Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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4 de outubro de 2015

Rabindranath Tagore: Se é assim que desejas

Se é assim que desejas,
se for assim do teu gosto,
cessarei de cantar!
Se com isso agitar
teu coração,
do meu olhar o triste brilho
desviarei do teu rosto...
e se eu, de súbito te assustar
no teu passeio despreocupado,
afastar-me-ei do teu lado
e tomarei outro brilho...

Se eu te embaraçar – ai de mim –
quando teceres as tuas flores,
flor encantada,
esquivar-me-ei do teu
solitário jardim
e da tua doce imagem...
E se eu tornar a água turva
e agitada,
jamais remarei a minha barca
para a tua margem...



Rabindranath Tagore
Índia, Calcutá 1861-1941
Trad. Victor de Sá Coelho
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
photo by Google

15 de fevereiro de 2012

Sinto que te amei: Rabindranath Tagore


Sinto que te amei
em inumeráveis formas,
em inumeráveis épocas,
vida após vida,
era após era, sempre.
O meu coração enfeitiçado
fez e refez
o colar de canções
que aceitaste como prenda,
que usas ao pescoço
nas tuas muitas formas,
vida após vida
era após era,
para sempre.

Sempre que ouço antigas 
histórias de amor,
a sua dor sem idade,
o antigo conto da separação
e do reencontro,
quanto mais penso no passado,
no fim, eis que tu emerges
envolta na luz
de uma estrela polar,
penetrando a escuridão dos tempos:
tornas-te uma imagem
do que é para sempre recordado.

Rabindranath Tagore
(India 1861-1941)
Excerto de Unending Love

31 de janeiro de 2012

O Primeiro Beijo: Rabindranath Tagore

Para a minha amada

O céu ficou silencioso e de olhos baixos,
Os pássaros calaram todos os seus cantos;
O vendo emudeceu; a música das águas acabou
De repente; o murmúrio da floresta
Morreu lentamente no coração da floresta.
Na margem deserta do rio tranquilo,
Nas sombras do anoitecer desceu silenciosamente
O horizonte sobre a terra muda.
Nesse momento no silencioso e solitário alpendre
Beijámo-nos pela primeira vez.
Nesse momento exacto, ao longe e perto
Repicaram os sinos e soaram os búzios
Nos templos dos deuses apelando ao culto.
Um estremecimento percorreu o infinito mundo das estrelas
E os nossos olhares encheram-se de lágrimas.

Rabindranath Tagore (Poesias Completas)
(India 1861-1941)
Photo by Google

28 de janeiro de 2012

Rabindranath Tagore: Interminável Amor


Parece-me que te amei de inúmeras maneiras, inúmeras vezes,
Na vida após vida, em eras após eras eternamente.
O meu coração enfeitiçado fez e voltou a fazer o colar das canções
Que tomaste como uma prenda, usando-o à volta do pescoço de
tantas e tantas formas.
Na vida após vida, em eras após eras eternamente.

Sempre que oiço as antigas crónicas do amor, a sua antiga dor,
O seu antigo conto de estar só ou acompanhado,
Quando contemplo o passado, no fim tu apareces
Vestida com a luz da Estrela Polar que trespassa a escuridão do tempo:
Tornas-te uma imagem do que é recordado sempre.

Tu e eu flutuámos aqui na corrente que traz da nascente
Para o coração do tempo o amor de um pelo outro.
Representámos lado a lado milhões de amantes, partilhando
A mesma tímida doçura do encontro, as mesmas amarguradas
lágrimas do adeus -
Antigo amor, mas renovando-se e renovando-se sempre.

Hoje ele acumulou-se aos teus pés, encontrando o seu fim em ti,
O amor de todos os dias, de todos os homens, do passado e de sempre:
Universal Alegria, universal mágoa, universal vida,
As recordações de todos os amores surgindo com este nosso amor -
E as canções de todos os poetas do passado e de sempre.


Rabindranath Tagore

(India 1861-1941)