Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

19 de outubro de 2015

António Botto: Bendito Sejas

Bendito sejas,
Meu verdadeiro conforto
E meu verdadeiro amigo!

Quando a sombra, quando a noite
Dos altos céus vem descendo,
A minha dor,
Estremecendo, acorda...

A minha dor é um leão
Que lentamente mordendo
Me devora o coração.

Canto e choro amargamente;
Mas a dor, indiferente,
Continua...

Então,
Febril, quase louco,
Corro a ti, vinho louvado!
- E a minha dor adormece,
E o leão é sossegado.

Quanto mais bebo mais dorme:
Vinho adorado,
O teu poder é enorme!

E eu vos digo, almas em chaga,
Ó almas tristes sangrando:
Andarei sempre
Em constante bebedeira!

Grande vida!

- Ter o vinho por amante
E a morte por companheira!



António Botto
Portugal, Concavada 1897 – Brasil, Rio de Janeiro 1959
 in Canções e outros poemas
Editor: Edições Quasi
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Al Berto: E ao anoitecer



























e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão

deixas viver sobre a pele uma criança de lume

e na fria lava da noite ensinas ao corpo

a paciência o amor o abandono das palavras

o silêncio

e a difícil arte da melancolia





Al Berto
Portugal, Coimbra 1948 – Lisboa 1997
in O Medo
Editor: Assirio & Alvim
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António Botto: Passei o dia ouvindo o que o mar dizia

Eu ontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.

Chorámos, rimos, cantámos.

Falou-me do seu destino,
Do seu fado...

Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Pôs-se a cantar
Um canto molhado e lindo.

O seu hálito perfuma,
E o seu perfume faz mal!

Deserto de aguas sem fim.

Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...

Ele afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado...

Ao longe o Sol na agonia
De roxo as águas tingia.

«Voz do mar, misteriosa;
Voz do amor e da verdade!
- Ó voz moribunda e doce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte...»


E os poetas a cantar
São ecos da voz do mar!



António Botto
Portugal, Concavada 1897 – Brasil, Rio de Janeiro 1959
 in Canções e outros poemas
Editor: Edições Quasi
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Domingo Alfonso: Depois do Amor






























Esta mulher e eu acabámos, agora.
Deixando os lençóis em desordem,
olhamos pela janela para a rua.

Um pouco à direita,
operários compõem um enorme cartaz,
que diz: «Todos com boinas vermelhas à Praça da Revolução»

Ela volta para o interior do quarto do hotel.
Contemplo as suas nádegas da cor da  tinta de imprensa.
Sinto o mesmo que os homens normais perante tal espectáculo.
E dou graças por me encontrar vivo.



Domingo Alfonso
Cuba 1935
in Qual é a tua ou a minha língua?
Editor: Assirio & Alvim
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Jaime Sabines: Quero-te às dez da manhã

























Quero-te às dez da manhã, e às onze, e às doze do dia . Quero-te
com toda a minha alma e com  todo o meu corpo, às vezes, nas
tardes de chuva. Mas às duas da tarde, ou às três, quando me
ponho a pensar em nós os dois, e tu pensas na comida ou no
trabalho diário, ou nas diversões que não tens, então ponho-me a
odiar-te em surdamente, com a metade do ódio que guardo para mim.

Depois volto a querer-te, quando nos deitamos e sinto que tu foste
feita para mim, que de alguma forma mo dizem o teu joelho e teu ventre,
que as minhas mãos me convencem disso, e que não há outro lugar
onde eu venha, onde eu vá, melhor que teu corpo. Tu vens toda inteira,
ao meu encontro e desaparecemos os dois por um instante, metemo-nos
na boca de Deus, até que eu te diga que tenho sono ou fome.

Todos os dias te quero e te odeio irremediavelmente. E há dias também,
há horas, em que não te conheço, em que me és estranha como a mulher
de outro. Preocupam-me os homens, preocupo-me comigo, distraem-me
as minhas penas. É provável que não pense em ti durante muito tempo.
Já vês. Quem poderia querer-te menos do que eu, amor meu?



Jaime Sabines
México, Tuxtla Gutiêrrez 1926 – Cidade do México 1999
in Qual é a tua ou a minha língua?
Editor: Assirio & Alvim
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Jarolav Seifert: Canção de Amor

Ouço o que os outros não ouvem,
os pés descalços pisando veludo,

suspiros sob o selo de uma carta
o tremor das cordas, quando não vibram.

Ás vezes fugindo das pessoas
vejo o que os outros não vêem.

O amor vestido com o riso,
que se oculta nas pestanas, cobrindo os olhos.

Quando ainda tem flocos de neve nos anéis dos cabelos,
vejo florescer a rosa no roseiral.

Ouvi o amor partir,
quando uns lábios pela primeira vez roçaram os meus.

Quem deterá a minha esperança:
tão pouco o medo da desilusão,

para que nos teus joelhos não se ponha.
A mais formosa deve estar louca.


Jaroslav Seifert
República Checa 1901-1986
in Qual é a tua ou a minha língua?
Editor: Assirio & Alvim
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Jaquim Pessoa: Mulher

























És tu. Mulher normal. Mulher inteira.
Olhos de amêndoa amarga. E peito doce.
Cisterna de água pura. Amendoeira.
Mulher de quem não sou. Mas antes fosse.
Tu és a flor do meu cantar de amigo.
Papoila no meu sangue amachucada.
De bruços a fazer amor comigo
na cama onde se deita a madrugada.
Mulher. Corça da noite. Erva do dia.
No peito duas rosas de alegria!
No ventre a rosa negra de cantar-te!
Mulher a quem desejo em plena rua.
A quem eu dispo. E ficas toda nua.
Que ali mesmo mulher eu quero amar-te!



Joaquim Pessoa
Portugal, Barreiro 1948
in 125 poemas – Antologia Poética
Editor: Litexa
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Meng Chiao: Não me deixes



Porque partes, assim, - amor tão caro –
Se tenho em minhas mãos as tuas vestes?
Para onde diriges o teu olhar?
Não lastimo que venhas cedo ou tarde,
Pois apenas é mágoa que haja alguém
Que ocupe, em teu amor, o meu lugar.



Meng Chiao
China 751-814
Trad. Francisco de Carvalho e Rego
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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António Feijó: A Lenda dos Cisnes


























Da praia longínqua, na areia doirada,
O Cisne pensava, fitando a Alvorada:
— «Que imensa ventura, na minha mudez,
Se dado me fosse cantar uma vez!»

— «Meu canto seria, na luz do arrebol,
Dos hinos mais altos á gloria do Sol…»

Não é das gaivotas e gansos do lago
O canto que em sonhos ardentes afago;

É quando nos bosques as aves escuto
Que a inveja confrange minha alma de luto.

Se a Aurora se lança do cume dos montes,
Até d’alegria murmuram as fontes;

Só eu, passeando o meu tédio supremo,
Nem rio, nem choro, nem canto, nem gemo.

Oh Sol, que já vejo surgindo do Mar,
Tem dó de quem, mudo, não pode cantar!»–

E o Cisne, em silencio, chorava, escutando
A orquestra das aves que passam em bando.

Das aguas rompia a quadriga d’Apollo,
E o pobre a cabeça escondia no colo…

Mas Febo detém-se nas nuvens ao vê-lo,
Com feixes de raios no fulvo cabelo,

E diz-lhe, sorrindo, n’um halo de fogo:
— «No Olimpo sagrado ouviu-se o teu rogo…»–

E nesse momento a Lira Sem Par,
Da mão luminosa deixou resvalar…

O Cisne, orgulhoso da graça divina,
Da Lira d’Apollo as cordas afina,

E rompe cantando… Calaram-se as fontes,
Calaram-se as aves… As urzes dos montes

Tremiam de gozo a ouvi-lo cantar…
E o vento sonhava na espuma do Mar.

O Cisne cantava, tirando da Lira
Um hino que nunca na terra se ouvira;

Não pára, nem sente, na sua emoção,
Que a vida lhe foge naquela canção.

Mas quando, entre nuvens, a tarde caía
No enlevo do canto que a essa hora gemia,

E Apolo no seio de Tétis desceu,
O pobre do Cisne, cantando, morreu…

Gemeram as aves; choraram as fontes;
Torceu-se nas hastes a giesta dos montes,

E o mar soluçava na tarde sombria,
Que o manto de luto com astros tecia.

Solicita espera-o, das aguas á beira,
Do Cisne, já morto, fiel companheira;

Espera que o Esposo de pronto regresse,
Mas treme e suspira, que a Noite já desce…

As aguas luzentes parecem-lhe, ao vê-las,
Um pano de enterro picado de estrelas.

Então, no seu luto, sentindo que morre,
Oceanos e praias distantes percorre;

Mergulha nas aguas, coleia nas ondas,
Espreita as galeras de velas redondas,

Que ao longe parece que vão a voar…
E o Cisne não volta, não pode voltar!

Chorosa viúva, nas aguas desliza,
Levada na fresca salsugem da brisa…

No seu abandono nem sente canseira;
Caminha, caminha, fiel companheira,

Chorando o perdido, desfeito casal…
Tão funda era a mágoa, tão grande o seu mal,

Que o peito sentindo de dor estalar,
— De dor e de angustia começa a cantar!

E canta com tanta ternura e paixão,
Que a Vida lhe foge naquela canção.

As aves despertam; calaram-se as fontes;
Nas hastes tremiam as urzes dos montes;

A Lua escutava; detinha-se a Aurora,
E as vagas gemiam no vento que chora…

Na terra, no espaço, nos astros, no céu,
Mais alta harmonia ninguém concebeu;

E os Deuses recebem, ouvindo-a, a chorar,
A alma do Cisne que expira a cantar…

Desde esse momento, no Olimpo onde entraram,
Em honra dos Cisnes que tanto se amaram,

Das almas que foram leais e sinceras,
Se Vénus se mostra, surgindo da bruma,
São eles que tiram, nas altas esferas,
A concha de nácar, cercada de espuma…




António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
photo by Google

António Feijó: Dyptico























M. ***

Perguntas donde vem a timidez estranha,
Este quase terror com que te falo e escuto,
Como se a sombra hostil de uma grande montanha,
Que se erguesse entre nós, me cobrisse de luto.

Ignoras a razão deste absurdo respeito
Com que te beijo a mão, que estendes complacente,
--Fria do ardor que tens concentrado no peito,
Que mão fria é sinal de coração ardente.

E admiras-te de ver que os olhos baixo, e tremo,
--Se passas como um sol de planetas cercado--
Sem dar mostras sequer desse orgulho supremo
De quem se sente eleito entre todos, e amado!

Não podes conceber que uma paixão tão alta
Se vista de recato ou de pudor mesquinho...
Mas, se é sincero, o Amor só a ocultas se exalta,
Faz-se tanto maior quanto é discreto o ninho.

E tudo o que tu crês fingida gravidade
É uma íntima oblação, pois nas almas piedosas
O Verdadeiro Amor é feito de humildade:
Sobre o anel nupcial não à pedras preciosas.




António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
photo by Google

Sebastião Alba: Ninguém meu Amor


























Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos



Sebastião Alba,
Portugal, Braga 1940-2000
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Lu Xun: Mal de amores


























(Novos poemas satíricos feitos à maneira clássica)

A minha amada, lá longe, a meio da montanha.
Queria ir ter com ela, mas a montanha é tão alta!
Lágrimas de desespero molham-me a roupa.
A minha amada ofereceu-me um lenço bordado a borboletas.
Como fui eu retribuir com um mocho?
A partir de então deixou de me falar
Ai, ai, como eu estou desassossegado.

A minha amada, lá longe, no meio da cidade.
Queria ir ter com ela, mas é tanta a multidão!
Lágrimas de desespero molham-me as orelhas.
A minha amada ofereceu-me uma pintura: um casal de andorinhas.
Como fui eu retribuir com uma espetada de frutas cristalizadas
A partir de então deixou de me falar.
Ai, ai, como eu estou confuso.

A minha amada, lá longe, no outro lado do rio.
Queria ir ter com ela, mas as águas são tão fundas!
Lágrimas de desespero molham-me a camisa.
A minha amada ofereceu-me uma pulseira dourada.

Como fui eu retribuir com um antigripal?
A partir de então deixou de me falar.
Ai, ai, como eu estou deprimido.

A minha amada, lá longe, numa casa rica.
Queria ir ter com ela, mas não tenho carro!
As minhas lágrimas caem como a chuva.
A minha amada ofereceu-me um ramo de rosas.
Como fui eu retribuir com uma serpente?
A partir de então deixou de me falar.
Ai, ai... deixa lá.



Lu Xun
China, Shaoxing 1881 – China, Xangai 1936
Trad. Sun Lin e Luís G. Cabral
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
photo by Google