Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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15 de junho de 2022

Andreia C. Faria: Amo o som dos tambores

 

Amo o som dos tambores em noites de Verão
na percussão a melhor transcendência 
Amo essa humildade de magoar os pulsos
de rebentar a noite até que alguém regresse
na tumefacção do sangue
Amo essa forma de ponderar o sangue
de estremecer num corpo sem amante




Andreia C. Faria
Portugal, 1984
in Alegria para o fim do mundo
Editor: Porto Editora
photo by Google 

Andreia C. Faria: Segunda mão



Vesti-me sempre com as roupas de um primo 
da irmã mais velha
ou do último amor
Assim sou-lhes leal:
os dedos através dos bolsos
aflorando o sexo, a nuca
beijada de borboto, o hálito
suspenso nas golas da camisa
Com eles tropeço
na estreiteza das coxas, como cavalos
dormimos juntos no mesmo disfarce
Nada em mim cresce de que não sejam a forma
nada obsceno
que as suas roupas não cubram




Andreia C. Faria
Portugal, 1984
in Alegria para o fim do mundo
Editor: Porto Editora
photo by Google