Carta de apresentação


O SECRETO MILAGRE DA POESIA

Sentimo-nos bem com seu contacto.
Disertamos sobre as suas maravilhas.
Auscultamos pequenas portas do seu mistério
e chegamos a perder-nos com prazer
no remoínho do seu interior.
Apercebemo-nos das suas fragilidades e manipulações.
Da sua extrema leveza.
Do silêncio de sangue e da sua banalização.

Excerto

in Rosa do Mundo

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28 de novembro de 2015

Fernando Pessoa: Mar Português


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.



Fernando Pessoa
Portugal, Lisboa 1888-1935
in Mensagem
Editor: Ática
photo by Google

21 de março de 2015

Fernando Pessoa: Bébé, vem cá; vem para o pé do Nininho




















Bébé, vem cá; vem para o pé do Nininho;
Vem para os braços do Nininho;
põe a tua boquinha contra a boca do Nininho…
Vem… estou tão só, tão só de beijinhos…

Quem me dera ter a certeza de tu teres saudades
de mim a valer.
Ao menos isso era uma consolação… Mas tu, se
calhar, pensas menos em mim que no rapaz do gargarejo,
e no D.A.F. e no guarda livros da C.D. & c.!
Má, má, má, má, má…!!!
    Açoites é que tu precisas.
Adeus: vou-me deitar dentro de um balde de cabeça para
baixo para descansar o espírito. Assim fazem todos os
grandes homens – pelo menos quando têm – 1º espirito,
2º cabeça, 3º balde onde meter a cabeça.

Um beijo só durando todo o tempo que o mundo ainda
tem que durar, do teu, sempre e muito teu
                  Fernando (Nininho)


Fernando Pessoa
Portugal » Lisboa 1888-1935
in Cartas de Amor de Fernando Pessoa
a Ophelia Queiróz
Editor: Portugália Editora

photo by Google

Fernando Pessoa: O amor que me têm...



“ O amor que me têm
                      ela disse,

 “ Não tem paixão, que consuma;
ciúme que desvaire; esquecimento, que deslustre.

     Amar-me é como uma noite de verão,
     quando os mendigos dormem ao relento,
     e parecem pedras à beira dos caminhos.

Dos meus lábios mudos não vem o canto das sereias,
nem melodia como a das árvores e das fontes;
mas o meu silêncio acolhe como uma música indecisa,
o meu sossego afaga como o torpor de uma brisa.



Fernando Pessoa
Portugal» Lisboa 1888-1935
in Livro do desassossego de
Bernardo Soares
Editor: Assirio & Alvim
photo by Google

26 de dezembro de 2013

Epitalâmio XIV : Fernando Pessoa


O noivo anseia pelo fim de tudo isto no cio
De conhecer essas entranhas em chupados sorvos,
De pôr primeira mão nesse cabelo do ventre
E apalpar o fojo labiado,
A fortaleza feita para ser tomada, e pela qual
Sente o aríete engrossar e doer de desejo.
A trémula alegre noiva sente todo o calor do dia
Nesse lugar ainda enclaustrado
Onde a sua virginal mão nocturna fingia
Um vazio lucro de prazer.
E dos outros a maior parte é disto que segredará,
Sabendo o rápido trabalho que é;
E as crianças, que observam com ávidos olhos,
Agora antegozam de saber
Da carne, e com homens e mulheres crescidos fazer
O acto coceguento e líquido
Por cujo sabor em cantos escusos tentam
O que mal sabem como é seco ainda.

Fernando Pessoa
Portugal 1888-1935
photo by Google

9 de junho de 2013

Ás vezes em sonho triste: Fernando Pessoa

Às vezes, em sonho triste
Nos meus desejos existe
Longinquamente um país
Onde ser feliz consiste
Apenas em ser feliz.

Vive-se como se nasce
Sem o querer nem saber.
Nessa ilusão de viver
O tempo morre e renasce
Sem que o sintamos correr.

O sentir e o desejar
São banidos dessa terra.
O amor não é amor
Nesse país por onde erra
Meu longínquo divagar.

Nem se sonha nem se vive:
É uma infância sem fim.
Parece que se revive
Tão suave é viver assim
Nesse impossível jardim.


Fernando Pessoa
Portugal 1888-1935
In Poesia 1902-1917
Edição:Manuela Parreira da Silva
Ana Maria Freitas
Madalena Dine
photo by Google

25 de maio de 2013

A estalagem da razão : Fernando Pessoa



A meio caminho entre a fé e a crítica 
está a estalagem da razão. A razão e 
a fé no que se pode compreender sem fé; 
mas é uma fé ainda; porque compreender envolve pressupor que há qualquer coisa 
de compreensível

Fernando Pessoa
Portugal 1888-1935
in Prosa Íntima e de Autoconhecimento
(Reflexões pessoais)
Edição Rui Zenith
Edit. Assirio & Alvim
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Regra de vida : Fernando Pessoa


       Seguindo o critério rigoroso dos ocultistas, mas
aplicando-a fora de exacta conformidade entre
os planos, alguns têm sustentado que em todos esses
planos se deve aplicar a regra de Faz o que Queres.
Mas este «que queres» implica o conhecimento
preliminar de Vera Vontade.
       No animal, que é todo instinto, substancialmente,
e em quem a Vera Vontade é a vontade do instinto, a
vida dos dois instintos, de conservação e de reprodução
representa, deveras, a verdadeira vida de vontade.
Mas isso não é preciso ensinar aos animais.
       No homem superior, isto é, no homem criador,
também a vontade vera está clara no seu destino
de criador, se bem que os obstáculos adquiridos
na passagem pelo simples homem continuamente
perturbem a expressão, e até a descoberta, da
simples vontade sua.
       No homem vulgar, porém, Faz o que Queres
não significa a mesma coisa, por isso que o
homem vulgar é uma individualidade superior
infantil, e as crianças não têm Vera Vontade.
Dizer, portanto, ao homem vulgar que faça o
que é por ele em geral interpretado como
que faça o que lhe agrada, sem atenção
aos outros, nem escrúpulo moral para
consigo mesmo. Ora isto está errado.
A verdadeira vontade


Fernando Pessoa
Portugal 1888-1935
in Prosa Íntima e de Autoconhecimento
(Reflexões pessoais)
Edição Rui Zenith
Edit. Assirio & Alvim
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24 de maio de 2013

Notas para uma Regra de Vida : Fernando Pessoa






















1. Cada um de nós não tem de seu nem de real 
    senão a sua própria individualidade.
2. Aumentar é aumentar-se.
3. Invadir a individualidade alheia é, além de contrário ao princípio
    fundamental, contrário (por isso mesmo também) a nós mesmos,
    pois invadir é sair de si, e ficamos sempre onde ganhamos (Por isso
    o criminoso é um débil, e o chefe um escravo.) (O verdadeiro forte é
    um despertador, nos outros, de energias deles. O verdadeiro mestre
    é um mestre de o não acompanharem.)
4. Atrair os outros a si é, ainda assim, o sinal da individualidade.


Fernando Pessoa
Portugal 1888-1935
in Prosa Íntima e de Autoconhecimento
(Reflexões pessoais)
Edição Richard Zenith
Edit. Assirio & Alvim
photo by Google

22 de maio de 2013

Notas para uma regra de vida : Fernando Pessoa


Precisar de dominar os outros é precisar dos outros. O chefe é um dependente.


Aumentar a personalidade sem incluir nela nada alheio — nem pedindo aos outros,
nem mandando nos outros, mas sendo outros quando outros são precisos.

Reduzir as necessidades ao mínimo, para que em nada dependamos de outrem.

É certo que, em absoluto, esta vida é impossível. Mas não é impossível relativamente.

Consideremos um dono de escritório. Ele tem obrigação de poder dispensar toda a gente;
tem obrigação de saber escrever à máquina, de saber contabilidade, de saber varrer o escritório. 
Que a sua dependência dos outros seja, portanto, só uma necessidade de não perder tempo, 
e não uma necessidade da incompetência própria. Que diga ao praticante
«Vá deitar esta carta ao correio» porque não quer perder o tempo que levaria a deitá-la no correio 
mas não porque não saiba onde é o correio. Que diga ao empregado, «Vá tratar deste assunto ali», 
porque não quer perder o tempo de o tratar, mas não porque não saiba tratá-lo."


Fernando Pessoa
Portugal 1888-1935
in Prosa Intíma e de Autoconhecimento
(Reflexões pessoais)
Edição Richard Zenith
Edit. Assirio & Alvim 
photo by Google

15 de maio de 2013

Regra de Vida : Fernando Pessoa


1. Faz o menor número de confidências possível. É melhor
         não fazeres nenhumas, mas se fizeres algumas, fá-las
         falsas ou imprecisas.

2. Sonha o menos possível excepto quando o propósito
        directo do sonho for um poema ou uma produção
        literária. Estuda e trabalha.

3. Tenta ser o mais sóbrio possível antecipando a sobriedade
         do corpo por uma atitude sóbria da mente.
       
4. Sê amável apenas por simples amabilidade, não abrindo
         a tua mente ou discutindo livremente os problemas que
         estão ligados à vida íntima do espírito.

5. Cultiva a concentração, tempera a vontade, faz de ti uma
          força pensando, o mais intimamente possível, que és
          realmente uma força.

6. Considera quão poucos amigos verdadeiros tens, porque
          poucas pessoas são capazes de ser amigas de alguém.

7. Tenta cativar por aquilo que o teu silêncio contém.

8. Aprende a agir prontamente nas pequenas coisas, nas
            coisas triviais da vida da rua, da vida doméstica, da vida
            do trabalho, a não tolerares atrasos vindos de ti próprio.

9. Organiza a tua vida como uma obra literária, pondo nela
           tanta unidade quanta possível.

10. Mata o Assassino.


Fernando Pessoa
Portugal 1888-1935
in Prosa Intíma e de Autoconhecimento
(Reflexões pessoais)
org. Richard Zenith
Edit. Assirio & Alvim 
photo by Google

5 de maio de 2013

A decadência : Fernando Pessoa


Tece, amor, as grinaldas com que queres
Coroar o amor que nem sabemos ter,
Com brancas mãos em lento movimento
De papoulas e pobres malmequeres...
Tece-as para que ao menos o momento
Em que as teces nos possa pertencer.


Se para coroar o amor as teces
Pensas no amor tecendo-as, e assim amas;
Se vendo-te, em ti vejo que o conheces
Amo contigo o amor em que tu pensas.
E um momento o amor queima as suas chamas
Na ara das nossas almas já pretensas.

Mas se a grinalda é feita, o amor cessou.
Se é preciso entre nós o gesto e o gozo
Nunca o pensado amor levanta o voo,
Nunca da nossa noite de sentir
Raiou o sol do alto, e o olhar cobiçou
Uma cousa real que vá fruir.

No sonho do que nunca pode haver
Entre nós, porque há em nós o pensamento,
Gastamos o desejo sem o ter.
A taça cai do gesto mal seguro
Porque pensamos em beber, e o intento
Cansa o braço, e é entornado o néctar puro.

Viemos, meu amor, no fim da tarde.
O que há do sol é o que resta acima
Dos montes, poesia baça e sonho que arde,
E só por saudade os céus anima.
O nosso olhar não ousa olhar o outro

Outros tiveram por seu tempo o dia
Gozaram outros quando o sol era alto,
A vergonha que há em nós da sua orgia
É a vergonha de nós a não ousarmos.
Nós pensamos no amor em sobressalto
E para amarmos só nos falta amarmos.

Os deuses foram-se, e consigo foi
A clareza da alma para (com) a vida.
O que ontem era o gozo, é o que hoje dói.
O que ontem era a cousa procurada
É hoje só a cousa apetecida,
Ainda desejada e não ousada.


Fernando Pessoa
(Portugal 1888-1935)
                                          “in Poesia 1918-1930”

O amor que eu tenho não me deixa estar : Fernando Pessoa
























O amor que eu tenho não me deixa estar
Pronto, quieto, firme num lugar
Há sempre um pensamento que me enleva
E um desejo comigo que me leva
Longe de mim, a quem eu amo e quero.
Inda de noite, quando durmo, espero
A manhã em que torne a vê-la e amá-la.

Mau sonho aquele que me não embala
E me inquieta, só com não poder
Um momento pensar sem nela ser.

Bebo por taças de ouro o seu sorriso.
Ela é pequena, mas não é preciso
Bem maior em tamanho, quando o bem
E maior que □


Fernando Pessoa
(Portugal 1888-1935)
“in Poesia 1918-1930”
photo by Google


Porque o olhar de quem não merece : Fernando Pessoa

Porque o olhar de quem não merece
O meu amor para outro olhou,
Uma dor fria me enfurece,
Decido odiar quem me insultou.

Vil dor, vil causa e vil remédio!
Quanto melhor não fora achar-se
No antigo sem-amor, com tédio,
Mas sem dor de que envergonhar-se!

Ainda assim nem no fundo
Da taça desta dor que é vil
Há um vago □
Um vago □ subtil...

Por isso talvez valha mais
Dar por não vis a causa e a dor
E ir buscar o amor □
Como se o sonho fosse o amor.


Fernando Pessoa
(Portugal 1888-1935)
“in Poesia 1918-1930”
photo by Google

Fiquei doido, fiquei tonto : Fernando Pessoa

Fiquei doido, fiquei tonto…
Meus beijos foram sem conto,
Apertei-a contra mim,
Aconcheguei-a em meus braços…
Fiquei tonto e foi assim…

Sua boca sabe a flores,
Bonequinha, meus amores,
Minha boneca que tem
Bracinhos para enlaçar-me,
E tantos beijos p’ra dar-me
Quantos eu lhe dou também.

Ah que tontura e que fogo!
Se estou perto dela, é logo
Uma pressa em meu olhar,
Uma música em minha alma,
Perdida de toda a calma,
E eu sem a querer achar.

Dá-me beijos, dá-me tantos
Que, enleado nos teus encantos,
Preso nos braços teus,
Eu não sinta a própria vida,
Nem minha alma, ave perdida
No azul-amor dos teu céus.

Não descanso, não projecto
Nada certo, sempre inquieto
Quando te não beijo, amor,
Por te beijar, e se beijo
Por não me encher o desejo
Nem o meu beijo melhor.


Fernando Pessoa
(Portugal 1888-1935)
“in Poesia 1918-1930”
photo by Google

3 de maio de 2013

Inês : Fernando Pessoa



Sentados sós, lado a lado,
Com a névoa dos montes ao fundo
Do fundo do céu azulado.

(Na hora das rosas a morte)
 
Eu o que dizia era
Igual ao que eu não dizia,
Princípio da primavera.

(Na hora das rosas a morte)

Os nossos pés, lado a lado,
Quietos na erva, curvando-a,
Na erva de qualquer prado.

(Na hora das rosas a morte)

Sobre nós a sombra dos ramos,
Nossas costas no tronco largo,
Lado a lado, □

(Na hora das rosas a morte)

Braço esquerdo, braço direito
Tocando de leve um no outro
Lado a lado, ali, sem defeito.

(Na hora das rosas a morte)

Sem olharmos um para onde
Estava o outro, mas lado a lado
Ao fundo do fundo o monte.

(Na hora das rosas a morte)

O que a alma me respondia
Do lado de mim, existente;
Era o mesmo que eu dizia.

(Na hora das rosas a morte)

Jardim do princípio da vida?
Ninguém... Lado a lado olhando
Nada connosco a descida.

(Na hora das rosas a morte)

Depois era a estrada deserta
E vedando-a de nós o muro
Lá em baixo, a descida finda2

(Na hora das rosas a morte)

Depois, para além da estrada
Subia outra vez... Lado a lado
Viamos, sem ver nada.

(Na hora das rosas a morte)

Depois era o monte pequeno,
Depois montes e mais montes,
O último o mais sereno

(Na hora das rosas a morte)

No monte do fim se via
A névoa no alto do monte,
Um sol frio aquecia.

(Na hora das rosas a morte)

E a copa da árvore descida
Só pouco do céu azul
Deixava ao olhar e à vida

(Na hora das rosas a morte)

Não sei como foi, ou o que era
Dos montes, da sombra, da erva,
Princípio da primavera...

(Na hora das rosas a morte)


Fernando Pessoa
(Portugal 1888-1935)
“in Poesia 1918-1930”
photo by Google