Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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20 de março de 2014

Lord Byron: Neste dia completo o meu 36º aniversário



É tempo deste coração permanecer insensível
porque já não pode comover o dos outros:
mas, se por ninguém eu posso ser amado,
ainda quero amar!

Os meus dias estão nas folhas já caídas;
as flores e os frutos do amor abandonaram-me;
a ninguém o verme, o cancro e o desgosto
poderão pertencer!

Como uma ilha vulcânica, sozinho
o fogo vem consumir-se no meu peito;
não há nenhum lume que aí se reacenda
─ uma chama funerária!


A esperança, o temor e o ciúme,
tudo o que é excessivo no sofrimento,
e o poder do amor, não posso compartilhar,
só lhes sofro as cadeias.

Mas é assim ─ não é neste lugar ─
que deviam estes pensamentos abalar-me, nem agora
quando a enfrenta o túmulo do herói
ou lhe coroa a fronte.

A espada a insígnia e o campo de batalha,
a glória e a Grécia, contemplo à minha volta!
O guerreiro espartano, levado sobre o escudo,
não era mais livre.

Desperta (que a Grécia, ela está acordada!)
Desperta meu espírito! Pensa naquele
que faz correr o teu sangue vital para o lago materno
onde fica o destino.

Subjuga os desejos que despertam ainda,
virilidade indigna! ─ para ti
deveriam ser indiferentes o sorriso ou o duro
olhar da Beleza.

Para que vives, se lamentas a tua juventude?
Aqui fica o lugar de uma morte honrosa.
Caminha para a luta, e deixa que se apague
o teu último alento!

Procura ─ sem o procurar, tê-lo-ias encontrado ─
o túmulo de um soldado, aquilo que mereces;
olha por fim à volta e prefere esta terra,
aceita o teu descanso.


Este poema data de 22 de janeiro de 1824, foi escrito
na Grécia, em Missolonghi, onde Byron viria a falecer
três meses depois.


Lord Byron
Reino Unido (Londres) 1788- Grécia1824
in “ Poesia Romântica Inglesa
Byron, Shelley, Keats)
Editor: Relógio D’agua
photo by Google

Lord Byron: A tempestade (2)



















Estão calmos o céu e a terra – mas não adormecidos;
sem ânimo, como nós sob o efeito das grandes paixões,
e tão silenciosos como se despertássemos de profundos
                                       pensamentos.
Estão calmos o céu e a terra; desde as altas hostes
das estrelas ao lago tranquilo e às margens montanhosas,
Tudo se concentra numa vida intensa
onde nem uma folha, uma brisa, um reflexo se perdem,
pois  todos são uma parte do ser, do sentimento
daquele que de tudo é Criador e defensor.

Agita-se assim a emoção do infinito, sentida
neste abandono em que o homem está menos sozinho;
a verdade que em todo o nosso ser se funde
e nos purifica de nós mesmos é um acorde,
alma e fonte da música que nos ensina
a eterna harmonia, derramando um encantamento
lendário, como a cintura de Vénus,
que  reúne tudo pela beleza, e desafiaria
a Morte, se tivesse o verdadeiro poder de destruir.

Não foi sem razão que os antigos Persas edificaram
as aras nos mais elevados lugares, no cume
das montanhas que contemplar a terra, e assim
                                      escolhem
um templo verdadeiro e sem muralhas, onde encontram
o Espírito – e nunca em santuários que as nossas mãos
constroem em seu louvor. Vinde então comparar
colunas e altares de ídolos, góticos ou gregos,
com os lugares sagrados da Natureza, a terra e o ar,
e não vos confineis a templos que limitam as vossas
                                     preces.

O céu mudou-se – e que transformação! Oh noite,
tempestade, trevas, sois surpreendentemente fortes,
embora sedutoras no vosso poderio, como o brilho
dos olhos sombrios duma mulher! Ao longe,
de monte em monte, entre os ecos dos rochedos
o trovão vibra. Não é duma única nuvem que vem,
mas cada montanha encontrou agora a sua linguagem,
e o Jura responde, com o seu manto de neblina,
aos jubilosos Alpes, cujo apelo ressoa vivamente.

Tudo chegou contigo – noite tão gloriosa,
a que não se destinam os nossos sonhos; deixa-me
                                     partilhar
do teu violento, longínquo encantamento
uma parte da tempestade e de ti mesma, noite!
Ah, como resplandece o lago, um fosfórico mar,
e a chuva é impelida e abate-se sobre a terra!
Mais uma vez tudo é escuridão – e, agora, a alegria
das colinas sonoras freme com todo o excesso
que delas nasce como se fosse um novo cataclismo.

…………………………………………………………………………

Se pudesse encarnar e tirar agora do meu seio
aquilo que nele é mais profundo, se pudesse cingir
com palavras estes meus pensamentos, e assim exprimir
alma, coração, e espírito, paixões e todos os
                                     sentimentos,
ah, tudo o que poderia desejar, e desejo,
sofro, conheço e sinto, sem que morra, numa só palavra
- e que essa palavra fosse “Relâmpago!” – eu a diria;
mas não, vivo e morro voltando para o silêncio apenas,
com sufocadas vozes que guardo como uma espada…


Lord Byron
Reino Unido (Londres) 1788- Grécia1824
in “ Poesia Romântica Inglesa
Byron, Shelley, Keats)
Editor: Relógio D’água
photo by Google

30 de junho de 2013

Assim, não iremos vaguear de novo: Lord Byron


Assim, não iremos vaguear de novo
Tão tarde errar pela noite dentro,
Mesmo que o coração esteja amoroso
E a lua brilhe no firmamento

A espada clara mais do que a bainha,
A alma mais que o peito, e o coração,
Com as pausas que faz, melhor respira,
Pra que o próprio anor descanse então.

Fosse embora a noite feita para amar
E regresse cedo demais o dia,
Não iremos outra vez vaguear
Quando o luar nos alumia.


Lord Byron
England 1788-1824
Tradução de António Simões

30 de janeiro de 2012

To Romance by Lord Byron

Parent of golden dreams, Romance!
Auspicious Queen of childish joys,
Who lead'st along, in airy dance,
Thy votive train of girls and boys;
At length, in spells no longer bound,
I break the fetters of my youth;
No more I tread thy mystic round,
But leave thy realms for those of Truth.

And yet 'tis hard to quit the dreams
Which haunt the unsuspicious soul,
Where every nymph a goddess seems,
Whose eyes through rays immortal roll;
While Fancy holds her boundless reign,
And all assume a varied hue;
When Virgins seem no longer vain,
And even Woman's smiles are true.

And must we own thee, but a name,
And from thy hall of clouds descend?
Nor find a Sylph in every dame,
A Pylades in every friend?
But leave, at once, thy realms of air i
To mingling bands of fairy elves;
Confess that woman's false as fair,
And friends have feeling for---themselves?

With shame, I own, I've felt thy sway;
Repentant, now thy reign is o'er;
No more thy precepts I obey,
No more on fancied pinions soar;
Fond fool! to love a sparkling eye,
And think that eye to truth was dear;
To trust a passing wanton's sigh,
And melt beneath a wanton's tear!

Romance! disgusted with deceit,
Far from thy motley court I fly,
Where Affectation holds her seat,
And sickly Sensibility;
Whose silly tears can never flow
For any pangs excepting thine;
Who turns aside from real woe,
To steep in dew thy gaudy shrine.

Now join with sable Sympathy,
With cypress crown'd, array'd in weeds,
Who heaves with thee her simple sigh,
Whose breast for every bosom bleeds;
And call thy sylvan female choir,
To mourn a Swain for ever gone,
Who once could glow with equal fire,
But bends not now before thy throne.

Ye genial Nymphs, whose ready tears
On all occasions swiftly flow;
Whose bosoms heave with fancied fears,
With fancied flames and phrenzy glow
Say, will you mourn my absent name,
Apostate from your gentle train
An infant Bard, at least, may claim
From you a sympathetic strain.

Adieu, fond race! a long adieu!
The hour of fate is hovering nigh;
E'en now the gulf appears in view,
Where unlamented you must lie:
Oblivion's blackening lake is seen,
Convuls'd by gales you cannot weather,
Where you, and eke your gentle queen,
Alas! must perish altogether.

Lord Byron
(England 1788-1824)

12 de dezembro de 2011

1824 January 22nd. Missolonghi by Lord Byron

On this day I complete my thirty sixth year


‘Tis time this heart should be unmoved,
Since others it hath ceased to move:
Yet though I cannot be beloved
Still let me love!

My days are in the yellow leaf;
The flowers and fruits of Love are gone;
The worm – the canker, and the grief
Are mine alone!

The fire that on my bosom preys
Is lone as some Volcanic Isle;
No torch is kindled at its blaze
A funeral pile!

The hope, the fear, the jealous care,
The exalted portion of the pain
And power of Love I cannot share,
But wear the chain.

But ‘tis not thus – and ‘tis not here
Such thoughts should shake my soul, nor now
Where Glory decks the hero’s bier
Or binds his brow.

The Sword, the Banner, and the Field,
Glory and Greece around us see!
The Spartan borne upon his shield
Was not more free!

Awake (not Greece – she is awake!)
Awake, my Spirit! Think through whom
Thy life-blood tracks its parent lake
And then strike home!

Tread those reviving passions down
Unworthy Manhood – unto thee
Indifferent should the smile or frown
Of Beauty be.

If thou regret’st thy Youth, why live?
The land of honourable Death
Is here: - up to the Field, and give
Away thy Breath!

Seek out – less often sought than found –
A Soldier’s Grave, for thee the best;
Then look around, and choose thy Ground,
And take thy Rest!


Lord Byron
(England 1788-1824)

When we two parted by Lord Byron

When we two parted
In silence and tears,
Half-broken hearted
To sever for years,
Pale grew thy cheek and cold,
Colder thy kiss;
Truly that hour foretold
Sorrow to this


The dew of the morning
Sunk chill on my brow
It felt like the warning
Of what I feel now.
Thy vows are all broken,
And light is thy fame;
I hear thy name spoken,
And share in its shame.


They name thee before me,
A knell to mine ear;
A shudder comes o’er me
Why wert thou so dear?
They know not I knew thee,
Who knew thee too well:
Long, long shall I rue thee,
Too deeply to tell.


In secret we met
In silence I grieve,
That thy heart could forget,
Thy spirit deceive.
If I should meet thee
After long years,
How should I greet thee!
With silence and tears. 


Lord Byron
(England 1788-1824)

27 de setembro de 2011

Lord Byron: Estâncias para a música



Muita mulher tem beleza,
Nenhuma a tua magia;
E a tua voz tal riqueza,
Que nem a da melodia
Por sobre as águas do mar:
Quando, num encantamento,
Sonhando adormece o vento
E a onda para um momento
E desfalece a brilhar…
E a lua no céu fiando
A sua teia, a sorrir;
E o mar brandamente arfando
Qual criancinha a dormir;
Assim, dentro da minha alma,
Eu me inclino, ao encontrar-te,
Me suspendo, a escutar-te,
Me curvo para adorar-te:
Com funda emoção, mas calma.

Lord Byron
(England 1788-1824)
photo by Google