onde há penedos urze e mato,
Coube a verdade estranha do luar. 


Aquela saia curta, mas redonda!
Aquela cinta frágil, mas comprida!
Ali, naquela dança, como em onda
(Seria curta a saia, mas redonda...)
Senti crescer, multiplicar-se a vida! 


Sem que tentasse alguém, sequer, prendê-las,
Bailaram, rosas, cruzes, arrecadas.
Buliram, sob os olhos das estrelas,
Minhas bodas, vermelhas como estrelas,
E, como elas, distantes, ignoradas...



Intacto e nu, trago o meu corpo inteiro,
Maior que o céu, maior do que o pecado!
Pinhal do monte brusco e verdadeiro!
Mais vale, em pé, um único pinheiro,
              Que todo o azul do mar sem fim, deitado!



O amor foi breve e rijo como um fruto.
O vinho leve e fresco foi exacto.
Deixá-las vir as nuvens com seu luto!
Um minuto de Sol. Basta um minuto
Ali, onde há penedos, urze e mato.


Pedro Homem de Melo
Portugal, Porto 1904-1984
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25 de maio de 2015

Ninguém vai saber: Julieta Lima


Ninguém vai saber
Do meu segredo.
Tenho um amante
Belo como Deus
E todo nu
Aqui deitado ao meu lado!
Seus beijos são azuis
E a sua voz vermelha como o lume!
Tenho um amante só meu
E ninguém vai saber,
Ninguém mo vai roubar,
Porque ele é meu, só meu:

É feito de poemas e de fumo...


Julieta Lima
Portugal 1949
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Um firme coração posto em ventura: Diogo Bernardes




Um firme coração posto em ventura,
Um desejar honesto, que s’enjeite
De vossa condição, sem que respeite
A meu tão puro amor, a fé tão pura;

Um ver-vos, de piedade e de brandura
Imagem sempre, faz-me que suspeite
Qu’alguma brava fera vos deu leite,
Ou que naceste d’ua pedra dura.

Ando buscando causa que desculpe
Crueza tão estranha; porém, quanto
Nisso trabalho mais, mais mal me trata,

Donde vem que não há quem nos não culpe:
A vós, porque matais quem vos quer tanto;
A mim, que tanto quero a quem me mata.


Diogo Bernardes
(Portugal 1520-1605)
in Os dias do Amor
Editor: Ministério dos Livros
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Romance: Joana da Gama


Onde acharei sofrimento
para vida tão penada?
não me deixa meu tormento
com a dor desesperada;

tem-me feito tanto dano
que me tem a alma chagada;
no meio do coração
tristeza aposentada;

não lhe posso fugir, não,
que comigo vai pegada;
têm-me as potências somadas
que me não servem de nada;

nenhuma cousa de gosto
em mim pode ter entrada;
se alguma hora prazer vejo

faz-me ser mais enojada;
mil gritos dão meus sentidos
quando eu estou calada.


Joana da Gama
(Portugal 1520?-1586)
in Os dias do Amor
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Se pelo olhar o coração se vê: Michelangelo Buonarroti






                     Se pelo olhar o coração se vê,
não tenho outro sinal mais manifesto
da minha chama; e só por tal aspecto
merecerei, senhor, tua mercê.

Teu espírito, talvez, com maior fé
da que imagino, ao ver o fogo honesto
que tão alto arde em mim... piedoso e presto
a graça que te peço enfim me dê.

Oh, feliz esse dia, se isto é certo!
E pare então o tempo, e o sol no céu,
e das horas os tão antigos passos,

até que eu possa ter, mesmo sem mérito,
o doce e desejado senhor meu
para sempre entre os meus indignos braços!


Michelangelo Buonarroti
Itália »Toscânia 1475-1564
In Os dias do Amor - Um poema para cada dia do ano
Editor: Ministério dos Livros
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24 de maio de 2015

Manoel Rodrigues: Ode ás noites íntimas


Ode às noites íntimas
As palavras nada proíbem.

Quem proíbe,
pouco entende o brilho húmido dos lábios
que se entreabrem,
e do pénis as grossas
túmidas veias e a ansiosa glande;
ou ainda,
se percebe,
os desentende:

Quantas meninas houver desflorado,
tanta a sanha de calar o que todos fazem
em cada volta que a Terra dá e nas que deu
e nos biliões que dará,
ocultando sob os telhados e sob as árvores o lutar
de corpos que leva voando no espaço.

De que ter pudor,
se dois humanos ensaiam
longamente na boca e pele que se morde
e nos pêlos afagados que se orvalham
a rigidez e a penetração do membro?

A vida também é as mãos apalparem
indagando os seios,
o clitóris rodarem como aos mamilos,
para que as femininas mãos,
apertem o membro e o masturbem.

Nada,
pois,
impede de cantar-se a luxúria,
os pêlos,
a tesa pele,
o confundir vultos,
o segredo de cada vez descoberto ou
inventado,
a língua,
as mãos,
os dedos exactos e o mais penetrando tudo que
o corpo abra,
e a garganta grite,
e os dentes exijam,
e as coxas apertem e logo se abram,
e pernas e calcanhares prendam,
e as unhas cravem,
e o ventre salte no movimento tão antigo das
marés vivas materna origem,
e a vulva acompanhe em calculadas contracções
o falo que mergulha e sai,
e assim tenha
o saber herdado dos moluscos do mar.

Pudor de escrever o penetrar de corpos
cada dia tão diverso quanto são os dias?

O membro usa o comprimento e a dureza
com a lucidez e o gozo de senti-lo
nos lábios que o recebem no desespero
de resistirem e a sede de o abraçarem e medirem,
suor de sal,
instantes ondas,
olhos brancos loucos de lua,
quando do telúrico vulcão ao longe os gemidos vêm subindo,
no ritmo dos quadris que aceleram e da respiração que arfa,
e as palavras ditas na noite,
segredadas,
de quem sábio alteroso se navega e indica o norte,
para que nada se perca,
já a lava começa a premente subida,
da medula do corpo à ponta do ventre,
e os gemidos crescem e se apressam,
misturados às palavras,
ainda guiando e logo perdidas,
obscenas em gritos e rugidos,
que limitam a noite à cama,
explodidas nos saltos do membro que o
esperma ejectam e a carne profunda,
apertando,
ávida,
sorve e chama na perdição que não é subir a astros,
mas esvair-se em vida p'ra semear o mundo.

Logo lentos os corpos esfriam e dormem.

Para depois haver a manhã e da vida
o labor salvar-se nas noites que virão.


Manoel Rodrigues
Brasil
in Poesia Completa
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Aquela nunca vista formosura: António Ferreira

 
Aquela nunca vista formosura,
Aquela viva graça e doce riso,
Humilde gravidade e alto aviso,
Mais divina que humana real brandura,


Aquela alma inocente e sábia e pura
Que entre nós cá fazia um paraíso,
Ante os olhos a trago e lá a diviso
No céu triunfar da morte e sepultura.

Pois por quem choro, triste? Por quem chamo
Sobre esta pedra dura a meus gemidos,
Que nem me pode ouvir nem me responde?

Meus suspiros nos céus sejam ouvidos;
E enquanto a clara vista se me esconde,
Seu despojo, amarei, amei e amo.



António Ferreira 
(Portugal 1528-1569  
 “in Poemas de Amor
Antologia de Poesia Portuguesa
Org. Inês Pedrosa 
Editor: Publicações D. Quixote
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David Mourão-Ferreira: Libertação

Fui à praia, e vi nos limos
a nossa vida enredada:
ó meu amor, se fugimos,
ninguém saberá de nada.

Na esquina de cada rua,
uma sombra nos espreita,
e nos olhares se insinua,
de repente uma suspeita.

Fui ao campo, e vi os ramos
decepados e torcidos:
ó meu amor, se ficamos,
pobres dos nossos sentidos.

Hão-de transformar o mar
deste amor numa lagoa:
e de lodo hão-de a cercar,
porque o mundo não perdoa.

Em tudo vejo fronteiras,
fronteiras ao nosso amor.
Longe daqui, onde queiras,
a vida será maior.

Nem as esperanças do céu
me conseguem demover
Este amor é teu e meu:
só na terra o queremos ter. 


David Mourão-Ferreira
Portugal (Lisboa) 1927-1996
in Obra Poética
Editor: Editorial Presença
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