Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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16 de junho de 2022

José Régio: Baptismo

 

A António Botto

Foi numa tarde, há muito, em que eu morria
Como num sonho ansiosamente vago.
Via nuvens fugindo sobre um lago,
Lá num deserto onde o luar nascia.

Morria a ouvir não sei que melodia
Fluir da flauta de não sei que mago...
E uma figura erguia-se do lago,
Vinha, mordia-me no peito..., e ardia.

A minha mãe que estava ao lado, quieta,
Eu dizia:-- "Mamã, quero ser poeta!"
E consumia-a num abraço estreito.

... De noite, ergueram-se uivos do horizonte.
E eu sentia correr, como uma fonte,
A chaga que se abria no meu peito!




José Régio
Portugal, 1901-1969
photo by Google

José Régio: Beleza humana



Que tem que em raptos de feroz ternura
Nas ondas da volúpia, ao meu estreite,
Nem sei se mais com dor, mais com deleite,
Do teu corpo vibrátil escultura?

Sua forma é perfeita, a linha é pura,
A cor são rosas a boiar em leite...
Mas quando é que Outro em mim nos não espreite
Delirantes de amor na noite escura...?

Sémen, urina, bílis, cuspo, suor,
Da vida da escultura são penhor...
Como esquecê-lo, ó estátua corruptível?

Que inda nem lasso o abraço, ou corpo lasso,
Já a decepção desse Outro é que enche o espaço...
E achar-te bela, ó bela; é-me impossível.




José Régio
Portugal, 1901-1969
photo by Google

15 de junho de 2022

José Régio: Painel

Era uma noite de luar medonho
(Lembro-me disto como dum sonho)
Alevantou-se um Homem a meu lado,
Todo nu, e desfigurado.

Mal me atrevendo a olhá-lo, eu que só adivinhava
Seu corpo devastado que sangrava...
E uma lembrança, longe, longe, longe, havia em mim
De já o ter amado, ou outro assim.

Seu rosto, que decerto, era sereno e puro,
Resplandecia, como um mármore, no escuro;
E as suas lágrimas, rolando devagar,
Deixavam rastros que faziam luar...

Eu prosseguia, todo trémulo e confuso,
Cheio de amor e de terror por esse intruso.
À minha mão direita, ele avançava aereamente,
Com seu ar espectral e transcendente...

Os seus pés nem pousavam no caminho;
E então, eu desatei a soluçar baixinho,
Porque notara que em seu rosto exangue
As suas lágrimas corriam misturadas com seu sangue.

Oh, onde vira eu, essa figura peregrina
Feita de terra humana e de ascensão divina?
Sim, onde a vira eu, que, só de o perguntar,
Me arrepiava, com vertigens de ajoelhar?

Mas, de repente, como um sobressalto,
E como a angústia de quem rola muito de alto,
Alguma coisa em mim passou, que pressentia,
E que se arrepelava, e que tremia...

E que em meu ombro esquerdo alguém se debruçava,
Alguém que ria um riso que espantava,
Um riso tenebroso, e cheio de atracção,
Com fogo dentro como a boca dum vulcão!

E, sem o ver, eu vi-o, todo inteiro,
Essoutro novo e inseparável companheiro:
Um que também conheço, nem sei donde nem de quando,
Por mais que me torture procurando...

E tinha pés de cabra, e tinha chifres, tinha pelos,
E tinha olhos sulfúricos, esfíngicos e belos...
A baba do seu riso escorregava-lhe da boca,
E em todo ele ardia uma lascívia louca!

À minha mão direita, absorto, aéreo, hirto,
Coroado de abrolhos e de mirto,
O Outro continuava a chorar lágrimas caladas,
Com as mãos lassas como rosas desfloradas...

Entre os dois, eu sentia-me pequeno e miserando,
Vibrando todo, tumultuando e soluçando,
Com os olhos meigos, lábios torpes -- indeciso
Entre um inferno e um paraíso!

Um riso doido e cínico, sem regra,
Subia em mim como uma onda negra,
E, estrelados de lágrimas, meus olhos inocentes
Ajoelhavam como penitentes...

Entretanto, os dois vultos desmedidos
Ias crescendo entre os meus risos e gemidos,
Crescendo sempre, sempre e tanto, que, depois,
Eu ficava esmagado entre eles dois.

A noite em que isto foi, não sei... sei lá?... (Seria
Essa em que minha mãe, com tanta angústia, me paria...)
Sei que o luar era medonho, era amarelo,
E que tudo isto parece um pesadelo!





José Régio
Portugal, 1901-1969
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24 de abril de 2013

José Régio: Cântico



Num impudor de estátua ou de vencida,
Coxas abertas, sem defesa..., nua
Ante a minha vigília, a noite, e a lua
Ela, agora, descansa, adormecida.

Dos seus mamilos roxos-azuis, em ferida,
Meu olhar desce aonde o sexo estua.
Choro... e porquê? Meu amor, irreal, flutua
Sobre funduras e confins da vida.

Minhas lágrimas caem-lhe nos peitos...
Enquanto o luar a nimba, inerte, gasta
Da ternura feroz do meu amplexo.

Cantam-me as veias poemas nunca feitos...
E eu pouso a boca, religiosa e casta,
Sobre a flor esmagada do seu sexo.


José Regio
(Portugal (Vila do Conde) 1901-1969)
In 366 poemas que falam de amor
“org. Vasco Graça Moura”
Editor: Quetzal Editora

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15 de dezembro de 2011

José Régio: União


Tenho, ainda, o teu corpo nos meus braços;
Sobre os meus ombros, teu cabelo.
Descansando dos meus e teus cansaços,
Tu dormes por nós ambos. Só eu velo.

Nos meus braços teu corpo estremeceu,
Desse tremor o meu foi percorrido.
Colados, curva a curva, onde começa o teu?
Onde se acaba o meu? Teu e meu têm sentido?

Teu ligeiro suor penetra a minha pele:
Teu suor dos transportes de há momento
Q
ue me atrevo a provar como quem lambe mel,
Em que refresco as mãos como num leve unguento.

Brandamente, por vezes, te desvio
De mim, para melhor, depois, sentir
Que és bem tu que eu agarro, acaricio,
Bem tu que eu pude, em mim, fundir.

Ai, anular-te em mim sem te perder!
Aniquilar-me em ti, - mas sendo nós!
Velo, e nem sinto a noite discorrer.
Sonho, e que sonho de que amor feroz?

Se ela viesse agora, Aquela que em seu manto
de silêncio e de sombra nos transporta,
Não seria melhor, meu doce encanto?:
Poder eu, ao morrer, ver-te já morta?

Porque amanhã,
Se não mesmo esta noite, o nosso inferno
Não mais permitirá que qualquer sombra vã
Da glória dum momento eterno.



José Régio
(Portugal 1901-1969)
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6 de dezembro de 2011

José Régio: O amor e a morte

Canção cruel 
Corpo de ânsia.
 
Eu sonhei que te prostava,
 
E te enleava
 
Aos meus músculos!
 

Olhos de êxtase,
 
Eu sonhei que em vós bebia
 
Melancolia
 
De há séculos!
 

Boca sôfrega,
 
Rosa brava
 
Eu sonhei que te esfolhava
 
Pétala a pétala!
 

Seios rígidos,
 
Eu sonhei que vos mordia
 
Até que sentia
 
Vómitos!
 

Ventre de mármore,
 
Eu sonhei que te sugava,
 
E esgotava
 
Como a um cálice!
 

Pernas de estátua,
 
Eu sonhei que vos abria,
 
Na fantasia,
 
Como pórticos!
 

Pés de sílfide,
 
Eu sonhei que vos queimava
 
Na lava
 
Destas mãos ávidas!
 

Corpo de ânsia,
 
Flor de volúpia sem lei!
 
Não te apagues, sonho! Mata-me
 
Como eu sonhei.



José Régio
(Portugal 1901-1969)
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3 de novembro de 2011

José Régio: Soneto de amor


Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma…Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se buscam desvairadas…
E que os meus flancos nus vibram no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua…- unidos
Nós trocaremos beijos e gemidos
Sentido o nosso sangue misturar-se.

Depois…- abre os teus olhos minha amada
Enterra-os bem nos meus, não digas nada…
Deixa a vida exprimir-se sem disfarce!

José Régio                                                  E entre os seios
(Portugal 1901-1969)  
photo by Google                                                                          me apertes sem receio...