Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

Mostrar mensagens com a etiqueta Ana Cristina Cesar. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ana Cristina Cesar. Mostrar todas as mensagens

6 de maio de 2022

Ana Cristina Cesar, Anônimo


 
Sou linda; quando no cinema você roça
o ombro em mim aquece, escorre, já não sei mais
quem desejo, que me assa viva, comendo
coalhada ou atenta ao buço deles, que ternura
inspira aquele gordo aqui, aquele outro ali, no
cinema é escuro e a tela não importa, só o lado,
o quente lateral, o mínimo pavio. A portadora
deste sabe onde me encontro até de olhos
fechados; falo pouco; encontre; esquina de 
Concentração com Difusão lado esquerdo de 
quem vem, jornal na mão, discreta.



Ana Cristina Cesar
Brasil, 1952-1983
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google

Ana Cristina Cesar, Arpejos



 1
Acordei com coceira no hímen. No bidê com espelhinho
examinei o local. Não surpreendi indícios de moléstia. Meus
olhos leigos na certa não percebem que um rouge a mais tem
significado a mais. Passei pomada branca até que a pele (rugosa
e murcha) ficasse brilhante. Com essa murcharam igualmente
meus projetos de ir de bicicleta à ponta do Arpoador.
O selim poderia reativara irritação. Em vez decidi me dedicar
à leitura.

2
Ontem na recepção virei inadvertidamente a cabeça contra o
beijo de saudação de Antônia. Senti na nuca o bafo seco do susto.
Não havia como desfazer o engano. Sorrimos o resto da noite.
Falo o tempo todo em mim. Não deixo Antônia abrir sua boca
de lagarta beijando para sempre o ar. Na saída nos beijamos de
acordo dos dois lados. Aguardo crise aguda de remorsos.

3
A crise parece controlada. Passo o dia a recordar o gesto involuntário.
Represento a cena ao espelho. Viro o rosto à minha própria
imagem sequiosa. Depois me volto, procuro nos olhos dela signos
de decepção. Mas Antônia continuaria inexorável. 
Saio depois de tantos ensaios. O movimento das rodas me desanuvia
os tendões duros. Os navios me iluminam. 
Pedalo de maneira insensata.



Ana Cristina Cesar
Brasil, 1952-1983
in Antologia da Poesia Erótica Brasileira
Editor: Tinta da China
photo by Google