Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

Mostrar mensagens com a etiqueta Guerra Junqueiro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Guerra Junqueiro. Mostrar todas as mensagens

16 de fevereiro de 2016

Guerra Junqueiro: Regresso ao Lar























           
Ai, há quantos anos que eu parti chorando
Deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
Canta-me cantigas para me eu lembrar!...

Dei a volta ao mundo, dei a volta à Vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh, a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida.
Canta-me cantigas de me adormentar!...

Trago de amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama, que me deste o peito,
canta-me cantigas para me embalar!...

Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
Pedrarias d’astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!...

Como antigamente, no regaço amado
(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!
Ai o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...

Canta-me cantigas manso, muito manso...
Tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
Que a minh’alma durma, tenha paz, descanso,
Quando a Morte, em breve, me vier buscar!



Guerra Junqueiro
Portugal, Freixo de Espada à Cinta 1850 - Lisboa 1923
Trad. Cecília Rego Pinheiro
in Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro
Editor: Assirio & Alvim
photo by Google

31 de maio de 2015

Guerra Junqueiro: Canção perdida

 
Hálitos de lilás, de violeta e d'opala,
Roxas macerações de dor e d'agonia,
O campo, anoitecendo e adormecendo, exala...

Triste, canta uma voz na síncope do dia:

    Alguém de mim se não lembra
    Nas terras d'além do mar...
    Ó Morte, dava-te a vida,
    Se tu lha fosses levar!...

    Ó Morte, dava-te a vida,
    Se tu lha fosses levar!...

Com o beijo do sol na face cadavérica,
Beijo que a morte esvai em palidez algente,
Eis a Lua a boiar sonâmbula e quimérica...


 Doce canta uma voz melancolicamente:


    O meu amor escondi-o
    Numa cova ao pé do mar...
    Morre o amor, vive a saudade...
    Morre o sol, olha o luar!...

    Morre o amor, vive a saudade...
    Morre o Sol, olha o luar!...

Latescente a neblina opálica flutua,
Diluindo, evaporando os montes de granito
Em colossos de sonho, extasiados de Lua...


Flébil, chora uma voz no letargo infinito:

    Quem dá ais, ó rouxinol,
    Lá para as bandas do mar?...
    É o meu amor que na cova
    Leva as noites a chorar!...

    A Lua enorme, a Lua argêntea, a Lua calma,
    Imponderalizou a natureza inteira,
    Descondensou-a em fluido e embebeceu-a em alma...

Triste expira uma voz na canção derradeira:

    Ó meu amor, dorme, dorme
    Na areia fina do mar,
    Que em antes da estrela d'alva
    Contigo me irei deitar!...

  
    Que em antes da estrela d'alva
    Contigo me irei deitar!...

Guerra Junqueiro
Portugal 1850-1923
in Os Simples
Editor: Lello Editores
photo by Google

19 de outubro de 2011

Adoração: Guerra Junqueiro

Eu não te tenho amor simplesmente.
A paixão em mim, não é amor, filha, é adoração!
Nem se fala em voz baixa à imagem que se adora.
Quando da minha noite eu te contemplo, aurora,
E, estrela da manhã, um beijo teu perpassa
Em meus lábios, oh! Quando essa infinita graça
Do teu piedoso olhar me inunda, nesse instante
Eu sinto – virgem linda, inefável, radiante,
Envolta num clarão balsâmico de Lua,
A minh’alma ajoelhar, trémula, aos pés da tua!
Adoro-te!... Não és só graciosa, és bondosa:
Além de bela és santa; além de estrela és rosa.
Bendito seja Deus, bendita seja a Providência
Que deu o lírio ao monte e à tua alma
                                                              ( a inocência,
O Deus que te criou, anjo, para te amar,
                                                                                                     E fez do mesmo azul o Céu do teu olhar!...

Guerra Junqueiro
(Portugal 1850-1923)
                                            " E FEZ DO MESMO AZUL
                                                     O CÉU DO TEU OLHAR!... "