Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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29 de março de 2013

Auto de fé: Manuela Amaral


 Não me arrependo dos amores que tive
dos corpos de mulher por quem passei
      a todos fui fiel
      a todos eu amei

Não me arrependo dos dias e das noites
em que o meu corpo herói ganhou batalhas
A um palmo do umbigo eu fui primeira
      a divina
      a deusa

a verdadeira mulher – sem rival.

Amei tantas mulheres de que nem sei o nome
eu só me lembro apenas
      de abraços
      de pernas
      de beijos
      e orgasmos

E no amor que dei
e no Amor que tive
eu fui toda mulher – fui vertical

Eu fui mulher em espanto
fui mulher em espasmo
fui o canto proibido e solitário

      Só tenho um itinerário: Amor-Mulher.


Manuela Amaral
(Portugal 1934-1995)

Sexo/Cama: Manuela Amaral



Fui ordinária
 requintada
tímida
Misturei poesia com vários palavrões

Gritei
Uivei
Gemi
Rasguei almofadas e lençóis

Fui carnaval de amor
no circo de uma cama.


Manuela Amaral
(Portugal 1934-1995)




Teu corpo de agosto: Manuela Amaral


Teu corpo é agosto

Tu cheiras a verão
por baixo das veias

Tu cheiras a quente

Tu cheiras à febre
do sangue maduro

      Teu ventre de orgia
      teu cheiro a sodoma
      aroma-mulher

Teu corpo de agosto
tem cheiro a setembro


Manuela Amaral
(Portugal 1934-1995)

No conjugar amor: Manuela Amaral


Descobrimos coisas
      que ninguém mais sabe

 
Coisas diversas do saber comum.

      A transfusão que existe no beijar
quando a ternura é líquida

      E a transparência
      opaca
      do suor
      quando o amor é feito

      E o jeito que nos fica
      de namorar o corpo

      E o exagero em tudo que se diz
      nas juras repetidas

Descobrimos coisas
      que ninguém mais sabe
      e que aprendemos juntas.



Manuela Amaral
(Portugal 1934-1995)

Grito Erótico: Manuela Amaral


Caluniaste o meu corpo
ao longo dos teus gestos

sem medida

Desde a palavra exacta
do meu sexo
e soletraste-me puta

      Puta
      Puta

Angustiosamente erótica
abri-me em coxas
e penetrei-te na minha fauna aquática
      Grito marinho
      a escorrer nas algas
      do meu ventre

      Puta
      Puta.


Manuela Amaral
(Portugal 1934-1995)