Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

21 de junho de 2015

Se meu desejo só é sempre ver-vos: António Ferreira


Se meu desejo só é sempre ver-vos,
Que causará, senhora, que em vos vendo
Assim me encolho logo, e arrependo,
Que folgaria então poder esquecer-vos?

Se minha glória só é sempre ter-vos
No pensamento meu, porque em querendo
Cuidar em vós, se vai entristecendo?
Nem ousa meu esp’rito em si deter-vos?

Se por vós só a vida estimo, e quero,
Como por vós a morte só desejo?
Quem achará em tais contrários meios?

Não sei entender o que em mim mesmo vejo,
Mas que tudo é amor, entendo, e creio,
E no que entendo, e creio, nisso espero.


António Ferreira
(Portugal 1528-1569)
in Os dias do Amor
photo by Google

Francisco Rodrigues Lobo: Coração, olha o que queres


VOLTA

Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...

MOTE

Tão tirana e desigual
Sustentam sempre a vontade,
Que a quem lhes quer de verdade
Confessam que querem mal;
Se Amor para elas não val,
Coração, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...

 
Se alguma tem afeição
Há-de ser a quem lha nega,
Porque nenhuma se entrega
Fora desta condição;
Não lhes queiras, coração,
E senão, olha o que queres:
Que mulheres, são mulheres...

 
São tais, que é melhor partido
Para obrigá-las e tê-las,
Ir sempre fugindo delas,
Que andar por elas perdido;
E pois o tens conhecido,
Coração, que mais lhe queres?
Que, em fim, todas são mulheres!




 
Francisco Rodrigues Lobo
Portugal 1579-1621
photo by Google

7 de junho de 2015

Francisco Rodrigues Lobo: Que amor sigo? Que busco? Que desejo?


Que amor sigo? Que busco? Que desejo?
Que enleo é este vão da fantasia?
Que tive? Que perdi? Quem me queria?
Quem me faz guerra? Contra quem pelejo?

Foi por encantamento o meu desejo,
e por sombra passou minha alegria;
mostrou-me Amor, dormindo, o que não via,
e eu ceguei do que vi, pois já não vejo.

Fez à sua medida o pensamento
aquela estranha e nova fermosura
e aquele parecer quase divino.

Ou imaginação, sombra ou figura,
é certo e verdadeiro meu tormento:
Eu morro do que vi, do que imagino.


Francisco Rodrigues Lobo
Portugal 1580-1622
In Os dias do Amor 
Recolha e Selecção Inês Ramos
Editor: Ministério dos Livros
photo by Google









CRISFAL: Cristovão Falcão


I
Antre Sintra, a mui prezada,
e serra de Ribatejo
que Arrábeda é chamada,
perto donde o rio Tejo
se mete n'água salgada,
houve um pastor e pastora,
que com tanto amor se amarom
como males lhe causarom
este bem, que nunca fora,
pois foi o que não cuidarom.

II
A ela chamavam Maria
e ao pastor Crisfal,
ao qual, de dia em dia,
o bem se tornou em mal,
que ele tam mal merecia.
Sendo de pouca idade,
não se ver tanto sentiam
que o dia que não se viam,
se via na saudade
o que ambos se queriam.

III
Algüas horas falavam,
andando o gado pascendo;
e então se apascentavam
os olhos, que, em se vendo,
mais famintos lhe ficavam.
E com quanto era Maria
piquena e, tinha cuidado
de guardar milhor o gado
o que lhe Crisfal dezia;
mas, em fim, foi mal guardado;

IV
Que, depois de assi viver
nesta vida e neste amor,
depois de alcançado ter
maior bem pera mor dor,
em fim se houve de saber
por Joana, outra pastora,
que a Crisfal queria bem;
(mas o bem que de tal vem
não ser bem maior bem fora,
por não ser mal a ninguém).

V
A qual, logo aquele dia
que soube de seus amores,
aos parentes de Maria
fez certos e sabedores
de tudo quanto sabia.
Crisfal não era então
dos bens do mundo abastado
tanto como do cuidado;
que, por curar da paixão,
não curava do seu gado.

VI
E como em a baixeza
do sangue q e pensamento
é certa esta certeza –
cuidar que o mericimento
está só em ter riqueza –
enquerirom que teriam
e do amor não curarom;
em que bem se descontarom
riquezas, se faleciam,
por males que sobejarom.

VII
Então, descontentes disto,
levarom-na a longes terras
esconderom-na entre üas serras,
onde o sol não era e visto
e a Crisfal deixarom guerras.
Além da dor principal,
pera mor pena lhe dar,
puserom-na em lugar
mau para dizer seu mal,
mas bom pera o chorar.

VIII
Ali os dias passava
em mágoas, da alma saídas,
dizer a quem longe estava,
e chorava por perdidas
as horas que não chorava.
Em vale mui solitário e
sombrio e saudoso,
send'o monte temeroso
pera o choro necessário
pera a vida mui danoso,

IX
Dizer o que ele sentia,
em que queira, não me atrevo,
nem o chorar que fazia;
mas as palavras que escrevo
são as que ele dezia.
Ali sobre üa ribeira
de mui alta penedia,
donde a água d'alto caía,
dizendo desta maneira
estava a noite e o dia:

X
«Os tempos mudam ventura
bem o sei, pelo passar;
mas, por minha gram tristura,
nenhuns puderam mudar
a minha desaventura.
Não mudam tempos nem anos
ao triste a tristeza;
antes tenho por certeza
que o longo uso dos danos
se converte em natureza.

XI
Coitado de mim, cuitado
pois meu mal não se amansa
com choro nem com cuidado!
Quem diz que o chorar descansa
é de ter pouco chorado;
que, quando as lágrimas são
por igual da causa delas,
virá descanso por elas;
mas como descansar hão
pois que são mais as querelas?

XII
Com tudo, olhos de quem
não vive fazendo al,
chorai mais que os de ninguém,
que o que é para maior mal
tenho já para maior bem.
Lágrimas, manso e manso,
prossigam em seu ofício;
que não façam beneficio :
não servindo de descanso,
servirão de sacrefício.

XIII
Minhas lágrimas cansadas,
sem descanso nem folgança,
a minha triste lembrança
vos tem tam aviventadas
como morta a esperança.
Correi de toda vontade,
que esta vos não faltará.
Mas isto como será?
Pedi-la-ei à saudade,
e a saudade ma dará.

XIV
Todos os contentamentos
da minha vida passarom,
e em fim não me ficarom
senão descontentamentos
que de mim se contentarom.
Destes, polo meu pecado
(inda que nunca pequei
a e quem amo e amarei),
nunca desacompanhado
me vejo nem me verei.

XV
Faz-me esta desconfiança
ver meu remédio tardar,
e já agora esperar
não ousa minha esperança,
por me mais não magoar.
Se por isto desmereço,
dê-se-me a culpa assim
e seja só com a fim,
que há muito que me conheço
aborrecido de mim.

XVI
Meu coração, vós abristes
caminho a meus cuidados,
pera virem a ser banhados
na água de meus olhos tristes,
tristes, mal galardoados.
Necessário é que vamos
algum remédio buscar
para se a vida acabar .
est'é bem que dessejamos,
est'é nosso dessejar.

XVII
Iremos pela estrada
por onde os tristes vão
porque nela, por rezão
deve ser de nós achada,
achada consolação.
Sobir-me-ei ao pensamento
qu'é alto; de ali verei
verei eu se poderei
ver algum contentamento
de quantos perdidos hei.

XVIII
Mas o que poderá ver
quem já da vista cegou?
Porque quem me a mim levou
meu alongado prazer
nenhum bem ver me deixou.
Deixou-me em escuridade
um mal sobre outro sobejo,
pelo que triste me vejo
tam longe da liberdade
como do bem que dessejo.

XIX
Verei a vida, que em vida
bem vista tanto aborrece
aborrece a quem padece
tristeza mal merecida,
que minha fé mal merece.
Levarom-me toda a glória,
com quanto bem dessejei,
dessejei e alcancei;
ficou-me só a memória,
por dor, de quanto passei.

XX
Lembrança do bem passado,
que não devera passar,
esta me há-de matar;
dá-me tal dor o cuidado,
que se não pode cuidar.
Nada, se não for a morte,
me dará contentamento:
segundo sei do que sento,
não sento prazer tão forte
que conforte meu tormento.

(...)

Cristovão Falcão
Portugal 1512-1557?
in Antologia poesia portuguesa
photo by Google

Busque Amor novas artes, novo engenho: Luis de Camões

 
Busque Amor novas artes, novo engenho
Para matar-me, e novas esquivanças,
Que não pode tirar-me as esperanças,
Que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
Vede que perigosas seguranças!
Que não temo contrastes nem mudanças,
Andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, enquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal que mata e não se vê,

Que dias há que na alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê.


Luis de Camões
Portugal 1524-1580
photo by Google

Luis de Camões: Transforma-se o amador em cousa amada


Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co’a alma minha se conforma,

Está no pensamento como idéia;
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.


Luis de Camões
Portugal 1524-1580
photo by Google

Helder Moura Pereira: Saudemos as vezes sucessivas

Saudemos as vezes sucessivas.
Brindemos à glória potente.
passas-me, por favor, o pente?
Vou fingir que sou das marés vivas.

Orgasmos que começam na ponta
dos pés e desabam nos últimos cabelos
da tua cabeça tonta.
Será que convém tê-los?

Tanta vez querendo, é normal.
Se nos fartarmos não faz mal.
O mal dos outros não é o nosso mal.

Estás com febre e eu ponho-te um pano
na testa e nos olhos. Amor sonhado,
podes ser quem quiseres todo o ano
e falar ao jantar enquanto eu como calado.


Hélder Moura Pereira
Portugal 1949
in A tua cara não me é estranha – Assírio & Alvim

photo by Google

Helder Moura Pereira: Tu para quem qualquer cão

Tu para quem qualquer cão
é lobo, qualquer gato
é tigre, transformas-te
em lobo e tigre mal chegas
à cama. O fenómeno chegou
a suscitar debates domésticos
dos que se prolongam pela noite
dentro e aventou-se até
a hipótese de uma ida ao médico
da cabeça. Não chegou a ser
preciso, uma vez que a cama
era suficiente divã: não havia
palavras, só latidos, miados
e uma gritaria desmedida.


Hélder Moura Pereira
Portugal 1949
in A tua cara não me é estranha 
Editor: Assírio & Alvim
photo by Google

Helder Moura Pereira: Quando à cara te subia o calor





Quando à cara te subia o calor
eu dizia não faz mal tu és mesmo assim,
não te envergonhes meu coração tambor.

E quando o teu calor descia outra vez
até ao ponto fundamental que mais interessa
dava graças a Deus que fosses lava.

Quatro vezes seguidas gritava amor
enquanto esperava que nada tivesse fim,
faz de nós quatro pernas, meu coração tambor.

O teu calor me aquecia, português
mal acabavas ficavas logo com pressa
de voltar a atear o fogo que nos desagrava.


Hélder Moura Pereira
Portugal 1949
in A tua cara não me é estranha 
Editor: Assírio & Alvim
photo by Google

Helder Moura Pereira: De poder se tratava…



De poder se tratava caído aos pés
de uma luz cintilante, subia por ali
acima até graciosos e escuros sinais.

Quis abraçar-te, meti as mãos pelos pés
mas não te importaste – foi mesmo ali.
Quero mais, quero mais desses sinais.

Aos tombos, sem norte, trocar os pés
e lembras-te que te tocaram precisamente ali.
Num sitio onde não havia sinais.


Helder Moura Pereira
Portugal 1949
in A tua cara não me é estranha – 
Editor: Assírio & Alvim
photo by Google