Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

23 de agosto de 2015

Gil Vicente: Agravos de colopêndio

Pois Amor o quis assi,
que meu mal tanto me dura,
não tardes triste ventura,
que a dor não se doi de mi,
e sem ti não tenho cura.

Foges-me, sabendo certo
que passo perigo marinho,
e sem ti vou tão deserto
que, quando cuido que acerto,
vou mais fora de caminho.
Porque tais carreiras sigo,
e com tal dita naci
nesta vida, em que não vivo,
que eu cuido que estou comigo,
e ando fora de mi.

Quando falo, estou calado;
quando estou, entonces ando;
quando ando, estou quedado;
quando durmo, estou acordado;
quando acordo, estou sonhando;
quando chamo, então respondo;
quando choro, entonces rio;
quando me queimo, hei frio;
quando me mostro, me escondo;
quando espero, desconfio.

Não sei se sei o que digo,
que cousa certa não acerto;
se fujo de meu perigo,
cada vez estou mais perto
de ter mor guerra comigo.
Prometem-me uns vãos cuidados
mil mundos favorecidos,
com que serão descansados;
e eu acho-os todos mudados
em outros mundos perdidos.

Já não ouso de cuidar,
nem posso estar sem cuidado;
mato-me por me matar,

onde estou não posso estar
sem estar desesperado.
Parece-me quanto vejo
Tudo triste com rezão:
cousas que não vem nem vão
essas são as que desejo,
e tôdas pena me dão.

Eu remédio não no espero,
porque aquela, em que me fundo,
pera mi, que tanto a quero,
tem o coração de Nero
pera me tirar do mundo.


Gil Vicente
Portugal 1465-1536
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António Botto: Anoitece devagar

Anoitece devagar.

No terreiro,
Vão-se os pares
Ajustando para a dança.

─ Quem é que baila comigo?

Bailarei eu!,
Grita uma linda Maria
De rosto largo e trigueiro.

E o harmónio
Murmurando,
Dá início ao movimento
Que é todo ligeiro e brando.

Agora ─
Apertam-se mais
Os corpos
Nas voltas lentas e bruscas
Da toada musical.

Vá de roda, quem mais ama?
Quem mais quer ao seu benzinho?
Quem mais ama mais padece;
Eu hei-de amar poucachinho.

Ao redor do bailarico
Já se vai juntando gente
Que andava um pouco dispersa;
E a minha linda cachopa,
Balanceada,
Contente,
Parece dada a um sonho...
─ Nem eu sei o que ela sente!

Paro. Mas o meu braço descansa
Nas espáduas do meu par.

A noite cobriu
De sombras a natureza.

Ah!, se eu pudesse cantar
─ E dar luz aos corações!

Fico a pensar e a olhar...

─ Já se acenderam balões!

Foi aquele moço! Aquele
Que traz um cravo na boca
─ Escarlate
Como a cinta
Com que ele envolve os quadris.

E a olhá-lo me ponho
Na graça quente e flexível
Dos seus aspectos viris.

Ai, a vida!,
É tão enganosa e fria,
Tão outra da que nós temos,
Que é bem melhor desejá-la
Como coisa que flutua
Para lá da que nós vemos...

Vamos descansar ali...
Deixemos...
─ Digo ao par que me acompanha.

E ouvindo a voz do harmónio,
E contemplando
Esvaído
Os pares em desalinho,
Sinto a mesma sensação
De ter bebido algum vinho.



António Botto
Portugal (Concavada, Abrantes) 1897
Brasil (Rio de Janeiro) 1959
in Canções e outros poemas
Editor: Edições  Quasi
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António Botto: Não me peças mais canções

Se passares pelo adro
No dia do meu enterro,
Dize à terra que não coma
Os anéis do meu cabelo.

Já não digo que viesses
Cobrir de rosas meu rosto,
Ou que num choro dissesses
A qualquer do teu desgosto;

Nem te lembro que beijasses
Meu corpo delgado e belo,
Mas que sempre me guardasses
Os anéis do meu cabelo.

Não me peças mais canções
Porque a cantar vou sofrendo;
Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.

Se a minha voz conseguisse
Dissuadir essa frieza
E a tua boca sorrisse !
Mas sóbria por natureza

Não a posso renovar
E o brilho vai-se perdendo…
– Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.



António Botto
Portugal, Concavada 1897  
Brasil, Rio de Janeiro 1959
in Canções e outros poemas
Editor: Edições Quasi
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16 de agosto de 2015

António Feijó: Hino à Morte

























Tenho às vezes sentido o chocar dos teus ossos
E o vento da tua asa os meus lábios roçar;
Mas da tua presença o rasto de destroços
Nunca de susto fez meu coração parar.

Nunca, espanto ou receio, ao meu ânimo trouxe
Esse aspecto de horror com que tudo apavoras,
Nas tuas mãos erguendo a inexorável Fouce
E a ampulheta em que vais pulverizando as horas.

Sei que andas, como sombra, a seguir os meus passos,                                                                
Tão próxima de mim que te respiro o alento,
— Prestes como uma noiva a estreitar-me em teus braços,
E a arrastar-me contigo ao teu leito sangrento...

Que importa? Do teu seio a noite que amedronta,
Para mim não é mais que o refluxo da Vida,
Noite da noite, donde esplêndida desponta
A aurora espiritual da Terra Prometida.

A Alma volta à Luz; sai desse hiato de sombra,
Como o insecto da larva. A Morte que me aterra,
Essa que tanta vez o meu ânimo assombra,
Não és tu, com a paz do teu oásis te terra!

Quantas vezes, na angústia, o sofrimento invoca
O teu suave dormir sob a leiva de flores!...
A Morte, que sem dó me tortura e sufoca,
É outra, — essa que em nós cava sulcos de dores.

Morte que, sem piedade, uma a uma arrebata,
Como um tufão que passa, as nossas afeições,
E, deixando-nos sós, lentamente nos mata,
Abrindo-lhes a cova em nossos corações.

Parêntesis de sombra entre o poente e a alvorada,
Morrer é ter vivido, é renascer... O horror
Da Morte, o horror que gera a consciência do Nada,
Quem vive é que lhe sente o aflitivo travor.

Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos,
Seres que um grande afecto à nossa vida enlaça,
— Somos nós que a sua morte implacável sofremos,
É em nós, é em nós que a sua morte se passa!

Só então, da tua asa a sombra formidável,
Anjo negro da Morte! aos meus olhos parece
Uma noite sem fim, uma noite insondável,
Noite de soledade em que nunca amanhece...

Só então, sucumbindo à dor que me fulmina,
A mim mesmo pergunto, entre espanto e receio,
Se a tua asa não é dum Anjo de rapina,
Se eu poderei em paz repoisar no teu seio!

Inflexível e cego, o poder do teu ceptro
Só então me desvaira em cruel agonia,
Ao ver com que presteza ele faz um espectro
De alguém, que há pouco ainda, ao pé de nós sorria.

Mas se nessa tortura, exausto o pensamento,
Para ti, face a face, ergo os olhos contrito,
Passa diante de mim, como um deslumbramento
Constelando o teu manto, a visão do Infinito.

E de novo, ao sair dessa angústia demente,
Sinto bem que tu és, para toda a amargura,
A Eutanásia serena em cujo olhar clemente
Arde a chama em que toda a escória se depura.

É pela tua mão, feito um rasgão na treva,
Que a Alma se liberta, e de esplendor vestida
— Borboleta celeste, ébria de Deus, — se eleva
Para a luz imortal, Luz do Amor, Luz da Vida!




António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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António Feijó: Hino à dor






















Sorri com mais doçura a boca de quem sofre,
Embora amargue o fel que os seus lábios beberam;
É mais ardente o olhar onde, como um aljofre,
A Dor se condensou e as lágrimas correram.

Soa, como se um beijo ou uma carícia fosse,
A voz que a soluçar na Desgraça aprendeu;
E não há para nós consolação mais doce
Que o regaço de quem muito amou e sofreu.

Voz, que jamais vibrou num soluço de mágoa,
Ao nosso coração nunca pode chegar...
Mas o pranto, ao cair duns olhos rasos de água,
Torna mais penetrante e mais profundo o olhar.

Lábio, que só bebeu na fonte da Alegria,
É frio, como o olhar de quem nunca chorou;
A Bondade é uma flor que se alimenta e cria
Dos resíduos que a Dor no coração deixou.

Em tudo quanto existe o Sofrimento imprime
Uma augusta expressão... mesmo a Suprema Graça,
Dando aos versos do Poeta esse esmalte sublime
Que torna imorredoira a Inspiração que passa.

É por isso que a Dor, sem trégua nem guarida,
Dor sem resignação, Dor de estóico ou de santo,
Só de a vermos passar no tumulto da Vida
Deixa os olhos da gente enublados de pranto.




António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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Sandra Cisneros: Dulzura

Faz amor comigo em Espanhol.
Não com essa outra língua.
Quero-te juntito a mi,
terno como a linguagem
cantarolada por bebés.
Quero ser assim
embalada, mi bien
querido, assim amada.

Quero-te dentro
da boca do meu coração,
dentro da harpa dos meus pulsos,
a doce carne da manga,
no ouro que baloiça
nas minhas orelhas e pescoço.

Diz o meu nome. Di-lo.
Do modo que é suposto dizê-lo.
Quero saber que já te conhecia
mesmo antes de te conhecer



Sandra Cisneros
EUA, Chicago, Illinois 1954
in Qual é a minha ou a tua língua
Editor: Assirio & Alvim
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Joaquim Pessoa: Amei demais


























Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais
todas as coisas que na vida eu emprenhei.
Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais,
como as tais coisas nas quais nunca pensei.

Demais foram as sombras. Mais e mais.
Cada vez mais ardentes as sombras que tirei
do imenso mar de sol, sem praia ou cais,
de onde parti sem saber por que embarquei.

Amei demais. Sempre demais. E o que dei
está espalhado pelos sítios onde vais
e pelos anos longos, longos, que passei

à procura de ti. De mim. De ninguém mais.
E os milhares de versos que rasguei
antes de ti, eram perfeitos. Mas banais.



Joaquim Pessoa
Portugal, Barreiro 1948
in Ano Comum
Editor: Litexa
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António Botto: Porque me negas um beijo?


Porque me negas um beijo?

Teu hostil retraimento
Amolece os restos do meu alento
Para a vida
E aumenta o meu desejo...

Porque me negas um beijo,
Linda boca,
─ Flor mordida?

A minha tristeza
Provém do teu hostil retraimento
E também
Do incerto e trágico destino
Que nós temos;
Desse mistério insondável
Que nos rodeia
E do pouco que nós somos
Na eterna corrente das coisas.

Porque me negas um beijo?



António Botto
Portugal (Concavada, Abrantes) 1897
Brasil (Rio de Janeiro) 1959
in Canções e outros poemas
Editor: Edições  Quasi
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António Botto: Quem não ama não vive

Já na minha alma se apagam
As alegrias que eu tive;
Só quem ama tem tristezas,
Mas quem não ama não vive.

Andam pétalas e folhas
Bailando no ar sombrio;
E as lágrimas, dos meus olhos,
Vão correndo ao desafio.

Em tudo vejo Saudades!
A terra parece morta.
- Ó vento que tudo levas,
Não venhas á minha porta!

E as minhas rosas vermelhas,
As rosas, no meu jardim,
Parecem, assim caídas,
Restos de um grande festim!

Meu coração desgraçado,
Bebe ainda mais licor!
- Que importa morrer amando,
Que importa morrer d'amor!

E vem ouvir bem-amado
Senhor que eu nunca mais vi:
- Morro mas levo comigo
Alguma cousa de ti.



António Botto
Portugal, Concavada 1897 – Brasil, Rio de Janeiro 1959
 in Canções e outros poemas
Editor: Edições Quasi
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António Botto: A noite suavemente descia

A noite
Suavemente descia;
E eu nos teus braços deitado
Até sonhei que morria.

E via
Goivos e cravos aos molhos;
Um Cristo crucificado;
Nos teus olhos,
Suavidade e frieza;
Damasco roxo, cinzento,
Rendas, veludos puídos,
Perfumes caros entornados,
Rumor de vento em surdina,
Incenso, rezas, brocados;
Penumbra, sinos dobrando;
Velas ardendo;
Guitarras, soluços, pragas,
E eu...devagar morrendo.

O teu rosto moreninho,
Eu achei-o mais formoso,
Mas, sem lagrimas, enxuto;
E o teu corpo delgado,
O teu corpo gracioso,
Estava todo coberto de luto.

Depois, ansiosamente,
Procurei a tua boca,
A tua boca sadia;
Beijámo-nos doidamente...
- Era dia!

E os nossos corpos unidos,
Como corpos sem sentidos,
No chão rolaram... e assim ficaram!...



António Botto
Portugal, Concavada 1897
Brasil, Rio de Janeiro 1959
 in As canções de António Botto
Editor: Editorial Presença
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Al Berto: Pernoitas em Mim



pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória... amas
ou finges morrer

pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas

é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves

já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes




Al Berto
Portugal, Coimbra 1948 
Lisboa 1997
in O Medo
Editor: Assirio & Alvim
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António Botto: De saudades vou morrendo

De Saudades vou morrendo
E na morte vou pensando:
Meu amor, por que partiste,
Sem me dizer até quando?
Na minha boca tão linda,
Ó alegrias cantai!
Mas, quem se lembra d'um louco?
- Enchei-vos d'agua, meus olhos,
Enchei-vos d'agua, chorai!



António Botto
Portugal, Concavada 1897 
Brasil, Rio de Janeiro 1959
in Canções e outros poemas
Editor: Edições Quasi
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António Botto: Se me deixares, eu digo

Se me deixares, eu digo
O contrário a toda a gente;
E, neste mundo de enganos,
Fala verdade quem mente.

Tu dizes que a minha boca
Já não acorda desejos,
Já não aquece outra boca,
Já não merece os teus beijos;

Mas, tem cuidado comigo,
Não procures ser ausente:
- Se me deixares, eu digo
O contrário a toda a gente.



António Botto
Portugal, Concavada 1897
Brasil, Rio de Janeiro 1959
in As canções de António Botto
Editor: Editorial Presença
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3 de julho de 2015

Provençal, Anónimo: Balada (Língua d’Oc)

Sou graciosa, por isso estou em grande coita
por meu marido que não quero nem desejo 
          
E dir-vos-ei porque estou apaixonada         

Sou graciosa…
Pois sou pequena menina e moça

Sou graciosa…
E devia ter um marido que me desse alegria
Com quem sempre pudesse brincar e rir

Sou graciosa…
Que Deus me salve se estou apaixonada por este
De o amar não tenho nenhum desejo
Antes me vem tal vergonha quando o vejo
Que peço à Morte que o mate cedo.

Mas a uma coisa estou bem decidida
Pois me compensa o amor do meu amigo
Na doce esperança a quem me entreguei
Choro e suspiro quando não posso vê-lo

E dir-vos-ei que estou decidida:
Pois meu amigo me ama há tanto tempo
Desde já lhe será meu amor concedido
E a doce esperança que tanto amo e desejo.

Com este som faço uma bela balada
E peço a todos que seja longe cantada
E que a cante toda a dama ensinada
Sobre o amigo que eu tanto amo e desejo.

Sou graciosa e estou em grande coita
por meu marido que não quero nem desejo.



Anónimo
Provençal, Séc. XIII
Trad. Irene Freire Nunes
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim

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Isobel, Condessa de Argyll: Os Amantes Apartados


Eu sei de um jovem que é meu desejo.
Oh Rei dos Reis ! Fazei que ele venha sem mais demora.
Eu só o quero bem enlaçado contra o meu seio
Com o seu corpo bem apoiado na minha pele.

Se a vida fosse como eu a quero
Longe de mim e eu longe dele nunca seríamos.
Sinais não vejo da sua chegada
E ele não sabe como eu o quero e é meu desejo.

No mundo não há maior tristeza que nós os dois
Pois o seu barco voga e navega longe de casa
No seu caminho do oriente; minha morada é ocidente.
Eu o desejo e ele me quer e a vida é desejos vãos.



Isobel, Condessa de Argyll
Cultura Celta Séc. XV
Trad. Irene Freire Nunes
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim

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Cultura Celta, Anónimo: Afasta de mim esses lábios


Guarda para ti esse teu beijo
Menina virgem dos dentes brancos!
Nesse teu beijo eu gosto não acho
Longe de mim guarda teus lábios.

Mais doce que o mel um beijo eu tive
De mulher casada que o deu por amor.
Até que se acabem o mundo e os dias
Beijo de gosto só esse terei; esse e não outro.

Até que a veja tal como é em sua pessoa
Por obra e graça do filho de Deus
Outras mulheres novas e velhas não hei-de amar
Pois que o seu beijo é como é, foi e será.


Anónimo
Cultura Celta Séc. XV/XVI
Trad. José Domingos Morais
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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2 de julho de 2015

Argélia: Canção da Cabília

 
Leve, aparece na dança –
e ninguém lhe sabe o nome.
Vai e vem entre os seus peitos
um amuleto de prata.

Mergulha fundo na dança.
Tilintam em seus artelhos
Muitas argolas de prata.

- Foi por ela que vendi
um pomar de macieiras.

Ela cai dentro da dança,
e abrem-se ao meio os cabelos.

- Foi por ela que vendi
o meu olival antigo.

Vai até ao centro da dança.
Cintila, vivo, um colar.

- Foi por ela que vendi
o meu campo de figueiras.

E no coração da dança
todo um sorriso enflora.

- Foi por ela que vendi
um milhão de laranjeiras.



Argélia
Séc. XVII?
Trad. Herberto Helder
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim

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