Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

16 de fevereiro de 2016

António Feijó: Hino à alegria


























Tenho-a visto passar, cantando, à minha porta,
E às vezes, bruscamente, invadir o meu lar,
Sentar-se à minha mesa, e a sorrir, meia morta,
Deitar-se no meu leito e o meu sono embalar.

Tumultuosa, nos seus caprichos desenvoltos,
Quase meiga, apesar do seu riso constante,
De olhos a arder, lábios em flor, cabelos soltos,
A um tempo é cortesã, deusa ingénua ou bacante...

Quando ela passa, a luz dos seus olhos deslumbra;
Tem como o Sol de Inverno um brilho encantador;
Mas o brilho é fugaz, — cintila na penumbra,
Sem que dele irradie um facho criador.

Quando menos se espera, irrompe de improviso;
Mas foge-nos também com uma presteza igual;
E dela apenas fica um pálido sorriso
Traduzindo o desdém duma ilusão banal.

Onda mansa que só à superfície corre,
Toda a alegria é vã; só a Dor é fecunda!
A Dor é a Inspiração, louro que nunca morre,
Se em nós crava a raiz exaustiva e profunda!

No entanto, eu te saúdo e louvo, hora dourada,
Em que a Alegria vem extinguir, de surpresa,
Como chuva a cair numa planta abrasada,
A fornalha em que a Dor se transmuta em Beleza!

Pensar, é certo, eleva o espírito mais alto;
Sofrer torna melhor o coração; depura
Como um crisol: a chispa irrompe do basalto,
Sai o oiro em fusão da escória mais impura.

A Alegria é falaz; só quem sofre não erra,
Se a Dor o eleva a Deus, na palavra que O louve;
A Alma, na oração, desprende-se da terra;
Jamais o homem é vão diante de Deus que o ouve!

E contudo, — ilusão! — basta que ela sorria,
Basta vê-la de longe, um momento, a acenar,
Vamos logo em tropel, no capricho do dia,
Como ébrios, evoé! atrás dela a cantar!

Mas se ela, de repente, ao nosso olhar se furta,
Todo o seu brilho é pó que anda no sol disperso;
A Alegria perfeita é uma aurora tão curta,
Que mal chega a doirar as cortinas do berço.

Às vezes, essa luz, de tão frágil encanto,
Vem ainda banhar certas horas da Vida,
Como um íris de paz numa névoa de pranto,
Crepitação, fulgor duma estrela perdida.

Então, no resplendor dessa aurora bendita,
Toma corpo a ilusão, e sem ânsias, sem penas,
O espírito remoça, o coração palpita
Seja a nossa alma embora uma saudade apenas!

Mas efémera ou vã, a Alegria... que importa?
Deusa ingénua ou bacante, o seu riso clemente,
Quando, mesmo de longe, ecoa à nossa porta,
Deixa em louco alvoroço o coração da gente!

Momentânea ou falaz, é sempre um dom divino,
Sol que um instante vem a nossa alma aquecer...
Pudesse eu celebrar teu louvor no meu Hino!
Momentâneo, falaz encanto de viver!

O teu sorriso enxuga o pranto que choramos,
E eu não sei traduzir a ventura que exprimes!
Nesta sentimental língua que nós falamos,
Só a Dor e a Paixão têm acordes sublimes!



António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
photo by Google

António Feijó: Elegia de Abertura

A minha Lira tinha uma corda:
Enquanto moço tanto cantei,
Que a pobre corda despedacei.

Agora, ás vezes, se a Musa acorda,
E quer de novo pôr-se a cantar,
Ninguém a corda pode emendar.

Era uma corda que só vibrava
Quando a minha alma toda chorava,
E tantas mágoas, tantas, cantei,
Que a pobre corda despedacei.

O Amor e as penas da Mocidade,
Quimera ou Sonho de cada dia,
Eram os temas que ela escolhia.

Porém um dia veio a Saudade,
D'olhos vidrados e humedecidos,
Poisar-lhe os dedos emagrecidos...

Então, vibrando, toda chorosa,
Sob esses dedos, brancos de cera,
Mais angustiada nunca gemera!

E uma alma nova tão dolorosa,
Com tanta mágoa nela ressoa,
Que um ai supremo despedaçou-a!

Desde esse instante, nas minhas penas,
Sem essa corda que me sustinha,
--Pobre Saudade! chora sozinha...

Manhãs de estio, tardes serenas,
Ocasos de oiro, nocturno céu,
Para os meus olhos, tudo morreu!

Mas a Saudade, no meu tormento,
Geme e soluça com tanta mágoa,
Que, a ouvi-la, os olhos enchem-se d'água,

E sem um grito, sem um lamento,
Minha alma vive na dor que a enleia,
Como uma aranha na sua teia...

A minha Lira tinha uma corda:
Enquanto moço tanto cantei,
Que a pobre corda despedacei.

Agora, ás vezes, se a Musa acorda,
E quer de novo pôr-se a cantar,
Ninguém a corda pode emendar...

A Mocidade não pensa em nada,
E a pobre corda vi-a quebrada
Quando tocava mais afinada...

A Mocidade não pensa em nada!



António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
photo by Google

António Feijó: Hino à Solidão





























Diz-se que a solidão torna a vida um deserto;
Mas quem sabe viver com a sua alma nunca
Se encontra só; a Alma é um mundo, um mundo aberto
Cujo átrio, a nossos pés, de pétalas se junca.

Mundo vasto que mil existências povoam:
Imagens, concepções, formas do sentimento,
— Sonhos puros que nele em beleza revoam
E ficam a brilhar, sóis do seu firmamento.

Dia a dia, hora a hora, o Pensamento lavra
Esse fecundo chão onde se esconde e medra
A semente que vai germinar na Palavra,
Cantar no Som, flores na Cor, sorrir na Pedra!

Basta que certa luz de seus raios aqueça
A semente que jaz na sua leiva escondida,
Para que ela, a sorrir, desabroche e floresça,
De perfumes enchendo as estradas da Vida.

Sei que embora essa luz nem para todos tenha
O mesmo brilho, o mesmo impulso criador,
Da Glória, sempre vã, todo o asceta desdenha,
Vivendo como um deus no seu mundo interior.

E que mundo sublime, esse em que ele se agita!
Mundo que de si mesmo e em si mesmo criou,
E em cuja criação o seu sangue palpita,
Que não há deus estranho aos orbes que formou.

Nem lutas, nem paixões: ideais serenidades
Em que o Tempo se esvai sob o encanto da Hora...
O passado e o porvir são ânsias e saudades:
Só no instante que passa a plenitude mora.

Sombra crepuscular, que a Noite não atinge,
Nem a Aurora desfaz: rosicler e luar,
Meia tinta em que a Alma abre os lábios de Esfinge,
E o seu mistério ensina a quem sabe escutar.

Mas então, inundando essa penumbra doce,
De não sei que sublime esplendor sideral,
Como se a emanação dum ser divino fosse,
Deixa no nosso olhar um reflexo imortal.

Na vertigem que a vida exalta e desvaria,
Pára alguém para ouvir um coração que bate
No seio mais formoso, o olhar que se extasia
Vê o mundo que nele em ânsias se debate?

É só na solidão que a alma se revela,
Como uma flor nocturna as pétalas abrindo,
A uma luz, que é talvez o clarão duma estrela,
Talvez o olhar de Deus, de astro em astro caindo...

E dessa luz, a flor sem forma, há pouco obscura,
Recebe o seu quinhão de graça e de pureza,
Como das mãos do artista, animando a escultura,
O mármore recebe a sua alma — a Beleza.

Se sofrer é pensar, na paz do isolamento,
Como dum cálix cheio o líquido extravasa,
A Dor, que a Alma empolgou, transborda em pensamento,
E a pouco e pouco extingue o fogo em que se abrasa.

Como a montanha de oiro, a Alma, em seu mistério,
À superfície nunca o seu teor revela;
Só depois de sondado e fundido o minério
Se conhece a riqueza acumulada nela.

Corações que a Existência em tumulto arrebata!
Esse oiro só se extrai do minério candente,
No silêncio, na paz, na quietação abstracta,
Das estrelas do céu sob o olhar indulgente...



António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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13 de janeiro de 2016

António Feijó: Beatitude Amarga



Esqueço-me a admirar os teus olhos profundos
E imagino que estou sentado à beira mar:
Vejo as ondas a erguer-se, arquipélagos, mundos,
Naufrágios, temporais, mar de leite e de luar...

Medroso, o coração tenta fugir, mas treme:
O abismo atrai o abismo! E, desvairadamente,
Despenha-se no mar, como um barco sem leme,
De onda em onda, à mercê do vento e da corrente.

Vejo-o ainda um momento a esconder-se na bruma,
E sinto uma impressão de angustia e de pesar,
--Seguindo ansiosamente o seu rasto de espuma--
Por supor que partiu para não mais voltar!

Mas tu falas, e, ao som da tua voz, desperto;
Volto a mim desse estranho sonho, a alma perdida,
Com o vago terror e o pensamento incerto
Do naufrágio que à praia ainda chegou com vida.



António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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25 de dezembro de 2015

Walt Whitman: Perfumados prados do meu peito













Perfumados prados do meu peito,
Colho as vossas folhas, escrevo, para melhor as estudar depois,
Folhas dos túmulos, folhas do corpo crescendo sobre mim, sobre a morte,
Raízes vivas, altas folhas, oh o inverno não vos enregelará, delicadas folhas.
De novo floresceis todos os anos, de novo saindo do vosso retiro;
Eu não sei se muitos ao passar vos hão-de descobrir ou aspirar tão 
          suave aroma, mas sei que alguns o farão;
Oh delicadas folhas! Flores do meu sangue! Falai à vossa maneira do coração
que por baixo tendes,
Eu não sei qual o vosso subterrâneo sentido, não sois a felicidade,
Sois muitas vezes tão cruéis que não vos posso suportar, queimais-me e feris-me,
E, todavia, que bela sois aos meus olhos, raízes levemente coloridas, fazendo-me
pensar na morte,
A julgar  por vós a morte é bela, (enfim, que haverá de mais belo senão a morte
e o amor?),
Oh creio que não é em louvor da vida que aqui canto o meu canto de amantes,
creio que é em louvor da morte,
Pois, como é sereno, como floresce solenemente ao elevar-se à atmosfera
dos amantes!
Vida ou morte, tanto me faz, a minha alma recusa-se a escolher,
(Talvez a alma sublime dos amantes prefira a morte),
Na verdade, ó morte, penso que estas folhas significam o mesmo que tu,
Crescei, doces folhas, para que vos possa ver! Crescei sobre o meu peito!
Abandonai o coração que aí se oculta!
Não vos enredeis, tímidas folhas, em vossas rosadas raízes!
Não vos quedeis aí, envergonhadas, ervas do meu peito!
Vinde, estou decidido a desnudar este amplo peito, tanto tempo o reprimi
e sufoquei;
Emblemáticas e caprichosas folhas, deixo-vos, pois já não me sois úteis,
Sem rodeios direi o que tenho a dizer,
Só a mim e aos companheiros hei-de cantar, jamais atenderei outra voz que
não a sua,
Despertarei ecos imortais em todos os estados do meu país,
Aos amantes darei um exemplo que seja para sempre forma e vontade em todos
os estados do meu país,
Pronunciarei as palavras que exaltem a morte,
Dá-me então a tua música, ó morte, para estarmos em harmonia,
Dá-te a mim porque agora sei que acima de tudo me pertences e que tu e o amor
estão inseparavelmente unidos,
Não permitirei que me enganes mais com isso a que chamava vida,
Porque enfim compreendo que és os conteúdos essenciais,
Que, por qualquer razão, te escondes nestas mutáveis formas de vida, e que
elas existem sobretudo para ti,
Que, para além delas, surges e permaneces, tu, realidade real,
Que, sob a máscara das coisas materiais, aguardas pacientemente, não importa
quanto tempo,
Que, talvez um dia, tudo dominarás,
Que talvez dissipes todo este imenso desfile de aparências,
Que talvez seja para ti que tudo existe mas não perdura,
Mas tu perdurarás.



Walt Whitman
USA 1819-1892
Trad. José Agostinho Baptista
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Pedro Salinas: Quanto sabe a flor!

   Quanto sabe a flor! Sabe ser branca
quando é jasmim, e roxa quando é lírio.
Sabe abrir o botão
sem reservar doçuras para si,
ao olhar ou à abelha.
Permite sorridente
que se faça mel com sua alma.
Quanto sabe a flor! Sabe deixar-se
colher por ti, para que tu a leves,
erguida, em teu peito numa noite.
Sabe fingir, quando no dia seguinte
de ti a afastas, que não é a mágoa
por tu a abandonares que a faz murchar.
Quanto sabe a flor! Sabe o silêncio;
e possuindo uns lábios tão formosos
sabe calar o «ai!» e o «não», e ignora
a negativa e o soluço.
Quanto sabe a flor! Sabe entregar-se,
dar, dar tudo o que é seu a quem a quer,
sem pedir mais que isso: que lhe queira.
Sabe, simplesmente sabe, amor.




Pedro Salinas
Espanha, Madrid 1891 – EUA, Boston 1951
in Rosa do Mundo -  2001 Poemas Para o Futuro
Trad. de José Bento
Editor: Assirio & Alvim
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António Botto: Canção


Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: – a luz do dia!
- Bendito seja o teu sorriso
Que desata a inspiração
Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!
- Se desejo o teu corpo é porque tenho
Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água – música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
- Mas de tudo que possas ser na vida,
Só quero, meu amor, que sejas alma!



António Botto
Portugal, Concavada 1897 
Brasil, Rio de Janeiro 1959
in Canções e outros poemas
Editor: Edições Quasi
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António Feijó: Epílogo

Como um cativo, aqui te deixo, Pensamento,
As asas de oiro amarfanhadas,
Com o esforço que fiz de forma e sentimento,
Nestas estrofes mal rimadas...

Os meus olhos, a noite imensa perscrutando,
Viram-te belo e refulgente;
E ao teu contacto, a Alma em trevas, despertando,
Iluminou-se de repente.

A cadeia, que ao lodo obscuro a tinha presa,
Fundiu-se ao beijo que lhe deste;
E a alma liberta, ao sol da Graça e da Beleza,
Abriu, cantando, a asa celeste!

Descendo para mim doutras esferas, vinhas
Banhado ainda em luz sublime;
Via-te bem, sentia os encantos que tinhas,
Mas a palavra não te exprime.

E quem hoje te vê, n'estas imagens frias,
Encarcerado em duro engaste,
Nem por sombras supõe com que esplendor fulgias,
Quando aos meus olhos te mostraste!

Nem as outras visões que ficaram sem forma
Em nebulosa inconsistente,
A espera d'essa luz que ao vir de ti transforma
O pó da terra em oiro ardente...




António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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28 de novembro de 2015

Eugénio de Andrade: As Palavras

 As Palavras
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm,
cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?



Eugénio de Andrade
Portugal, Póvoa de Atalaia 1923 – Porto 2005
in Poesia
Editor: Fundação Eugénio de Andrade
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Fernando Pessoa: Mar Português


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.



Fernando Pessoa
Portugal, Lisboa 1888-1935
in Mensagem
Editor: Ática
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Ugo Betti: Pecado Original




























A luz sobre os calmos mares
lentamente difundiu-se;
Dormiam como cerradas folhas
os continentes solitários.
E adiantaram-se as duas criaturas
Amedrontadas, dando-se a mão,
por dentro do silêncio e da frescura.

Aos seus passos, como uma pomba
desaninhada o eco elevou-se, depois emudeceu.
Timidamente abriram a ramagem...
espiaram a cava sombra das águas...
e naquela sombra avistaram dois rostos
que subiam fremendo
por entre os céus revoltos.

Então, com grande pasmo e medo,
olharam-se, tocaram-se,
Nus estavam, entre o céu e as rochas
e arripiavam-se, como ao vento,
Dentro dos torsos de argila
Inchava-se uma ignota
tristeza, com o mugir da onda...
Depois caíram. E gravaram a lama
com indelével cunho.



Ugo Betti
Itália, Camerino 1892- Itália, Roma 1953
Trad. Hermínia Ferreira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Jaime Sabines: Eu não sei ao certo…





















Eu não sei ao certo, mas suponho
que uma mulher e um homem
um dia se amam,
vão ficando sozinhos pouco a pouco,
algo em seu coração lhes diz que estão sós,
sós sob a terra se penetram,
vão-se matando um ao outro.

Tudo se faz em silêncio. Como
a luz se faz dentro dos olhos.
O amor une corpos.
Em silêncio vão-se enchendo um ao outro.

Qualquer dia acordam sobre braços;
pensam então em tudo.
Vêem-se nus e sabem tudo.

(Eu não sei ao certo. Suponho-o).



Jaime Sabines
México, Tuxtla Gutiérrez 1926 – Cidade do México 1999
Trad. José Bento
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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Fleur Adcock: Mulher para Marido

Da ira para o poço do sono
Deslizas de repente. A calma
Cai em mim gradualmente, um nevão
Suave, uma capa leve para atordoar
Os nervos arrepanhados, durante algum tempo.

A tua cabeça na almofada virada para o outro lado;
A minha cara escondida. Mas debaixo da neve
Rebentos endireitam-se, o filamento verde
Ergue-se instintivamente. Não se duvide
Dessa virtude de determinação na carne insciente:
Entre os nossos corpos uma tepidez cresce;
As mãos mexem-se debaixo dos cobertores,
As tuas costas tocam o meu peito, as nossas coxas
Rodam para encontrar o lugar que conhecem.
A tua boca move-se sobre a minha cara:
Ousaremos, agora, abrir os olhos?



Fleur Adcock
Nova Zelândia, Auckland 1934
Trad. José Alberto Oliveira
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
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António Feijó: Moiro e Cristã


O pobre moiro enamorou-se
De Ely, moça cristã, sendo filho do Emir...
Tamanha dor sentiu, que o mísero exilou-se,
Como se alguém pudesse à própria dor fugir!

Longe, na terra alheia, abrasa-lhe a memória
A imagem da mulher que a vida lhe prendeu,
Vendo-a morta, a sorrir sob um nimbo de glória,
Mas no esplendor de um céu que nem mesmo era o seu...

Por sua vez, Ely nunca pôde esquecê-lo,
E nesse imenso amor, com presságios de agoiro,
Sentia-se morrer, como um lírio no gelo,
Sem o doce luar dos seus olhos de moiro...

Mas no instante supremo, ambos crentes, temendo
Que a Morte os separasse, em tão opostos céus,
Ele invocou Jesus, cheio de fé, morrendo;
E a cristã murmurou: «Alá! só tu és Deus!»





António Feijó
Portugal, Ponte de Lima 1859 – Suécia, Estocolmo 1917
in “ Sol de Inverno “ seguido de vinte poesias inéditas
Introd. Álvaro Manuel Machado
Editor: Imprensa Nacional-Casa da Moeda
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