Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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5 de maio de 2013

Último soneto : Mário Sá-Carneiro


Que rosas fugitivas foste ali
Requeriam-te os tapetes – e vieste...
– Se me dói hoje o bem que me fizeste,
É justo, porque muito te devi.

Em que seda de afagos me envolvi
Quando entraste, nas tardes que apareceste –
Como fui de percal quando me deste
Tua boca a beijar, que remordi...

Pensei que fosse o meu o teu cansaço –
Que seria entre nós um longo abraço
O tédio que, tão esbelta, te curvava...

E fugiste... Que importa ? Se deixaste
A lembrança violeta que animaste
Onde a minha saudade a Cor se trava?...


Mário de Sá-Carneiro
(Portugal 1890-1916)
photo by Google

18 de março de 2012

A inegualável : Mário Sá-Carneiro

Ai, como eu te quero toda de violetas
E flébil de cetim...
Teus dedos longos de marfim,
Que os sombreassem jóias pretas...

E tão febril e delicada
Que não pudesses dar um passo -
Sonhando estrelas transformada
Com estampas de cor no regaço...

Queria-te nua e friorenta,
Aconchegando-te em zibelinas -
Sonolenta,
Ruiva de éteres e morfinas...

Ah! que as tuas nostalgias fossem guizos de prata -
Teus frenesis lantejoulas
E os ócios em que estiolas,
Mar que desbarata...

Teus beijos, queria-os de tule,
Transparecendo carmim -
Os teus espasmos de seda...

Água fria e clara nua noite azul,
Água, devia ser o teu amor por mim.


Mário Sá-Carneiro 
"Portugal 1890-1916"
in 366 poemas que falam de amor
Org: Vasco Graça Moura
Editor: Quetzal Editores

photo by Google

11 de novembro de 2011

Mário Sá-Carneiro: Como eu não possuo


 Como eu desejo a que ali vai na rua,
tão ágil, tão agreste, tão amor...
Como eu quisera emaranha-la nua,
bebê-la em espasmos de harmonia e cor!...


Desejo errado... Se eu a tivera um dia,
toda sem véus, a carne estilizada
sob o meu corpo arfando transbordava,
nem mesmo assim – ó ânsia! – eu a teria...


Eu vibraria só agonizante
sobre o seu corpo de êxtases dourados,
se fosse aqueles seios transtornados,
se fosse aquele sexo aglutinante...


De embate ao meu amor todo me roo
e vejo-me em destroço até vencendo:
é que eu teria só, sentindo e sendo
aquilo que estrebucho e não possuo.

rio Sá-Carneiro
(Portugal 1890-France 1916)
photo by Google