Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

23 de agosto de 2015

Egipto: O poder do Amor



(Irmã)
Vais-te embora por te lembrares da comida?
És um homem que anda atrás do ventre?
Sublevas-te por causa das vestimentas?
Comigo tenho eu panos.


Vais-te embora por teres fome?
Afastas-te por ter sede?
Toma os meus seios!
O que têm para ti transborda.




Egipto 1567-1085 a.C.
Trad. José Nunes Carreira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Robert Lowell: Marido e mulher





























Domesticados pelo Miltown, estamos deitados na cama da Mãe;
o sol, despontando em pinturas de guerra, tinge-nos de vermelho;
à plena luz do dia, as colunas doiradas da cama brilham,
abandonadas, quase dionisíacas.
As árvores estão finalmente verdes em Marlborough Street,
as flores desabrochando na nossa magnólia inflamam
a manhã com um branco mortífero de cinco dias.
Durante toda a noite segurei a tua mão,
como se tivesses
enfrentado pela quarta vez o reino dos loucos ─
o seu discurso banal, o seu olhar homicida ─
e me tivesses arrastado para casa vivo… Oh, minha Petite,
a mais lúcida de todas as criaturas de Deus, toda ela ainda ar e vigor:
estavas nos teus vinte anos, e eu,
com um copo na mão
e o coração na boca,
esvaziei os Rahvs no calor
de Greenwich Village, desmaiando a teus pés
demasiado agitado e tímido,
com uma expressão demasiado impassível para namorar,
enquanto o insistente entusiasmo
da tua invectiva feria o Sul tradicional.

Agora, doze anos depois, voltas as costas.
Sem sono, anichaste-te
à almofada como uma criança,
a tua tirada fora de moda ─
terna, rápida, implacável ─
irrompe como o Oceano Atlântico na minha cabeça.



Robert Lowell,
EUA, Boston 1917 – Nova Iorque 1978
in Aos Mortos da União e Outros Poemas
Editor: Assírio & Alvim
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António Feijó: Eu e Tu

















Dois! Eu e Tu, num ser indispensável! Como
Brasa e carvão, centelha e lume, oceano e areia,
Aspiram a formar um todo,--em cada assomo
A nossa aspiração mais violenta se ateia...

Como a onda e o vento, a lua e a noute, o orvalho e a selva
--O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noute,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva--
Cheio de ti, meu ser de eflúvios impregnou-te!

Como o lilás e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sede, o vinho onde tudo se esquece,
--Nós dois, de amor enchendo a noute do degredo,

Como partes de um todo, em amplexos supremos
Fundindo os corações no ardor que nos inflama,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,
Como se eu fosse o lume e tu fosses a chama...




António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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Daniel Camacho: Beijo

Um beijo despe a valentia,
afasta o medo que há em nós,
vagueia no desejo ardente que nos guia
que nos tira os pés do chão
e nos dá um nó na voz.
Um beijo afaga a alma incompleta
ampara as margens adormecidas na dor
penetra o íntimo amor que desperta
na pétala vadia de uma flor.
Um beijo rompe as ruas desertas
amansa o olhar que chora incerto
lambe as pingas da chuva e cava no pensamento
que rouba
 tempo ao tempo.
Um beijo adoça o vento leve que nos cobre o rosto
acorda a noite perdida de desgosto
e algures no meio do nada,
rompe uma estrada.



Daniel Camacho
Português nascido em Luanda, Angola no ano de 1978
in Os dias do amor
Editor: Ministério dos livros
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Carol Ann Dufy: Valentine


























Não uma rosa vermelha ou um coração de cetim.

Ofereço-te uma cebola.
É uma lua embrulhada em papel castanho.
Uma promessa de luz
como o cuidadoso despir do amor.

Aqui está.
Cegar-te-á com lágrimas
como um amante.
Fará do teu reflexo
uma trémula foto de dor.

Estou a tentar ser verdadeira.

Não uma carta engraçada ou uma quantidade de beijos.

Ofereço-te uma cebola.
Os seu intenso beijo permanecerá nos teus lábios,
possessivo e fiel
tal como nós.
enquanto continuarmos a ser.

Toma-a
os seus anéis de platina reduzem-se a um anel de noivado
se quiseres

Letal.
O seu cheiro vai agarrar-se-á aos teus dedos,
agarrar-se-á à tua faca.



Carol Ann Duffy
Reino Unido, Glasgow 1955
in Qual é a tua ou a minha língua?
Editor: Assirio & Alvim
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Cristina Maria da Costa: Elíptico o reduto da falta do teu sexo

Elíptico o reduto da falta do teu sexo

vazas a pele na trave do silêncio
geométrico o timbre
o vértice da falsa sinuosidade
branco sobre tom

a cor povoa a tua forma

vertes uma só palavra
estudo o teu corpo
desabitado
sob o aquoso olhar

aquieto o gesto
não te toco
compreendo-te melhor na incompletude

cicio a tua pele

fedes
mergulho em ti
e é tudo pele

engano-te
não durmo
memorizo-te
na distância indisputável do teu dormir

o óleo escorre sobre a mesa
chama-te coisas
toca a fértil origem

amanhece-nos o túrgido nevoeiro

(a campainha do 2º E está estragada
tocaste?
eu não te ouvi)

se partires diz
amei

se ficares diz
perdoei

o amor só sobrevive na pureza

(inédito)



Cristina Maria da Costa
Portugal, 1973
in Os dias do amor
Editor: Ministério dos livros
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Paul Éluard: L’amoureuse

Ela está de pé nas minhas pálpebras
com os dedos nos meus entrelaçados.
Ela cabe toda em minhas mãos,
ela tem a cor dos meus olhos
e desaparece na minha sombra
como uma pedra sobre o sol.

Ela tem sempre os olhos abertos
e não me deixa dormir.
Os sonhos dela à luz do dia
fazem os sóis evaporar-se,
fazem-me rir, chorar e rir,
falar sem ter nada a dizer.



Paul Éluard
França 1895-1952
in Qual é a tua ou a minha língua?
Editor: Assirio & Alvim
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Jaime Sabines: Não é que morra de amor, morro de ti



























Morro de ti, amor, de amor de ti,
da urgência da minha pele de ti,
da minha alma de ti e da minha boca
e do insuportável que sou sem ti.

Morro de ti e morro de mim, morro de ambos,
de nós, desse,
desgarrado, partido,
me morro, te morro, nos morremos.

Morremos no meu quarto em que estou só,
na minha calma em que faltas,
na rua onde o meu braço vai vazio,
no cinema e nos parques, nos eléctricos,
nos lugares onde o meu ombro serve de almofada à tua cabeça
e a minha mão a tua mão
e tudo isso te sei como eu mesmo.

Morremos no sítio que emprestei ao ar
para que estejas fora de mim
e no lugar onde o ar se acaba
quando te deito a minha pele por cima
e nos conhecemos em nós, separados do mundo,
ditosa, penetrada e também interminável.

Morremos, sabemo-lo, ignoram-no, nos morremos
entre os dois, agora, separados
de um para o outro, diariamente,
caindo-nos em múltiplas estátuas,
em gestos que não vemos
em nossas mãos que nos necessitam.

Nos morremos amor, morro em teu ventre
que não mordo nem beijo,
nas tuas coxas dulcíssimas e vivas
na tua carne sem fim, morro de máscaras
de triângulos obscuros e incessantes.
Morro do meu corpo e do teu corpo,
de nossa morte, amor, morro, morremos
no poço do amor a todas as horas,
inconsolável, aos gritos,
dentro de mim, quero dizer, te chamo,
te chamam os que nascem, os que vêm
de trás, de ti, os que a ti chegam.
Nos morremos, amor, e nada fazemos
senão morrermos
mais, hora após hora,
e escrevermos e falarmos e morrermos.



Jaime Sabines
México, Tuxtla Gutiêrrez 1926 – Cidade do México 1999
in Qual é a tua ou a minha língua?
Editor: Assirio & Alvim
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Giorgio Bassani: À amada


























Possuir-te por trás  ̶  digo-o em todos
os sentidos  ̶  resulta sempre
proveitoso ou pelo menos
um acontecimento sublime que pode conduzir ou não
direito a Deus

Então porquê envergonhar-me depois de tantos anos Te lucis ante?
Por que não haveria de escrever
também para ti meu novo e estólido Deus
estas novas palavras?



Giorgio Bassani
Itállia, Bolonha 1916 – Roma 2000
in Qual é a tua ou a minha língua?
Editor: Assirio & Alvim
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Joaquim Pessoa: Balada para uma mulher

Reparem quando ela passa.
Beija os filhos no olhar!
Esta palavra ternura
quem é que a soube inventar?

Lá vai ela. Como tem
os lábios cor de romã!
Ela vai. Mas quem bebeu
nos seus seios a manhã?

Tem ancas de sofrimento.
É simples como a pobreza.
Nos cabelos dorme o vento
com a palavra tristeza.

Lá vai ela. Minha dor.
Égua de prata a correr!
Vai a fingir que o amor
também se pode vender.

Lá vai. Lá vai. E que importa
a dor que me nasce a rodos?
Ela vai de porta em porta
vender um pouco de todos.

Ela vai. Como se fosse
minha irmã ou minha mãe.
É como o vinho mais doce
e mais amargo também.

Lá vai ela. Minha dor.
Égua de prata. Luar.
Vai a fingir que o amor
também se pode pagar.

Lá vai. Lá vai. E no peito
rompe uma flor de ciúme.
A raiva cresce no leito
entre lençóis de azedume.

Ela vai. É como a luta
de um homem contra a desgraça.
Chamem-lhe flor mãe ou puta
mas não riam quando passa.

Lá vai ela. Meu amor.
Égua de prata a morrer!
Vai a fingir que esta dor
também se pode esquecer.




Joaquim Pessoa
Portugal, Barreiro 1948
in 125 poemas – Antologia Poética
Editor: Litexa
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Al Berto: O domador de luas


estamos encostados a uma roulotte bebemos sangria
conversamos enquanto queimamos a noite
junto ao mar
o vento fresco surpreende-nos com as mãos nervosas
em redor dos copos embaciados a ternura dum olhar
não chega para iludir a embriaguez dos amores imperfeitos

sei que possuis ainda alguma juventude nesse sorriso
eu já só embebedo os lábios viciados pelas palavras
pouco tenho a dizer-te
toco-te no ombro faço promessas e tu ris
enquanto descobrimos no silêncio cúmplice do vinho
treme uma teia de luminoso sal onde a noite cai
sobreviveremos ao desgaste do amor

bebemos mais
para que haja só desejos e não amor entre nós e
o rapaz que tem a mania de espetar uma faca loura
no ombro do mar
La vie est une gare, je vais bientôt partir,
je ne dirai pas où.
calei-me
sabendo que me conduzirias até casa pelo caminho da praia
cambaleantes
e enquanto eu não conseguir abrir de novo os olhos
não partirás tenho a certeza
com a tua jaula cheia de luas mansas
apaziguadas



Al Berto
Portugal, Coimbra 1948 – Lisboa 1997
in O Medo
Editor: Assirio & Alvim
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Gil Vicente: Agravos de colopêndio

Pois Amor o quis assi,
que meu mal tanto me dura,
não tardes triste ventura,
que a dor não se doi de mi,
e sem ti não tenho cura.

Foges-me, sabendo certo
que passo perigo marinho,
e sem ti vou tão deserto
que, quando cuido que acerto,
vou mais fora de caminho.
Porque tais carreiras sigo,
e com tal dita naci
nesta vida, em que não vivo,
que eu cuido que estou comigo,
e ando fora de mi.

Quando falo, estou calado;
quando estou, entonces ando;
quando ando, estou quedado;
quando durmo, estou acordado;
quando acordo, estou sonhando;
quando chamo, então respondo;
quando choro, entonces rio;
quando me queimo, hei frio;
quando me mostro, me escondo;
quando espero, desconfio.

Não sei se sei o que digo,
que cousa certa não acerto;
se fujo de meu perigo,
cada vez estou mais perto
de ter mor guerra comigo.
Prometem-me uns vãos cuidados
mil mundos favorecidos,
com que serão descansados;
e eu acho-os todos mudados
em outros mundos perdidos.

Já não ouso de cuidar,
nem posso estar sem cuidado;
mato-me por me matar,

onde estou não posso estar
sem estar desesperado.
Parece-me quanto vejo
Tudo triste com rezão:
cousas que não vem nem vão
essas são as que desejo,
e tôdas pena me dão.

Eu remédio não no espero,
porque aquela, em que me fundo,
pera mi, que tanto a quero,
tem o coração de Nero
pera me tirar do mundo.


Gil Vicente
Portugal 1465-1536
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António Botto: Anoitece devagar

Anoitece devagar.

No terreiro,
Vão-se os pares
Ajustando para a dança.

─ Quem é que baila comigo?

Bailarei eu!,
Grita uma linda Maria
De rosto largo e trigueiro.

E o harmónio
Murmurando,
Dá início ao movimento
Que é todo ligeiro e brando.

Agora ─
Apertam-se mais
Os corpos
Nas voltas lentas e bruscas
Da toada musical.

Vá de roda, quem mais ama?
Quem mais quer ao seu benzinho?
Quem mais ama mais padece;
Eu hei-de amar poucachinho.

Ao redor do bailarico
Já se vai juntando gente
Que andava um pouco dispersa;
E a minha linda cachopa,
Balanceada,
Contente,
Parece dada a um sonho...
─ Nem eu sei o que ela sente!

Paro. Mas o meu braço descansa
Nas espáduas do meu par.

A noite cobriu
De sombras a natureza.

Ah!, se eu pudesse cantar
─ E dar luz aos corações!

Fico a pensar e a olhar...

─ Já se acenderam balões!

Foi aquele moço! Aquele
Que traz um cravo na boca
─ Escarlate
Como a cinta
Com que ele envolve os quadris.

E a olhá-lo me ponho
Na graça quente e flexível
Dos seus aspectos viris.

Ai, a vida!,
É tão enganosa e fria,
Tão outra da que nós temos,
Que é bem melhor desejá-la
Como coisa que flutua
Para lá da que nós vemos...

Vamos descansar ali...
Deixemos...
─ Digo ao par que me acompanha.

E ouvindo a voz do harmónio,
E contemplando
Esvaído
Os pares em desalinho,
Sinto a mesma sensação
De ter bebido algum vinho.



António Botto
Portugal (Concavada, Abrantes) 1897
Brasil (Rio de Janeiro) 1959
in Canções e outros poemas
Editor: Edições  Quasi
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