Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

19 de outubro de 2015

Jarolav Seifert: Canção de Amor

Ouço o que os outros não ouvem,
os pés descalços pisando veludo,

suspiros sob o selo de uma carta
o tremor das cordas, quando não vibram.

Ás vezes fugindo das pessoas
vejo o que os outros não vêem.

O amor vestido com o riso,
que se oculta nas pestanas, cobrindo os olhos.

Quando ainda tem flocos de neve nos anéis dos cabelos,
vejo florescer a rosa no roseiral.

Ouvi o amor partir,
quando uns lábios pela primeira vez roçaram os meus.

Quem deterá a minha esperança:
tão pouco o medo da desilusão,

para que nos teus joelhos não se ponha.
A mais formosa deve estar louca.


Jaroslav Seifert
República Checa 1901-1986
in Qual é a tua ou a minha língua?
Editor: Assirio & Alvim
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Jaquim Pessoa: Mulher

























És tu. Mulher normal. Mulher inteira.
Olhos de amêndoa amarga. E peito doce.
Cisterna de água pura. Amendoeira.
Mulher de quem não sou. Mas antes fosse.
Tu és a flor do meu cantar de amigo.
Papoila no meu sangue amachucada.
De bruços a fazer amor comigo
na cama onde se deita a madrugada.
Mulher. Corça da noite. Erva do dia.
No peito duas rosas de alegria!
No ventre a rosa negra de cantar-te!
Mulher a quem desejo em plena rua.
A quem eu dispo. E ficas toda nua.
Que ali mesmo mulher eu quero amar-te!



Joaquim Pessoa
Portugal, Barreiro 1948
in 125 poemas – Antologia Poética
Editor: Litexa
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Meng Chiao: Não me deixes



Porque partes, assim, - amor tão caro –
Se tenho em minhas mãos as tuas vestes?
Para onde diriges o teu olhar?
Não lastimo que venhas cedo ou tarde,
Pois apenas é mágoa que haja alguém
Que ocupe, em teu amor, o meu lugar.



Meng Chiao
China 751-814
Trad. Francisco de Carvalho e Rego
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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António Feijó: A Lenda dos Cisnes


























Da praia longínqua, na areia doirada,
O Cisne pensava, fitando a Alvorada:
— «Que imensa ventura, na minha mudez,
Se dado me fosse cantar uma vez!»

— «Meu canto seria, na luz do arrebol,
Dos hinos mais altos á gloria do Sol…»

Não é das gaivotas e gansos do lago
O canto que em sonhos ardentes afago;

É quando nos bosques as aves escuto
Que a inveja confrange minha alma de luto.

Se a Aurora se lança do cume dos montes,
Até d’alegria murmuram as fontes;

Só eu, passeando o meu tédio supremo,
Nem rio, nem choro, nem canto, nem gemo.

Oh Sol, que já vejo surgindo do Mar,
Tem dó de quem, mudo, não pode cantar!»–

E o Cisne, em silencio, chorava, escutando
A orquestra das aves que passam em bando.

Das aguas rompia a quadriga d’Apollo,
E o pobre a cabeça escondia no colo…

Mas Febo detém-se nas nuvens ao vê-lo,
Com feixes de raios no fulvo cabelo,

E diz-lhe, sorrindo, n’um halo de fogo:
— «No Olimpo sagrado ouviu-se o teu rogo…»–

E nesse momento a Lira Sem Par,
Da mão luminosa deixou resvalar…

O Cisne, orgulhoso da graça divina,
Da Lira d’Apollo as cordas afina,

E rompe cantando… Calaram-se as fontes,
Calaram-se as aves… As urzes dos montes

Tremiam de gozo a ouvi-lo cantar…
E o vento sonhava na espuma do Mar.

O Cisne cantava, tirando da Lira
Um hino que nunca na terra se ouvira;

Não pára, nem sente, na sua emoção,
Que a vida lhe foge naquela canção.

Mas quando, entre nuvens, a tarde caía
No enlevo do canto que a essa hora gemia,

E Apolo no seio de Tétis desceu,
O pobre do Cisne, cantando, morreu…

Gemeram as aves; choraram as fontes;
Torceu-se nas hastes a giesta dos montes,

E o mar soluçava na tarde sombria,
Que o manto de luto com astros tecia.

Solicita espera-o, das aguas á beira,
Do Cisne, já morto, fiel companheira;

Espera que o Esposo de pronto regresse,
Mas treme e suspira, que a Noite já desce…

As aguas luzentes parecem-lhe, ao vê-las,
Um pano de enterro picado de estrelas.

Então, no seu luto, sentindo que morre,
Oceanos e praias distantes percorre;

Mergulha nas aguas, coleia nas ondas,
Espreita as galeras de velas redondas,

Que ao longe parece que vão a voar…
E o Cisne não volta, não pode voltar!

Chorosa viúva, nas aguas desliza,
Levada na fresca salsugem da brisa…

No seu abandono nem sente canseira;
Caminha, caminha, fiel companheira,

Chorando o perdido, desfeito casal…
Tão funda era a mágoa, tão grande o seu mal,

Que o peito sentindo de dor estalar,
— De dor e de angustia começa a cantar!

E canta com tanta ternura e paixão,
Que a Vida lhe foge naquela canção.

As aves despertam; calaram-se as fontes;
Nas hastes tremiam as urzes dos montes;

A Lua escutava; detinha-se a Aurora,
E as vagas gemiam no vento que chora…

Na terra, no espaço, nos astros, no céu,
Mais alta harmonia ninguém concebeu;

E os Deuses recebem, ouvindo-a, a chorar,
A alma do Cisne que expira a cantar…

Desde esse momento, no Olimpo onde entraram,
Em honra dos Cisnes que tanto se amaram,

Das almas que foram leais e sinceras,
Se Vénus se mostra, surgindo da bruma,
São eles que tiram, nas altas esferas,
A concha de nácar, cercada de espuma…




António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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António Feijó: Dyptico























M. ***

Perguntas donde vem a timidez estranha,
Este quase terror com que te falo e escuto,
Como se a sombra hostil de uma grande montanha,
Que se erguesse entre nós, me cobrisse de luto.

Ignoras a razão deste absurdo respeito
Com que te beijo a mão, que estendes complacente,
--Fria do ardor que tens concentrado no peito,
Que mão fria é sinal de coração ardente.

E admiras-te de ver que os olhos baixo, e tremo,
--Se passas como um sol de planetas cercado--
Sem dar mostras sequer desse orgulho supremo
De quem se sente eleito entre todos, e amado!

Não podes conceber que uma paixão tão alta
Se vista de recato ou de pudor mesquinho...
Mas, se é sincero, o Amor só a ocultas se exalta,
Faz-se tanto maior quanto é discreto o ninho.

E tudo o que tu crês fingida gravidade
É uma íntima oblação, pois nas almas piedosas
O Verdadeiro Amor é feito de humildade:
Sobre o anel nupcial não à pedras preciosas.




António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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Sebastião Alba: Ninguém meu Amor


























Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos



Sebastião Alba,
Portugal, Braga 1940-2000
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Lu Xun: Mal de amores


























(Novos poemas satíricos feitos à maneira clássica)

A minha amada, lá longe, a meio da montanha.
Queria ir ter com ela, mas a montanha é tão alta!
Lágrimas de desespero molham-me a roupa.
A minha amada ofereceu-me um lenço bordado a borboletas.
Como fui eu retribuir com um mocho?
A partir de então deixou de me falar
Ai, ai, como eu estou desassossegado.

A minha amada, lá longe, no meio da cidade.
Queria ir ter com ela, mas é tanta a multidão!
Lágrimas de desespero molham-me as orelhas.
A minha amada ofereceu-me uma pintura: um casal de andorinhas.
Como fui eu retribuir com uma espetada de frutas cristalizadas
A partir de então deixou de me falar.
Ai, ai, como eu estou confuso.

A minha amada, lá longe, no outro lado do rio.
Queria ir ter com ela, mas as águas são tão fundas!
Lágrimas de desespero molham-me a camisa.
A minha amada ofereceu-me uma pulseira dourada.

Como fui eu retribuir com um antigripal?
A partir de então deixou de me falar.
Ai, ai, como eu estou deprimido.

A minha amada, lá longe, numa casa rica.
Queria ir ter com ela, mas não tenho carro!
As minhas lágrimas caem como a chuva.
A minha amada ofereceu-me um ramo de rosas.
Como fui eu retribuir com uma serpente?
A partir de então deixou de me falar.
Ai, ai... deixa lá.



Lu Xun
China, Shaoxing 1881 – China, Xangai 1936
Trad. Sun Lin e Luís G. Cabral
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Anónimo, Índia: Esta mesma lua ilumina a minha amada

Esta mesma lua ilumina a minha amada
O vento acariciou já o seu rosto
A lua impregnou-se da sua beleza
e o vento do seu perfume

Quem ama de verdade pouco lhe basta
para suportar a separação…
Que ela e eu respiremos o mesmo ar
e que os nossos pés pisem o mesmo chão



Anónimo
Índia Séc. IV a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Índios da Amazónia: Beijo


Beijei-te a palma da mão,
tinha o cheiro a melão-de-água.
Beijei-te a palma da mão,
e os rins ficaram-me em fogo.


Brasil, 
Índios da Amazónia
Séc. XVIII
Trad. Herberto Helder
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Chile, Araucanos: Canção



Bela como a prata era a minha amada.
Por sua grande beleza,
sofro agora.
Porque terá nascido o sol
onde noutros dias morre?
E porque baixou o sol
onde noutros dias sobe?
Assim mudou teu coração
minha amada.


Chile, Araucanos
Séc. XVII-XVIII?
Trad. Herberto Helder
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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América Central, Povo Misquito: Carta à Amada

Sou mais alto do que a palmeira,
porque os meus olhos chegam às palmas,
chegam às aves voando por cima das palmas.
Sou mais longo do que um rio,
porque ouço o longínquo rumor do mar
ou fechando os olhos vejo o fulgor das praias.
Sou mais poderoso que uma leoa,
porque a minha dor escrita chega mais longe que o seu rugido,
chega às mãos da minha amada, a dor escrita,
chega mais longe que o rugido,
a dor escrita chega às mãos da minha amada.



Povo Misquito
América Central Séc. XVII-XVIII
Trad. Herberto Helder
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Salmos apócrifos: Salmo à sabedoria


[…]
Inflamei por ela meu coração
sem desviar o olhar.
Por ela ardi em desejo
em suas alturas não vacilava.
Minha mão abriu (suas portas)
e compreendi a sua nudez.

Purifica agora minha mão.
[…]



Salmos Apócrifos
Israel Séc. I a.C.
Trad. José Tolentino Mendonça
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Egipto: Andar a mergulhar e nadar aqui contigo

Andar a mergulhar e nadar aqui contigo
Dá-me a oportunidade de que eu estava à espera:
Mostrar os meus atributos
Ante olhar apreciador.

O meu fato de banho do melhor material,
De tecido puro,
Agora que ficou molhado
Vê-lhe a transparência,
Como está colado ao corpo.

Tenho de admitir que te acho atraente.
Afasto-me a nadar mas logo venho para trás,
A chapinhar, com conversas,
Só desculpas para ter a tua companhia.

Olha! Um peixe doirado a brilhar entre os meus dedos!
Vê-lo-ás melhor
Se te chegares para aqui,
Para o pé de mim.



Egipto 1567-1085 a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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4 de outubro de 2015

Kostas Ouránis: Mulheres de passagem

Mulheres a quem vi por um instante
dentro de trens à hora em que partiam
para outro lugar, mulheres que riam
nos braços de um outro homem, exultantes;

mulheres em balcões, a olhar diante
de si (tão distraídas) o vazio,
ou a agitar do convés de um navio
que zarpava seus lenços vacilantes:

se soubésseis com quanta nostalgia
eu vos trago de novo ao pensamento
pelas tardes de chuva, tardes frias,

mulheres que passastes um momento
em minha vida - e agora conduzis
minha alma a um exótico país!



Kostas Ouránis
Grécia, 1890-1953
Trad. José Paulo Paes
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Egipto: Sem o teu amor, o meu coração…



Sem o teu amor, o meu coração não bateria mais;
Sem o teu amor, um bolo doce parece salgado;
Sem o teu amor, o doce shedeh sabe a fel.
Ó, amado, a vida do meu coração precisa do teu amor.
Pois quando respiras, meu é o coração que bate.




Egipto 1567-1085 a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Egipto: Fragmento do Cairo



Quando eu a cinjo e ela me abre os braços,
sou como um homem que regressa da Arábia,
impregnado de perfumes.


Egipto 1567-1085 a.C.
Trad. Herberto Helder
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Egipto: Nada, nada pode afastar-me do meu amor

Nada, nada pode afastar-me do meu amor
Ali na outra margem.
Nem mesmo o velho crocodilo
No banco de areia entre nós
Nos pode separar.

Avanço apesar disso,
Caminho por sobre as ondas,
O seu amor refluí através da água,
Lançando ondas até à terra firme
Por onde eu possa caminhar.

O rio é o nosso Mar Encantado.



Egipto 1567-1085 a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Egipto: Com sinceridade confesso o meu amor



















Com sinceridade confesso o meu amor;
Amo-te, sim, e desejo amar-te ainda mais de perto;
Como dona da tua casa,
O teu braço posto sobre os meus.

Ai de mim por teus olhos vagos.
Digo ao meu coração: «O meu amo
Partiu. Durante
A noite partiu
E deixou-me. Sinto-me um túmulo.»
E a mim própria pergunto: Não fica nenhuma sensação,
quando vens até mim?
Mesmo nenhuma?

Ai de mim por esses olhos que te afastam do caminho,
Sempre tão vagos.
E apesar disso confesso com sinceridade
Que andem eles por onde andarem
Se vierem ter comigo
Eu reentro na vida.



Egipto 1567-1085 a.C.
Trad. Helder Moura Pereira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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