Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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10 de junho de 2022

José Asunción Silva: O mal do século



O doente:
Doutor, um desalento da vida
que no meu íntimo se enraíza e nasce,
o mal do século... o mesmo mal de Werther,
de Rolla, de Manfredo e de Leopardi.
Um cansaço de tudo, um absoluto
desprezo pelo humano... um incessante
renegar do vil da existência
digno do meu mestre Shopenhauer;
um mal-estar profundo que vai crescendo
com todas as torturas da análise...

O Médico:
-- Isso é uma questão de regime: caminhe
pela manhãzinha; durma bem; tome banho;
beba à vontade; coma melhor; muito cuidado consigo:
O que você tem é fome...!




José Asunción Silva
Colômbia, 1865-1896
photo by Google

29 de maio de 2022

José Asunción Silva: Nocturno

 

       Uma noite,
uma noite toda cheia de perfumes, de murmúrios e de músicas de asas,
       uma noite
em que ardiam na sombra nupcial e húmida, pirilampos fantásticos,
ao meu lado, lentamente, a mim toda cingida,
       muda e pálida
como se um pressentimento de amarguras infinitas,
até ao fundo mais secreto das tuas fibras te agitasse,
pelo atalho que atravessa a campina em flor
       caminhavas
       e a lua cheia
pelos céus azúleos, infinitos e profundos espargia a sua luz branca,
       e a tua sombra
       fina e lânguida,
       e a minha sombra
pelos raios da lua projectadas,
sobre as areias tristes
da vereda se juntavam
       e eram uma
       e eram uma
E eram uma única longa sombra!
E eram uma única longa sombra!
E eram uma única longa sombra!
       Esta noite 
       sozinho, a alma
cheia das infinitas amarguras e agonias da tua morte, 
separado de ti mesma, pela sombra, pelo tempo e a distância,
       pelo infinito negro,
       que a nossa voz não alcança,
       só e mudo
       pelo atalho caminhava,
e ouvia-se o ladrar dos cães à lua,
       à lua pálida,
       e o coaxar
       das rãs...
Tive frio, era o frio que sentiam no quarto
as tuas faces e a tua testa e as tuas mãos adoradas,
       entre as brancuras níveas
       das brancas mortalhas!
Era o frio do sepulcro, era o frio da morte,
       era o frio do nada...
       e a minha sombra
pelos raios da lua projectada.
       ia sozinha,
       ia sozinha,
ia sozinha pela estepe solitária!
       e a tua sombra esbelta e ágil
       fina e lânguida,
como nessa noite morna da morta primavera,
como nessa noite cheia de perfumes, de murmúrios e de músicas de asas,
       abeirou-se e caminhou com ela,
       abeirou-se e caminhou com ela,
abeirou-se e caminhou com ela... Oh as sombras enlaçadas!
Oh as sombras que se procuram e se juntam nas noites de negruras e de lágrimas!




José Asunción Silva
Colômbia, 1865-1896
in UM PAÍS QUE SONHA - Cem anos de poesia colombiana
Editor: Assírio & Alvim
photo by Google

  

30 de março de 2013

José Asunción Silva: Poeta diz baixinho

                    Pota diz baixinho
                         os beijos furtivos!...


A sombra! As recordações! A lua não lançava
ali um único raio... Tremias e eras minha.
Tremias e eras minha sob a espessa folhagem,
um pirilampo errante alumiou-nos o beijo,
o contacto furtivo dos teus lábios de seda...
A selva negra e mística foi o quarto sombrio...
Naquele sitio o musgo tem um odor de reseda...
Passou luz pelos ramos como se o dia chegasse,
entre as névoas pálidas a lua aparecia...

                    Poeta diz baixinho
                         os íntimos beijos!

Ah, lembro-me ainda das noites doces!
No quarto senhorial, onde a tapeçaria
abafava o ruído com os seus fios espessos
nua nos meus braços foram teus beijos;
teu corpo de vinte anos entre a vermelha seda,
teus cabelos dourados e a tua melancolia
tuas frescuras de virgem e teu perfume de reseda...
os abatidos fios da tapeçaria.

                    Poeta diz baixinho
                         o último beijo!

Ah, lembro-me ainda da noite trágica!
O caixão heráldico no salão jazia,
o meu ouvido fatigado por vigílias e excessos,
sentiu como à distância as monótomas preces!
Tu, triste, hirta e pálida entre a seda negra,
a chama das velas tremia e movia-se,
perfumava a atmosfera um odor de reseda,
um crucifixo pálido os braços estendia
e gelada e violácea tua boca que foi minha!


José Asunción Silva
(Colômbia 1865-1896)
in Um país que sonha
"cem anos poesia colombiana"