Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

19 de outubro de 2015

Oscar Wilde: Balada do Cárcere (versão completa)

I
Ele despira a túnica vermelha;
mas sangue púrpuro, encarnado,
sangue e vinho das mãos lhe gotejavam,
quando o viram, alucinado,
junto do leito dela, - o seu amor,
seu pobre amor apunhalado.

Ia andando entre os mais, e era cinzento
o traje velho que vestia.
Usava um gorro às listas, e o seu passo
ligeiro e alegre parecia.
Porém eu nunca vi homem que olhasse,
tão pensativo, a luz do dia.

Jamais, jamais vi homem contemplar,
com tão profundo sentimento,
essa breve, essa estreita faixa azul
que os presos chamam firmamento:
e as nuvens brancas, velas cor de prata,
vogando no ar, flutuando ao vento!

Eu, com outras almas angustiadas, ia
andando em pátio separado,
a cismar qual o crime, grande ou leve,
por que o teriam condenado,
- quando alguém sussurrou atrás de mim:
«vão pendurar esse coitado!»

Jesus! as próprias grades da prisão
rodam, de súbito, em delírio!
Pesa o céu sobre mim, qual elmo de aço
que o Sol inflama, - ardente círio!
E a minha alma, de mágoa trespassada,
esquece, olvida o seu martírio.

Eu soube, então, a ideia lacerante
que o atormenta, e o faz correr,
e o faz olhar, tristonho, o céu radiante,
radiante, e alheio ao seu sofrer:
ele matou aquela que adorava,
- por causa disso vai morrer.

No entanto (ouvi!) cada um mata o que adora:
o seu amor, o seu ideal.
Alguns com uma palavra de lisonja,
outros com um frio olhar brutal.
O covarde assassina dando um beijo,
o bravo mata com um punhal.

Uns matam o Amor velhos; outros, jovens;
(quando o amor finda, ou o amor começa);
matam-no alguns com a mão do Ouro, e alguns
com a mão da Carne, - a mão possessa!
E os mais bondosos, esses apunhalam,
- que a morte, assim, vem mais depressa.

Uns vendem, outros compram; uns amam pouco,
noutros, o Amor dura de mais;
uns enterram-no aos ais, vertendo pranto,
outros sem prantos e sem ais:
todo o homem mata o Amor; porém, nem sempre,
nem sempre as sortes são iguais.

Nem sempre ele padece morte infame,
por um dia trágico e baço,
o capuz na cabeça, e na garganta
a corda fria, o hórrido laço;
nem fica a balançar, do alto de um poste,
- soltos os pés e as mãos no espaço.

Nem vai sentar-se entre homens silenciosos,
que estão imóveis, de vigia,
ou procure rezar, ou chore, triste,
em amaríssima agonia:
a sua vida é presa da prisão,
- ah, não a roube ele algum dia!

Nem vê ao despertar, sombras estranhas
cruzando a sua húmida cela:
o Capelão, de branco e vacilante,
mais o Xerife, atroz, que o vela;
e o Director, de luto, como a Sorte,
- a face pálida, amarela.

Nem tem de erguer-se arrebatadamente,
vestir as roupas da prisão,
enquanto algum doutor, boçal, lhe espia
a mais ligeira contorção,
- com o tiquetaque hostil do seu relógio
a martelar-lhe o coração!

Nem vai sentir, fogosa, na garganta,
uma secura imitigável,
antes que o Algoz, soturno, abrindo a porta,
- hirto, enluvado, inexorável, -
o ate com três correias, pra que nunca
sofra mais sede, o insaciável!

Nem tem de ouvir, curvado, o Ofício Fúnebre,
Ofício Fúnebre de morto;
nem, pensando que ainda não morreu,
contemplará, transido, absorto,
o seu próprio caixão, entrando, lento,
no seu antro de Desconforto.

Nem, por tecto de vidro, enxergará,
do dia, a luz ténue e fugaz;
nem a Deus rogará, com lábios secos,
breve agonia, - o Sono, a Paz;
nem sentirá, na sua face trémula,
o beijo torpe de Caifaz.


II
Seis semanas inteiras ele andou
com a veste usada que trazia.
Tinha um gorro de listas, e o seu passo
ligeiro e alegre parecia;
porém eu nunca vi homem que olhasse,
tão pensativo, a luz do dia.

Jamais, jamais vi homem contemplar,
com tão profundo sentimento,
essa breve, essa estreita faixa azul
que os presos chamam firmamento;
e as nuvens esgarçadas no horizonte,
- flocos de espuma errando ao vento!

Não retorcia as mãos, - tal como alguns
de ideia curta, e alma louçã,
que ousam crer, mesmo em negro Desespero,
numa Quimera estulta e vã:
ele fitava, calmo, a luz da aurora
sorvendo o ar puro da manhã.

Não retorcia as mãos e não chorava,
nem lamentava o seu inferno;
ia, apenas, bebendo o ar como um bálsamo,
bálsamo bom, bálsamo eterno...
Abria os lábios e bebia o Sol,
como uma taça de falerno.

E eu, e todos os mais, - nós que penávamos
num outro pátio separado,
esquecemos de pronto as nossas faltas,
a nossa Sorte, o nosso Fado,
para seguir, com olhar de assombro, esse homem
que ia, entre nós, ser enforcado!

E era estranho que o víssemos andando,
- tão leve e alegre parecia...
E era estranho que o víssemos fitando,
tão pensativo, a luz do dia.
E era estranho lembrar que ele, a sua dívida,
de tal maneira a pagaria.

Tem lindas folhas o álamo e o carvalho,
que em Maio brotam viridentes;
mas é medonha a força, - a árvore negra,
raiz mordida de serpentes:
e verde ou seca, morre o condenado
sem lhe avistar frutos pendentes.

É para o céu, para o azulado empíreo,
que o anseio humano se alevanta!
Mas quem, do alto da forca, atado a um laço,
com a corda presa na garganta,
ergue seu turvo olhar ao firmamento
quando o carrasco se adianta?

Dançar, ao som de um violino, enleva,
se a Vida é bela e é belo o Amor;
dançar, ao som de flautas e alaúdes,
é raro, fino, embalador...
Mas é horrível, no ar, com os pés ligeiros,
dançar, num último estertor!

Curiosamente, mudos, consternados,
o vigiávamos dia a dia,
pensando que talvez nosso destino
igual ao dele acabaria:
pois ninguém sabe a que horroroso inferno
a Sorte bárbara nos guia.

Por fim, deixei de vê-lo entre os mais presos,
sempre sozinho, vagamundo...
Soube então que o levaram; que jazia
em negro cárcere profundo,
e que eu, jamais, de novo o enxergaria,
neste belo, divino mundo...

Dois navios perdidos que se cruzam
em ruim paragem tormentosa,
- nós nos cruzámos, mudos, sem um gesto,
numa atitude silenciosa:
pois de dia nos vimos (não de noite)
e a luz é casta, é vergonhosa.

Muros de uma prisão nos circundavam,
éramos réus por nossos danos.
Deus e o seu mundo, inexoravelmente,
nos repeliram desumanos;
e a sinistra armadilha do Pecado
nos seduziu com seus enganos.


III
É um forte, o Pátio dos Endividados:
muralhas frias, pedra dura.
Lá passeava ele ao ar, sob o céu plúmbeo,
entre dois guardas de clausura,
temerosos que o preso lhes morresse
de qualquer morte prematura.

Ou sentava-se entre esses que à sua dor
sempre ficavam de vigia,
quer de joelhos rezasse, quer se erguesse
para chorar sua agonia;
- não fosse ele roubar-lhes uma vida
que só à forca pertencia.

O Director timbrava em executar
a letra do Regulamento;
para o Doutor, a morte era, em ciência,
um banal acontecimento;
- duas vezes por dia o Capelão
deixava um opúsculo ao detento...

Duas vezes por dia ele fumava
o cachimbo, e bebia um trago.
Sentia a alma valente, e sem lugar
para o pavor, o medo aziago:
e dizia esperar, ânimo alegre,
do Carrasco o sinistro afago.

Mas nenhum guarda nunca perguntou
a razão desse estranho gosto...
Ó Guardas da Cadeia! Quem por sorte,
quem por sorte ocupe esse posto,
deve trazer nos lábios um cadeado
e andar de máscara no rosto.

Pois de outra forma se comoveria,
tentaria uma frase amena...
Mas no «Antro de Homicidas», que diria
da Caridade a voz serena?
Que palavra de alívio ela traria
a uma alma irmã, nessa geena?

Cadenciados, marchando em volta ao pátio,
nós somos loucos em parada!
Que importa? Bem sabemos que Satã
é o general desta Brigada.
Lenta, arrastando os pés, cabelo curto,
lá vem a alegre mascarada!

Desfiamos cordas alcatroadas, rijas,
- unhas gastas, dedos sangrentos;
esfregamos o chão, limpamos portas,
e metais claros, espelhentos;
e enxaguamos, aos turnos, o assoalhado,
batendo baldes barulhentos.

Cosemos sacos e quebramos pedras,
furamos tábuas com uma pua.
Tinem marmitas; cantos se misturam;
gira o moinho, e a gente sua...
Mas dentro da nossa alma, um terror mudo,
um terror grande se insinua.

Por isso os dias correm lentos, como
vagas, rolando com sargaços!
E nós nos esquecemos do Destino,
que os homens vis prendem em seus laços,
- quando, ao vir do trabalho, um dia, vemos
uma cova, ante os nossos passos.

Boca amarela e rude, ela bradava
por uma vítima; e, feroz,
a terra hostil pedia sangue ao pátio,
- pedia sangue, em alta voz!
Ah! logo vimos que ao romper da aurora
iria à forca um dentre nós.

Recolhemo-nos todos, a alma atenta
à Morte, à Sorte, e ao Medo infando.
O Algoz passou com o seu pequeno saco,
na treva os passos arrastando;
e cada qual, na tumba numerada,
se enfiou, trémulo e cismando.

Nos longos corredores, essa noite,
a Sombra e o Medo erraram juntos;
pelo Antro Férreo, passos se sentiam,
sem som, furtivos, desconjuntos...
E por fora das frades, espiavam
faces macabras de defuntos.

E ele dormia calmo, como quem
dorme em Abril, numa clareira.
Os que, de noite, o sono lhe vigiavam,
não sabiam de que maneira
podia alguém dormir, tão sossegado,
e com o Carrasco à cabeceira.

Não há, porém, repouso, quando choram
os que nunca verteram pranto!
Assim, nós, criminosos, nós velámos,
(noite sem fim, de Horror e Espanto!)
e a angústia alheia, - a Dor no-la estendeu
por sobre as almas, como um manto.

Ai! do Pecado de outrem, como é dura,
como é terrível a expiação!
Ai! com o gládio do Mal envenenado,
varando o nosso coração,
- que lágrimas de fogo não chorámos
pelo crime daquele irmão!

Com sapatos de feltro, às nossas portas
passavam, mudos, os rondantes;
e viam, surpreendidos, pelas frestas,
formas humanas, vacilantes:
e estranhavam por que é que erguiam preces,
esses que nunca oraram dantes!

Loucos, velando um morto, nós rezámos,
ajoelhados, fitando o céu.
A escuridão da noite, parecia
de uma essa negra o negro véu.
E era esponja embebida em vinho amargo,
o Remorso de cada réu.

Cantaram galos, rubros e cinzentos,
sem que rompesse o dia após...
Tortuosas formas tétricas, nas celas,
nos transiam de horror atroz:
e os espíritos maus da noite morta,
riam, pulando em frente de nós.

E rápidos giravam, deslizavam,
como viandantes na neblina.
Imitavam a Lua, contorcendo-se
em pose grácil, feminina:
e, passos nobres, elegância odiosa,
chegavam outros em surdina.

Alegres, trejeitando, e de mãos dadas,
entram, de súbito, em ciranda!
Rodopiam fantasmas em delírio,
numa grotesca sarabanda;
e, caricatos, fazem arabescos,
como o vento na areia branda!

Com piruetas gentis de marionetes,
leves, levíssimos bailavam!
Era estridente a música do medo
com que o seu baile acompanhavam:
e para despertar na cova os mortos,
alto, bem alto, eles cantavam:

«Oh! – diziam – o mundo é largo. A viagem,
para os trôpegos, é enfadonha!
Jogar os dados uma ou duas vezes,
é de bom-tom, gente bisonha!
Mas, ai! perde quem joga com o Pecado,
na oculta Casa da Vergonha.»

Não eram sombras vãs, esses fantoches,
volteando em doida alacridade!
Para nós, - vidas presas na Prisão,
pés tolhidos, sem liberdade,
eram, - senhor do Céu ! – entes bem vivos
e de execranda fealdade!

Sempre ao redor, valsavam contorcendo-se:
alguns, giravam com seus pares;
outros subiam, ágeis, as escadas,
em atitudes singulares...
E outros arremedavam nossas preces,
rindo, a zombar, fazendo esgares.

Gemia o vento da manhã, lá fora,
mas a noite, sem arrebol,
em seu tear gigante inda tecia,
da treva, o fúnebre lençol!
E nós, a orar, sofríamos, temendo
a Justiça clara do Sol.

Gemia o vento em volta das muralhas
do húmido cárcere infernal;
e o Tempo, enfim, moveu-se, - como roda
de aço, a girar no vendaval.
Ó vento soluçante! que fizemos,
para te ter por senescal?

Por fim, a sombra amarga da janela,
- ferros cruzados em xadrez,
ante o meu catre, na parede branca,
foi surgindo, com timidez...
Vi que a aurora de Deus, tremendamente,
rompera, algures, outra vez.

Varremos, às seis horas, nossos quartos;
e às sete, como em pesadelo,
um bater de asas, forte, encheu os ares,
passou, num trágico arrepelo.
Era o Senhor da Morte que chegava,
com frio hálito de gelo.

E não chegou, pomposo, em corcel branco,
manto de rei, de arminho e penas.
Bastam à forca uns metros, só, de esparto,
e uma tábua, das mais pequenas...
Para o trabalho oculto, o Arauto veio
com a corda da Desonra apenas.

Éramos como quem, num brejo escuro,
a tactear, trémulo avança.
Nem já tínhamos ânimo de orar,
nem de entrever paz e bonança!
Morrera dentro em nós alguma coisa:
morrera, em nós, nossa Esperança.

A Justiça dos Homens, firmemente,
segue na sua arremetida:
implacável, severa, vai levando
o forte e o fraco de vencida:
- com calcanhar de ferro esmaga o forte,
a monstruosa parricida!

O toque das oito horas aguardámos,
cheios de sede, - ardor aflito!
pois o toque das oito é o Destino
com que nasceu o homem maldito;
e o Destino usa sempre a mesma corda,
para o justo e para o precito.

Só tínhamos, sentados, que esperar
por esse toque ameaçador...
Pedras soltas, num vale abandonado,
era sem fim nosso torpor:
mas, agitado, o coração batia,
como um demente num tambor!

Súbito, na Prisão, bate o relógio,
e o som, pelo ar, vibra espantoso!
E um gemido de dor, de desespero,
ecoa, lúgubre, estrondoso,
- qual o grito que lança, num paul
a boca negra de um leproso!

Como quem, no cristal claro de um sonho,
vê uma tragédia apavorante,
assim vimos a corda gordurosa
balançar, no poste infamante;
e ouvimos a oração, que o nó do Algoz
cortou, num grito lancinante.

Eu compreendi, melhor do que ninguém,
aquele grito amargo e forte,
e o seu remorso, e o seu suor de sangue,
e a angústia, o horror da sua sorte!
- Pois o que vive mais do que uma vida,
deve morrer mais do que uma morte.


IV
Não há ofício, no dia em que na forca
um dentre nós cumpre a sua sina:
ou sente, o Capelão, pálida a face,
ou grande dor d´alma o domina;
ou, coisas que ninguém deve saber,
inda lhe bailam na retina.

Meio-dia era já, quando vibrou
do sino o toque funerário!
A cada qual, espiando, os guardas abrem
a cela, - e em passo tumultuário,
vamos descendo a férrea escada, livres
do nosso inferno sedentário.

Fomos andando ao ar suave de Deus,
mas, como dantes, ninguém ia;
- pois, faces brancas uns, outras cinzentas,
o medo nelas transluzia!
E eu nunca vi ninguém olhar assim,
ansiosamente, a luz do dia.

Eu nunca vi ninguém olhar assim,
com tão profundo sentimento,
essa breve, essa estreita faixa azul
que os presos chamam firmamento.
E as nuvens, sem cuidado, ao longe, no ar,
felizes, livres como o vento!

Mas, entre nós, havia uns que marchavam
cabisbaixos, alma aflitiva,
sabendo bem que a forca mereciam,
pois sua falta era excessiva:
mataram uma coisa morta, e o outro,
- apenas uma coisa viva.

O que peca segunda vez acorda,
para a Dor, uma alma dormente:
tira-a do seu sudário maculado,
e a faz sangrar sangue vivente;
e a faz sangrar, num jorro largo e forte,
e a faz sangrar inutilmente.

Quais monos e truões, vestes listadas,
bizarramente, uma por uma,
seguimos silenciosos, dando a volta
ao pátio escuro, envolto em bruma;
seguimos, silenciosos, dando a volta,
e ninguém disse coisa alguma.

Seguimos, silenciosos, dando a volta,
e à nossa mente, oca e vazia,
a memória fatal de coisas fúnebres,
um vento fúnebre a trazia;
e o Horror nos enfrentava a cada passo,
e o Terror, bárbaro, o seguia.

Passam guardas de um lado para o outro,
vigiando, espiando a horda de brutos.
Seus uniformas novos, de domingo,
brilham, asseados, impolutos:
mas a cal dos sapatos denuncia
o que fizeram há minutos.

Pois onde a cova tinha sido aberta,
não se notava a menor falha:
só uma faixa de terra e areia fofa,
junto da hórrida muralha;
e um punhado de cal, para servir
ao pobre morto, de mortalha.

Ai! mortalha de cal, abrasadora,
bem pouca gente é que a reclama!
Sob um pátio de cárcere (e despido,
para mais triste e negra fama!)
ele dorme, com os pés acorrentados,
envolto num lençol de chama.

E por tempo sem conta a cal roerá
a carne e os ossos desse irmão:
de noite os ossos duros, e de dia,
a carne mole, em consumpção:
comerá turno a turno a carne e os ossos,
mas, sem cessar, o coração!

Três longos anos, nada irão plantar
nesse local de desventura!
Maldito ficará três longos anos,
maninho estéril de secura!
E olhará, com assombro, o céu azul,
amargamente e sem censura.

Pensam que o coração de quem matou,
tisna a semente dadivosa.
Não! A Terra de Deus é acolhedora,
e, mais que o homem, generosa:
mais rubra floriria a rosa rubra
e mais de neve a nívea rosa!

Brotar-lhe-ia uma rosa cor de sangue
da boca! E, branca, outra do peito!
Quem sabe? Tem Jesus estranhas vias,
e é estranho, às vezes, seu conceito:
- fez outrora, ante um Papa, abrir-se em flores
seco bordão, de um Seu eleito.

Mas, nem rosas vermelhas, nem de neve,
Podem florir nestes terrenos.
Só nos dão cacos, sílex e pedras;
só nos dão mágoas e venenos...
A flor abranda o Desespero aos simples,
- e é crime, aqui, sofrer de menos.

Ah! Jamais rosas brancas ou vermelhas
pétala a pétala cairão
sobre essa lama em que ele dorme, unido
ao muro hediondo da Prisão,
- pra lembrar que Jesus morreu por todos,
a nós, e aos outros que virão!

Contudo, embora a tétrica muralha
o envolva, o cinja em férreo abraço,
e um espírito de pés acorrentados
não possa, à noite, errar no espaço,
mas só chorar, chorar, nessa ímpia terra,
morto de mágoa e de cansaço,

ele dorme em sossego, - o malfeliz!
ou dormirá, dentro de pouco!
Não mais, vendo o Terror em pleno dia,
sofre, e receia ficar louco.
Não mais! a Negra Pátria em que repousa,
não tem, nem sol, nem luar tampouco!

Enforcaram-no, assim como a uma fera!
Nenhum sino dobrou na igreja,
que ao seu transido espírito trouxesse
uma paz doce, benfazeja:
mas depressa o esconderam numa cova,
onde a parede mais negreja.

Despiram-no. Em seguida o abandonaram,
e com sarcástico sorriso,
fitaram-lhe a garganta, inflada e púrpura,
o olhar imóvel, indeciso...
E envolveram-no, após, numa mortalha,
brutos, torcendo-se de riso.

Jamais o Capelão se ajoelharia
na sua campa, que traduz
a desonra, e jamais nela poria
a triste benção de uma Cruz.
- visto ele haver pecado, e ser dos míseros
por quem veio morrer Jesus.

Enfim, tudo acabou. Do Reino Escuro
ele transpôs o limiar.
A urna da Piedade, urna partida,
há-de, por ele, transbordar!
Por ele chorarão todos os réprobos,
esses que sempre hão-de chorar.



V
Não sei se as Leis são justas ou se injustas.
Os pobres presos miseráveis
só sabem que as muralhas da prisão
são altas, fortes, invioláveis;
e que um dia é mais longo do que um ano,
- ano de dias infindáveis.

Mas sei que as Leis, que o Homem, para o homem,
fez, com seu ânimo iracundo,
desde o primeiro que matou o irmão,
e deu início à Dor do mundo,
são peneiras que guardam joio vil
e atiram fora o grão fecundo.

E sei também (assim todos soubessem!)
que as paredes de uma Prisão
são feitas com tijolos de ignomínia
e têm grades negras, que são
para Cristo não ver como o Homem trata
barbaramente o seu irmão.

Grades que a lua amável desfiguram,
e o sol, de raios triunfais!
É melhor, sim! que escondam esse inferno:
pois lá se passam coisas tais,
que nem Filho de Deus nem filho de Homem
as deveria olhar jamais.

Como planta daninha, o acto mais vil
floresce bem, no ar da cadeia.
Só o que é bom no homem lá se perde,
só o que é mau lá se granjeia.
Há dentro um guarda: o Desespero; e à porta,
a Angústia fica de alcateia.

Matam de fome as tímidas crianças,
até que chorem noite e dia;
azorragam os fracos e os dementes,
maltratam velhos à porfia.
Uns enlouquecem; todos se pervertem,
- mas ninguém diz a sua agonia.

Cada célula estreita é uma latrina
escura, fétida, nojenta!
Um hálito mortal, fecalizante,
enche a lucarna pardacenta.
Tudo morre; a Luxúria, apenas, vive
e a Humana Máquina atormenta.

A água suja e salobra que bebemos,
lodo e imundície traz consigo.
O pão amargo e escasso, que nos dão,
tem cal e gesso mais que trigo.
E o Sono, sem dormir, pede, em desvairo,
que o Tempo abrande o seu castigo.

Embora em nós a Fome e a Sede lutem,
como serpentes em refrega,
ninguém cuida em sustento. O que nos mata
é, quando desce a noite cega,
sentir cada um, no coração, os blocos
que o dia inteiro ele carrega.

Com meia-noite dentro d´alma, e a cela
num crepúsculo funerário,
damos à manivela e esfiamos a cordas
em nosso inferno sedentário.
E o silêncio é medonho como um sino
a badalar num campanário.

Nunca uma voz amiga vem falar-nos,
meiga, num gesto humano e puro:
o olhar que nos vigia, no postigo,
é impiedoso, áspero e duro:
apodrecemos, - alma e corpo em ruínas,
esquecidos neste monturo.

Arrastando os grilhões férreos da Vida,
vamos, sozinhos, degradados:
um se maldiz; o outro chora; - e seguem
em silêncio, os mais desgraçados;
mas a Divina Lei suaviza e quebra
os corações dos condenados.

E cada um que se quebra na Prisão
é como aquela ânfora cheia,
que outrora se partiu, e o seu tesouro
deu a Jesus da Galileia,
espargindo na casa do Leproso
o olor do nardo da Judeia.

Feliz esse que parte o coração
e ganha a Paz, e ganha o Amor!
Quem, de outra forma, pode libertar-se
do Pecado escravizador?
E onde, a não ser num coração partido,
entra Jesus, Nosso Senhor?

Ah! o morto de garganta inflada e púrpura,
e olhar imóvel, indeciso,
aguarda as santas mãos, que o Bom ladrão
exaltaram no Paraíso:
Deus não despreza os corações contritos,
e é estranho, às vezes, seu juízo.

O homem da lei, vestido de vermelho,
deu-lhe, de vida, três semanas,
para a sua alma conciliar consigo,
e sem ideias ruins, tiranas,
purificar do sangue derramado
as mãos, um dia desumanas.

E ele purificou, chorando sangue,
as rudes mãos de instintos crus:
pois só o sangue lava o próprio sangue
e só o pranto ao Bem reconduz:
e a nódoa rubra de Caim transforma
na branca auréola de Jesus!


VI
No cárcere de Reading, junto a um muro,
terra de opróbrio os ossos come
de um desgraçado, envolto num sudário
que o afogueia e que o consome!
É uma campa infamante essa em que jaz,
uma campa que não tem nome!

E aí, até Jesus chamar os mortos,
tranquilamente há-de jazer.
Inútil verter lágrimas inúteis,
e dar suspiros, e gemer.
- Ele matou aquilo que adorava,
teve, por isso, de morrer.

No entanto (ouvi!) cada um mata o que adora:
o seu amor, o seu ideal.
Alguns com uma palavra de lisonja,
outros com um frio olhar brutal.
O covarde assassina dando um beijo,
o bravo mata com um punhal.



Oscar Wilde
Irlanda 1854-1900
Trad. de Gondin da Fonseca
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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António Botto: Uma cruel dissonância


























Uma cruel dissonância
Sai do som da tua voz
Se vens falar-me de amor;
E se os teus beijos me beijam,
Ai de mim!, ─ Sinto-a maior!



António Botto
Portugal (Concavada, Abrantes) 1897
Brasil (Rio de Janeiro) 1959
in Canções e outros poemas
Editor: Edições  Quasi
photo by Google

António Botto: Bendito Sejas

Bendito sejas,
Meu verdadeiro conforto
E meu verdadeiro amigo!

Quando a sombra, quando a noite
Dos altos céus vem descendo,
A minha dor,
Estremecendo, acorda...

A minha dor é um leão
Que lentamente mordendo
Me devora o coração.

Canto e choro amargamente;
Mas a dor, indiferente,
Continua...

Então,
Febril, quase louco,
Corro a ti, vinho louvado!
- E a minha dor adormece,
E o leão é sossegado.

Quanto mais bebo mais dorme:
Vinho adorado,
O teu poder é enorme!

E eu vos digo, almas em chaga,
Ó almas tristes sangrando:
Andarei sempre
Em constante bebedeira!

Grande vida!

- Ter o vinho por amante
E a morte por companheira!



António Botto
Portugal, Concavada 1897 – Brasil, Rio de Janeiro 1959
 in Canções e outros poemas
Editor: Edições Quasi
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Al Berto: E ao anoitecer



























e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão

deixas viver sobre a pele uma criança de lume

e na fria lava da noite ensinas ao corpo

a paciência o amor o abandono das palavras

o silêncio

e a difícil arte da melancolia





Al Berto
Portugal, Coimbra 1948 – Lisboa 1997
in O Medo
Editor: Assirio & Alvim
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António Botto: Passei o dia ouvindo o que o mar dizia

Eu ontem passei o dia
Ouvindo o que o mar dizia.

Chorámos, rimos, cantámos.

Falou-me do seu destino,
Do seu fado...

Depois, para se alegrar,
Ergueu-se, e bailando, e rindo,
Pôs-se a cantar
Um canto molhado e lindo.

O seu hálito perfuma,
E o seu perfume faz mal!

Deserto de aguas sem fim.

Ó sepultura da minha raça
Quando me guardas a mim?...

Ele afastou-se calado;
Eu afastei-me mais triste,
Mais doente, mais cansado...

Ao longe o Sol na agonia
De roxo as águas tingia.

«Voz do mar, misteriosa;
Voz do amor e da verdade!
- Ó voz moribunda e doce
Da minha grande Saudade!
Voz amarga de quem fica,
Trémula voz de quem parte...»


E os poetas a cantar
São ecos da voz do mar!



António Botto
Portugal, Concavada 1897 – Brasil, Rio de Janeiro 1959
 in Canções e outros poemas
Editor: Edições Quasi
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Domingo Alfonso: Depois do Amor






























Esta mulher e eu acabámos, agora.
Deixando os lençóis em desordem,
olhamos pela janela para a rua.

Um pouco à direita,
operários compõem um enorme cartaz,
que diz: «Todos com boinas vermelhas à Praça da Revolução»

Ela volta para o interior do quarto do hotel.
Contemplo as suas nádegas da cor da  tinta de imprensa.
Sinto o mesmo que os homens normais perante tal espectáculo.
E dou graças por me encontrar vivo.



Domingo Alfonso
Cuba 1935
in Qual é a tua ou a minha língua?
Editor: Assirio & Alvim
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Jaime Sabines: Quero-te às dez da manhã

























Quero-te às dez da manhã, e às onze, e às doze do dia . Quero-te
com toda a minha alma e com  todo o meu corpo, às vezes, nas
tardes de chuva. Mas às duas da tarde, ou às três, quando me
ponho a pensar em nós os dois, e tu pensas na comida ou no
trabalho diário, ou nas diversões que não tens, então ponho-me a
odiar-te em surdamente, com a metade do ódio que guardo para mim.

Depois volto a querer-te, quando nos deitamos e sinto que tu foste
feita para mim, que de alguma forma mo dizem o teu joelho e teu ventre,
que as minhas mãos me convencem disso, e que não há outro lugar
onde eu venha, onde eu vá, melhor que teu corpo. Tu vens toda inteira,
ao meu encontro e desaparecemos os dois por um instante, metemo-nos
na boca de Deus, até que eu te diga que tenho sono ou fome.

Todos os dias te quero e te odeio irremediavelmente. E há dias também,
há horas, em que não te conheço, em que me és estranha como a mulher
de outro. Preocupam-me os homens, preocupo-me comigo, distraem-me
as minhas penas. É provável que não pense em ti durante muito tempo.
Já vês. Quem poderia querer-te menos do que eu, amor meu?



Jaime Sabines
México, Tuxtla Gutiêrrez 1926 – Cidade do México 1999
in Qual é a tua ou a minha língua?
Editor: Assirio & Alvim
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Jarolav Seifert: Canção de Amor

Ouço o que os outros não ouvem,
os pés descalços pisando veludo,

suspiros sob o selo de uma carta
o tremor das cordas, quando não vibram.

Ás vezes fugindo das pessoas
vejo o que os outros não vêem.

O amor vestido com o riso,
que se oculta nas pestanas, cobrindo os olhos.

Quando ainda tem flocos de neve nos anéis dos cabelos,
vejo florescer a rosa no roseiral.

Ouvi o amor partir,
quando uns lábios pela primeira vez roçaram os meus.

Quem deterá a minha esperança:
tão pouco o medo da desilusão,

para que nos teus joelhos não se ponha.
A mais formosa deve estar louca.


Jaroslav Seifert
República Checa 1901-1986
in Qual é a tua ou a minha língua?
Editor: Assirio & Alvim
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Jaquim Pessoa: Mulher

























És tu. Mulher normal. Mulher inteira.
Olhos de amêndoa amarga. E peito doce.
Cisterna de água pura. Amendoeira.
Mulher de quem não sou. Mas antes fosse.
Tu és a flor do meu cantar de amigo.
Papoila no meu sangue amachucada.
De bruços a fazer amor comigo
na cama onde se deita a madrugada.
Mulher. Corça da noite. Erva do dia.
No peito duas rosas de alegria!
No ventre a rosa negra de cantar-te!
Mulher a quem desejo em plena rua.
A quem eu dispo. E ficas toda nua.
Que ali mesmo mulher eu quero amar-te!



Joaquim Pessoa
Portugal, Barreiro 1948
in 125 poemas – Antologia Poética
Editor: Litexa
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Meng Chiao: Não me deixes



Porque partes, assim, - amor tão caro –
Se tenho em minhas mãos as tuas vestes?
Para onde diriges o teu olhar?
Não lastimo que venhas cedo ou tarde,
Pois apenas é mágoa que haja alguém
Que ocupe, em teu amor, o meu lugar.



Meng Chiao
China 751-814
Trad. Francisco de Carvalho e Rego
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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António Feijó: A Lenda dos Cisnes


























Da praia longínqua, na areia doirada,
O Cisne pensava, fitando a Alvorada:
— «Que imensa ventura, na minha mudez,
Se dado me fosse cantar uma vez!»

— «Meu canto seria, na luz do arrebol,
Dos hinos mais altos á gloria do Sol…»

Não é das gaivotas e gansos do lago
O canto que em sonhos ardentes afago;

É quando nos bosques as aves escuto
Que a inveja confrange minha alma de luto.

Se a Aurora se lança do cume dos montes,
Até d’alegria murmuram as fontes;

Só eu, passeando o meu tédio supremo,
Nem rio, nem choro, nem canto, nem gemo.

Oh Sol, que já vejo surgindo do Mar,
Tem dó de quem, mudo, não pode cantar!»–

E o Cisne, em silencio, chorava, escutando
A orquestra das aves que passam em bando.

Das aguas rompia a quadriga d’Apollo,
E o pobre a cabeça escondia no colo…

Mas Febo detém-se nas nuvens ao vê-lo,
Com feixes de raios no fulvo cabelo,

E diz-lhe, sorrindo, n’um halo de fogo:
— «No Olimpo sagrado ouviu-se o teu rogo…»–

E nesse momento a Lira Sem Par,
Da mão luminosa deixou resvalar…

O Cisne, orgulhoso da graça divina,
Da Lira d’Apollo as cordas afina,

E rompe cantando… Calaram-se as fontes,
Calaram-se as aves… As urzes dos montes

Tremiam de gozo a ouvi-lo cantar…
E o vento sonhava na espuma do Mar.

O Cisne cantava, tirando da Lira
Um hino que nunca na terra se ouvira;

Não pára, nem sente, na sua emoção,
Que a vida lhe foge naquela canção.

Mas quando, entre nuvens, a tarde caía
No enlevo do canto que a essa hora gemia,

E Apolo no seio de Tétis desceu,
O pobre do Cisne, cantando, morreu…

Gemeram as aves; choraram as fontes;
Torceu-se nas hastes a giesta dos montes,

E o mar soluçava na tarde sombria,
Que o manto de luto com astros tecia.

Solicita espera-o, das aguas á beira,
Do Cisne, já morto, fiel companheira;

Espera que o Esposo de pronto regresse,
Mas treme e suspira, que a Noite já desce…

As aguas luzentes parecem-lhe, ao vê-las,
Um pano de enterro picado de estrelas.

Então, no seu luto, sentindo que morre,
Oceanos e praias distantes percorre;

Mergulha nas aguas, coleia nas ondas,
Espreita as galeras de velas redondas,

Que ao longe parece que vão a voar…
E o Cisne não volta, não pode voltar!

Chorosa viúva, nas aguas desliza,
Levada na fresca salsugem da brisa…

No seu abandono nem sente canseira;
Caminha, caminha, fiel companheira,

Chorando o perdido, desfeito casal…
Tão funda era a mágoa, tão grande o seu mal,

Que o peito sentindo de dor estalar,
— De dor e de angustia começa a cantar!

E canta com tanta ternura e paixão,
Que a Vida lhe foge naquela canção.

As aves despertam; calaram-se as fontes;
Nas hastes tremiam as urzes dos montes;

A Lua escutava; detinha-se a Aurora,
E as vagas gemiam no vento que chora…

Na terra, no espaço, nos astros, no céu,
Mais alta harmonia ninguém concebeu;

E os Deuses recebem, ouvindo-a, a chorar,
A alma do Cisne que expira a cantar…

Desde esse momento, no Olimpo onde entraram,
Em honra dos Cisnes que tanto se amaram,

Das almas que foram leais e sinceras,
Se Vénus se mostra, surgindo da bruma,
São eles que tiram, nas altas esferas,
A concha de nácar, cercada de espuma…




António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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António Feijó: Dyptico























M. ***

Perguntas donde vem a timidez estranha,
Este quase terror com que te falo e escuto,
Como se a sombra hostil de uma grande montanha,
Que se erguesse entre nós, me cobrisse de luto.

Ignoras a razão deste absurdo respeito
Com que te beijo a mão, que estendes complacente,
--Fria do ardor que tens concentrado no peito,
Que mão fria é sinal de coração ardente.

E admiras-te de ver que os olhos baixo, e tremo,
--Se passas como um sol de planetas cercado--
Sem dar mostras sequer desse orgulho supremo
De quem se sente eleito entre todos, e amado!

Não podes conceber que uma paixão tão alta
Se vista de recato ou de pudor mesquinho...
Mas, se é sincero, o Amor só a ocultas se exalta,
Faz-se tanto maior quanto é discreto o ninho.

E tudo o que tu crês fingida gravidade
É uma íntima oblação, pois nas almas piedosas
O Verdadeiro Amor é feito de humildade:
Sobre o anel nupcial não à pedras preciosas.




António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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Sebastião Alba: Ninguém meu Amor


























Ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Podem utilizá-lo nos espelhos
apagar com ele
os barcos de papel dos nossos lagos
podem obrigá-lo a parar
à entrada das casas mais baixas
podem ainda fazer
com que a noite gravite
hoje do mesmo lado
Mas ninguém meu amor
ninguém como nós conhece o sol
Até que o sol degole
o horizonte em que um a um
nos deitam
vendando-nos os olhos



Sebastião Alba,
Portugal, Braga 1940-2000
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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