Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

7 de junho de 2015

Luis de Camões: Transforma-se o amador em cousa amada


Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co’a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia;
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.


Luis de Camões
Portugal 1524-1580
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Helder Moura Pereira: Saudemos as vezes sucessivas

Saudemos as vezes sucessivas.
Brindemos à glória potente.
passas-me, por favor, o pente?
Vou fingir que sou das marés vivas.

Orgasmos que começam na ponta
dos pés e desabam nos últimos cabelos
da tua cabeça tonta.
Será que convém tê-los?

Tanta vez querendo, é normal.
Se nos fartarmos não faz mal.
O mal dos outros não é o nosso mal.

Estás com febre e eu ponho-te um pano
na testa e nos olhos. Amor sonhado,
podes ser quem quiseres todo o ano
e falar ao jantar enquanto eu como calado.


Hélder Moura Pereira
Portugal 1949
in A tua cara não me é estranha – Assírio & Alvim

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Helder Moura Pereira: Tu para quem qualquer cão

Tu para quem qualquer cão
é lobo, qualquer gato
é tigre, transformas-te
em lobo e tigre mal chegas
à cama. O fenómeno chegou
a suscitar debates domésticos
dos que se prolongam pela noite
dentro e aventou-se até
a hipótese de uma ida ao médico
da cabeça. Não chegou a ser
preciso, uma vez que a cama
era suficiente divã: não havia
palavras, só latidos, miados
e uma gritaria desmedida.


Hélder Moura Pereira
Portugal 1949
in A tua cara não me é estranha 
Editor: Assírio & Alvim
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Helder Moura Pereira: Quando à cara te subia o calor





Quando à cara te subia o calor
eu dizia não faz mal tu és mesmo assim,
não te envergonhes meu coração tambor.

E quando o teu calor descia outra vez
até ao ponto fundamental que mais interessa
dava graças a Deus que fosses lava.

Quatro vezes seguidas gritava amor
enquanto esperava que nada tivesse fim,
faz de nós quatro pernas, meu coração tambor.

O teu calor me aquecia, português
mal acabavas ficavas logo com pressa
de voltar a atear o fogo que nos desagrava.


Hélder Moura Pereira
Portugal 1949
in A tua cara não me é estranha 
Editor: Assírio & Alvim
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Helder Moura Pereira: De poder se tratava…



De poder se tratava caído aos pés
de uma luz cintilante, subia por ali
acima até graciosos e escuros sinais.

Quis abraçar-te, meti as mãos pelos pés
mas não te importaste – foi mesmo ali.
Quero mais, quero mais desses sinais.

Aos tombos, sem norte, trocar os pés
e lembras-te que te tocaram precisamente ali.
Num sitio onde não havia sinais.


Helder Moura Pereira
Portugal 1949
in A tua cara não me é estranha – 
Editor: Assírio & Alvim
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David Mourão-Ferreira: Paisagem

Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exacto.

Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.

E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)


David Mourão-Ferreira
Portugal (Lisboa) 1927-1996
in Obra Poética 
Editor: Editorial Presença 
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David Mourão-Ferreira: Outono


Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono…Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará…)

E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo…

Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto…

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo…?

                         Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.


David Mourão-Ferreira
Portugal (Lisboa) 1927-1996
in Obra Poética
Editor: Editorial Presença
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6 de junho de 2015

David Mourão-Ferreira: Seios


                          Fechando os olhos, eram rosas
castas e densas, por abrir.
líquidas pétalas nervosas
sentiam-se, no fundo, estremecer.

Lagoas, nuvens, lá por trás
Da superfície cariciada?
─ E a minha vida se desfaz
Na saudade de  fontes afastadas.


David Mourão-Ferreira
Portugal (Lisboa) 1927-1996
in Obra Poética
Editor: Editorial Presença
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David Mourão-Ferreira: Ladainha na Horizontal

Como se fossem jangadas
desmanteladas,
vogam no mar da memória
as camas da minha vida ...
Tanta cama! Tanta história!
Tanta cama numa vida!
Grabatos, leitos, divãs,
a tarimba do quartel;
e no frio das manhãs
lívidas camas de hotel ..
Ei-Ias vogando as jangadas
desmanteladas,
todas cobertas de escamas
e do sal do mar da vida ...
Tanta cama! Tantas camas!
Tanta cama numa vida!
Já os lençóis amarrados
tocam no centro da Terra
(que o reino dos desesperados
fica no centro da Terra!)
e os cobertores empilhados
são monte que não se alcança!
Só as tábuas das jangadas
desmanteladas
boiam no mar da lembrança
e no remorso da vida ...
Homem sou. Já fui criança.
Tanta cama numa vida!
Nem vão ao fundo as de ferro,
nem ao céu as de dossel. ..
Lembro-vos, camas de ferro
de internato e de bordel,
gaiolas da adolescência,
ginásios do amor venal!
Barras fixas. Imprudência.
Sem rede, o salto mortal
pra fora da adolescência ...
E confundem-se as jangadas
desmanteladas
no mar da reminiscência ...
Onde estás, ó minha vida?
Sono. Volúpia. Doença.
Tanta cama numa vida!
E recordo-vos, tão vagas,
vós que viestes depois,
ó camas transfiguradas
das furtivas ligações!
Camas dos fins-de-semana,
beliches da beira-mar ...
Oh! que arrojadas gincanas
sobre os altos espaldares!
E as camas das noites brancas,
tão brancas!, tão tumulares!
Cigarros. Beijos. Uísque.
Ó fragílimas jangadas,
desmanteladas ... !
E nelas há quem se arrisque
sobre os pélagos da vida!
Cigarros. Beijos. Uísque.
Tanta cama numa vida!
E o amor? Tálamo, templo,
conjugação conjugal ..
O amor: tálamo, templo
- ilha num mar tropical.
Mas ao redor, insistentes,
bramam as ondas do mar,
do mar da memória ardente,
eternamente a bramar ...
Já no frio dos lençóis
há prelúdios da mortalha;
e, nas camas, sugestões
fúnebres, torvas, pesadas ...

- Sede, por fim, ó jangadas
desmanteladas,
a ponte do esquecimento
prà outra margem da Vida!
Sede flecha, monumento,
ponte aérea sobre o Tempo,
redentora madrugada!
Se o não fordes, sereis nada,
jangadas
desmanteladas,
todas roídas de escamas
da margem de cá da Vida ...
Pobres camas! Tristes camas!
Tanta cama numa vida!
 

David Mourão-Ferreira
Portugal (Lisboa) 1927-1996
in Obra Poética
Editor: Editorial Presença
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David Mourão Ferreira: Nocturno


O desenho redondo do teu seio
Tornava-te mais cálida, mais nua
Quando eu pensava nele...Imaginei-o,
À beira-mar, de noite, havendo lua...

Talvez a espuma, vindo, conseguisse
Ornar-te o busto de uma renda leve
E a lua, ao ver-te nua, descobrisse,
Em ti, a branca irmã que nunca teve...

Pelo que no teu colo há de suspenso,
Te supunham as ondas uma delas...
Todo o teu corpo, iluminado, tenso,
Era um convite lúcido às estrelas....

Imaginei-te assim à beira-mar,
Só porque o nosso quarto era tão estreito...
- E, sonolento, deixo-me afogar
No desenho redondo do teu peito... 


David Mourão-Ferreira
Portugal » Lisboa 1927-1996
in Obra Poética
Editor: Editorial Presença
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2 de junho de 2015

Mia Couto: Sou feliz só por preguiça






SOU FELIZ SÓ POR PREGUIÇA
A INFELICIDADE DÁ UMA
TRABALHEIRA PIOR QUE
DOENÇA



Mia Couto
Moçambique » Beira 1955
in Mar me quer
Editor: Editorial Caminho
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Eugénio de Andrade: Corpo habitado




Corpo num horizonte de água,
corpo aberto
à lenta embriaguez dos dedos,
corpo defendido
pelo fulgor das maçãs,
rendido de colina em colina,
corpo amorosamente humedecido
pelo sol dócil da língua.

Corpo com gosto a erva rasa
de secreto jardim,
corpo onde entro em casa,
corpo onde me deito
para sugar o silêncio,
ouvir
o rumor das espigas,
respirar
a doçura escuríssima das silvas.

Corpo de mil bocas,
e todas fulvas de alegria,
todas para sorver,
todas para morder até que um grito
irrompa das entranhas,
e suba às torres,
e suplique um punhal.

Corpo para entregar às lágrimas.
Corpo para morrer.

Corpo para beber até ao fim –
meu oceano breve
e branco,
minha secreta embarcação,
meu vento favorável,
minha vária, sempre incerta
navegação.



Eugénio de Andrade
Portugal » Castelo Branco 1923-2005
in Obscuro Dominio
Editor: Assirio & Alvim
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Wallace Stevens: A mulher à luz do sol

É apenas que este calor e este movimento são como
O movimento e o calor de uma mulher

Não é que haja no ar alguma imagem,
Nem o fim nem o princípio de uma forma:

Há o vazio. Mas a mulher em oiro puro
Queima-nos com o roçar do seu vestido

E uma dispersa abundância de ser,
Mais deprimida por aquilo que ela é –

Porque ela é desencarnada,
Transportando o cheiro dos campos estivais,

Mostrando o taciturno e no entanto indiferente,
Invisivelmente nítido, o único amor!



Wallace Stevens
USA » Reading, Pensilvânia 1879-1955
in Antologia
Editor: Relógio D’água
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Daniel Costa-Lourenço: Jardim Secreto (perfume)






Quando finalmente adormecer,
Será na tarde que chegará solta, indolente, de pés descalços
                                                                           (sobre a relva,      
De lábios doces por experimentar,
Sem vestígios de nós os dois e todo o mundo, sedutor,
Num abraço de juramento, de corpos estendidos e mãos
                 (tateando o espaço perfumado de fruta fresca.
É domingo, és tu o jardim secreto desenhado a sonhos,
Que não chegam mas torturam o lusco-fusco dos meus
                                                                              (olhos,
Semi-cerrados, inquietos, ansiosos.
És mais música, menos poema, voz de toda a insolência.
Uma consolação aguardada, evidente e íntima,
Um desejo indomável que não deixa vestígio visível nem
                                                (sopro morno sobre a pele.
Acorda-me.
Estes não são dias como os outros e quando ceder ao
                                                                  (pôr-do-sol,
Tudo desaparecerá sobre o silêncio de uma floresta
                                                   (aguardando o fogo.
Mas tu não. Tu ficas.
Tu ficas e guardas o sol para quando eu não quiser
mais chuva.


Daniel Costa-Lourenço
Portugal » Lisboa 1976
in Viajantes
Editor: Livros de Ontem
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