Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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28 de maio de 2015

Victor Hugo: Já que Maio em flor


Já que Maio em flor nos prados nos quer ver,
Vem! Não deixes de na tua alma acolher
O campo, os bosques e as sombras atraentes,
O largo luar, perto das ondas dormentes,
O atalho que acaba onde começa o caminho,
E o ar, a primavera e o horizonte infindo
Que este mundo beija, humilde e divertido,
Como um lábio a bainha do celeste vestido!
Vem! Que o pudico olhar das estrelas dos céus
Que a terra contempla através de tantos véus,
Que a árvore penetrada de perfumes e cantos,
Que o sopro abrasador do meio-dia nos campos,
E a sombra e o sol e as ondas e a verdura,
E a resplandecência de toda a natura
Façam desabrochar, como uma dupla flor,
Beleza na tua fronte, no coração amor!



Victor Hugo
France?
in Poemas
Editor: Assirio & Alvim
photo by google

22 de março de 2015

Victor Hugo: O Sultão Achemet

A Joana, a Granadina,
Sempre cantante e ladina,
Disse o sultão com ardor:
― Eu daria sem favor
O meu reino por Medina
Medina por teu amor.

Faz-te cristão, rei sublime!
Pois não é bom que se afirme
O prazer ter encontrado
Nos braços de um debochado.
Não quero fazer um crime:
Já me basta um pecado.

Com as pérolas cuja graça,
Minha rainha, realça
Do teu colo o branquear,
Eu farei por te agradar,
Se quiseres que eu faça
Rosário do teu colar.    




Victor Hugo
França (Besançon) 1802-1885
in Poemas
Editor Assirio & Alvim

photo by Google

18 de fevereiro de 2015

Victor Hugo: Aparição





Vi um anjo branco que sobre mim passava;
O seu voo luminoso a tormenta acalmava,
E fazia calar ao longe o mar ruidoso.
- Que vens fazer, anjo, neste lugar tenebroso?
Respondeu: - A tua alma eu venho buscar.
Tive medo porque ouvi uma mulher a falar;
E disse-lhe, estendendo os braços a tremer:
- Que me restará? pois tu vais desaparecer.
Calou-se; o céu onde a sombra leva a palma
Escurecia... Disse: Se levares a minha alma,
Aonde a levarás? mostra-me pra que lugar.
Continuava calado. - Ó viajante do celeste lar,
Serás tu a morte? perguntei, ou és a vida?
Senti sobre a minha alma a noite estendida,
E o anjo tornou-se negro, dizendo: Sou o amor.
A fronte era mais clara que o dia em seu esplendor,
E eu via, na sombra onde luzia o seu!  olhar,
Os astros, através das asas, a brilhar.



Victor Hugo
França (Besançon) 1802-1886
in Poemas
Editor: Assirio & Alvim
photo by google