Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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4 de junho de 2022

Rupi Kaur: Ter sido vitima de...

 

ter sido vitima de abuso sexual em criança foi a mais
confusa experiência da minha vida. aprender o que era
o sexo sem ter nenhum conceito do mesmo traumatizou-me
muito mais do que consigo imaginar. ter um orgasmo tão 
nova. ser ameaçada de morte. ser estendida. esmagada.
mordida. cuspida. ter-me tornado mulher aos quatro anos.
conhecer o medo intimamente. senti-lo a respirar pelo meu 
pescoço abaixo. ficar paralisada. hirta. silente. e ao mesmo
tempo ser dona de toda a vergonha do mundo.




Rupi Kaur
Índia, 1992
in corpo casa
Editor: Lua de Papel
photo by Google

28 de maio de 2022

Rupi Kaur: O sexo é uma forma de...

 

O sexo é uma forma de as pessoas
transcenderem umas nas outras
e de se dissolverem
é uma expressão terrena maravilhosa
mas para mim
o sexo foi a minha adolescência
arrastada para a morte
ele dizia
que íamos brincar
e depois fechava sempre a porta
e escolhia sempre o jogo
quando eu lhe dizia para parar
ele respondia que eu estava a pedi-las
mas que sabia eu
de orgasmos involuntários
agência
e consentimento
quando tinha 7, 8, 9, 10, anos.




Rupi Kaur
Índia, 1992
in corpo casa
Editor: Lua de Papel
photo by Google

12 de maio de 2022

Rupi Kaur, a maior parte da minha vida


a maior parte da minha vida passei-a
contigo, nós as duas a tocarmo-nos
pele com pele
as nossas noites juntas
e às vezes dias
pegaste em mim quando os meus membros se recusaram a fazê-lo
quando estava tão doente que não me conseguia mexer
nunca te cansaste do meu peso
nem uma só vez te queixaste 
foste testemunha de todos os meus sonhos
do meu sexo
da minha escrita
do meu choro
todos os atos vulneráveis da minha vida
foi contigo
as duas a rir à gargalhada
e quando louca por confiar num louco
fiz amor em cima de ti
deixei-te por uns dias só
para voltar de mãos vazias
sempre me recebeste
quando o sono me abandonava
ficávamos acordadas juntas
tu és o aconchego da minha vida
o meu altar
confessional
menina tornei-me mulher em cima de ti
e no final
serás tu - velha amiga
que me entregarás à morte bem descansada

- não há lugar mais intimo do que uma cama


Rupi Kaur
Índia, 1992
in corpo casa
Editor: Lua de Papel
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Rupi Kaur, os homens como ele...


às vezes
amo-te significa
que quero amar-te

às vezes
amo-te significa
fico mais um bocado

às vezes
amo-te significa
não sei ir-me embora

às vezes
amo-te significa
não tenho mais para onde ir


Rupi Kaur
Índia, 1992
in corpo casa
Editor: Lua de Papel
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Rupi Kaur, de cada vez que te...

 


de cada vez que te mostrava um pedaço do céu
era um aviso
cada passeio que dávamos
pelo jardim da minha vida
todas as flores que floriam para ti
os pavões que cantavam o teu nome
eram um sinal
contudo
depois de veres toda a magia
bateste com a cabeça e perdeste-a
saíste e dispersaste-te pela cidade
a pensar que se tinhas a sorte de me ter experimentado
conseguirias pôr as mãos em coisa melhor
mas tudo tinha a cor do tédio em comparação
agora voltaste
corpo derramado pelo chão fora
a implorar
que eu te esmague com as minhas coxas
que te puxe para as minhas ancas
que te leve ao céu com a minha cona
comigo tiveste a maior viagem da tua vida
comigo tiveste visões
de cada vez que te mostrava um pedaço do céu
cada passeio que demos no jardim da minha vida
todas as flores que se abriam para ti
os pavões que cantavam o teu nome
eram um sinal de tudo o que perderias
se me traísses

- consequências



Rupi Kaur
Índia, 1992
in corpo casa
Editor: Lua de Papel
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Rupi Kaur, tenho medo de não...

 


tenho medo de não encontrar aquele que assim que me vir
correrá para me respirar
tenho medo de parecer demasiado desesperada 
tenho medo de ser trocada
por uma mulher mais brilhante
mais impressionante
mais eu em todos os sentidos
aterrorizada de que isso confirme o que já sei
que não sou boa o suficiente para fazer alguém ficar
onde está o fósforo aceso que me pegará fogo
e se já me cruzei com ele
e estraguei tudo
quem me amará o suficiente
para se dar ao trabalho de se aproximar
de alguém tão inconsciente
e se aquele que quero
é alguém que me toca e foge
e se aquele que não foge
é alguém que não suporto que me toque
será que será sempre má altura
será que vou ter a certeza
será que algum dia vou assentar
será que vou ficar sozinha para sempre


Rupi Kaur
Índia, 1992
in corpo casa
Editor: Lua de Papel
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5 de maio de 2022

Rupi Kaur, Dantes chorava porque

 
dantes chorava
porque não conseguia encontrar
um homem bom que me amasse
agora encontrei um e
ele não me chega
e os outros estavam sempre
prontos para se ir embora

-era isso que os tornava atraentes



Rupi Kaur
Índia 1992
in corpo casa
Editor: Lua de Papel
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Rupi Kaur, Num mundo que considera que

 

num mundo que considera

que o meu corpo não é meu

dar-me prazer

é um ato de autopreservação

quando me sinto desligada

conecto-me com o meu centro

toque a toque

retiro-me para dentro de mim

no orgasmo



Rupi Kaur

Índia 1992

in corpo casa

Editor: Lua de Papel

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Rupi Kaur, Quero que apagues tudo

 

quero que apagues

tudo o que sabes sobre o amor

e comeces com uma palavra

gentileza

dá-lhe a tua gentileza

e que ele seja gentil contigo

sejam dois pilares

iguais no vosso amor

e conseguirão carregar impérios aos vossos ombros



Rupi Kaur

Índia 1992

in corpo casa

Editor: Lua de Papel

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Rupi Kaur, Enrolo as minhas pernas sagradas

 


enrolo as minhas pernas sagradas

na sua cabeça pesada

e deixo que a língua dele nade

a caminho da salvação


-batizar



Rupi Kaur

Índia 1992

in corpo casa

Editor: Lua de Papel

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Rupi Kaur, O meu corpo está excitado por te desejar

 


o meu corpo está excitado por te desejar

que já estou molhada quando despimos a roupa

quero aquele amor que

me transporta

para outro reino

quero-te tão profundamente

que entramos no mundo do espírito

vamos da doçura à brutalidade

quero olhos nos olhos

afasta as minhas pernas

cada uma para seu lado

e vê com os teus dedos

quero que toques a minha alma

com a ponta da tua alma

quero sair deste quarto

diferentes pessoas


-consegues?



Rupi Kaur

Índia 1992

in corpo casa

Editor: Lua de Papel